Dia 1
Natália acordou desorientada e olhou em volta. Estava em seu quarto, em sua casa. Pela posição em que estava, devia estar no chão, e realmente ela estava. Seu tronco estava amarrado ao pé da cama e suas mãos estavam presas para trás, tendo apenas as pernas livres. Por outro lado, suas pernas estavam enfaixadas de modo errôneo por ataduras que mal davam para ocultar o sangue coagulado das feridas. Elas não mais ardiam como no momento em que Miguel fizera aquele ato abominável, mas cada marca doía muito.
Ela olhou para cima e notou que a filha ainda dormia dentro do berço. Miguel não havia feito nada de mal à menina e Natália aliviou-se por isso.
Sua situação não poderia estar pior. Havia acabado de dar a luz e logo após sofrera agressão do marido que jamais havia encostado um dedo nela. Todo o seu corpo doía de modo inexplicável, de tal forma que mesmo se pudesse livrar-se daquelas amarras, não conseguiria sair dali.
A porta do quarto estava aberta e dava para ver, mesmo que de forma não muito nítida, que já era outro dia, parecia estar de manhã ou de tarde. Não dava para ver muito bem, pois tudo estava fechado, desde a porta até as janelas, o que dava a impressão de que aquele lugar não era uma casa, mas uma caverna.
Miguel havia enlouquecido de vez, Natália sabia. Qual sentido teria em ele bater em suas pernas com toda aquela força, para logo depois enfaixá-las, mesmo que as ataduras não cobrissem tudo muito bem? Não teria sido mais fácil ele deixá-la sangrando em cima da cama? Afinal, ele mesmo havia dito que estava sentindo muito ódio dela. Mas nada daquilo fazia sentido, Natália pensou ao sentir uma lágrima cair em sua face e olhou para a sala pela pequena fresta da porta. O lugar parecia vazio, sem nenhum sinal de Miguel.
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Dia 2
A água jogada em seu rosto fez Natália despertar.
Ela estava com sono e muito fraca. Miguel continuou a bater nela e torturá-la psicologicamente, mesmo com os atos que ele fazia contra ela ou contra si próprio. Ele estava completamente louco e insano, mas parecia perdido, sem ter plena consciência do que estava fazendo. Ele estava estressado demais com tudo e com todos e estava usando o corpo e o psicológico de Natália para despejar todas as suas frustrações. Natália estava perdida, abandonada numa caverna escura e sendo alvo principal de um maníaco que se parecia com seu marido. O único consolo que ela ainda tinha era a filha que já estava com os olhos abertos, mas alheia àquilo tudo.
— Acorde — Miguel rosnou. — Não mandei você dormir.
Natália não disse ou fez nada, apenas soluçou prestes a chorar, o que só incitaria ainda mais a raiva dele. Ela já não se permitia mais nada, apenas aguentar as dores que vinham de seu corpo e de sua cabeça. Era como se roubassem a sua alma, como se todo o sentido da vida tivesse se perdido, e pela primeira vez, sabia o que Miguel havia sentido da outra vez antes de desaparecer para sempre. Ele podia continuar fazendo o que quisesse, ela já não se importava mais. Apenas preocupava-se com a filha, seu bebê inocente, sua única esperança de que todo aquele terrível episódio de sua vida terminasse de uma vez.
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Dia 3
Miguel andava de um lado para o outro dentro do quarto. Natália observava as loucas ações daquele homem que agora era tão desconhecido para ela. Sua barriga doía de fome; nenhum dos três havia se alimentado. Miguel estava muito desnorteado em seu próprio mundo frustrado e insano para sequer pensar em comer ou beber algo. Natália sentia fome, mas, ao mesmo tempo, não sentia nada.
Ela olhou para o bebê.
Estava preocupada com a sua menina, afinal, era um bebê recém-nascido e precisava ser alimentada. Precisava de seu amparo, sua proteção, não ficar presa naquele berço pelo terceiro dia seguido.
Natália havia notado. Em momento algum Miguel tocou na filha, evitando-a ao máximo possível. Era como se a criança não existisse para ele, apenas Natália, a quem ele não parava de torturar físico e psicologicamente.
Contudo, a menina começou a chorar, não apenas para chamar a atenção do pai que tanto a ignorava, como também para ser cuidada e alimentada. Natália sentiu-se mal por saber que a criança precisava de cuidados, mas, infelizmente, não podia fazer nada pela filha. Não enquanto aquele inferno continuasse.
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Dia 4
A menina não parava de chorar, nem por um momento. Devia estar com muita fome e carente de amor e carinho por parte dos pais. Natália não conseguia parar de chorar pela situação da filha recém-nascida e de toda a crueldade vinda de Miguel — ou de um homem maligno disfarçado do marido que ela sempre tanto amou.
— Inferno!
Natália pulou assustada com a raiva de Miguel. Não havia um momento em que ele não estivesse furioso. E agora ele parecia estar muito irritado com a criança, Natália pensou preocupada.
Miguel andou a passos curtos na direção do berço e encarou irritado a filha que tanto chorava.
— Essa criança não para de chorar — Ele reclamou furioso. — Cale essa boca!
Natália tentou se mexer, mas as cordas a apertaram ainda mais.
— Miguel, não! — Falou aflita. — Não faça nada a ela, por favor!
Os olhos sombrios dele pairaram nela.
— Esta maldita criança está gritando e chorando sem parar desde ontem — Ele disse com a voz rouca. — Está me deixando mais irritado.
Maldita criança? Natália meneou a cabeça, descrente do que acabara de ouvir.
Como ele podia chamar aquela criança que eles haviam feito com tanto amor de "maldita"? Como ele podia estar com tanto ódio de sua própria filha?, Natália perguntou-se silenciosamente enquanto mais lágrimas invadiam-lhe o rosto.
Mesmo assustada e desolada com tudo, Natália conseguiu ser mais rápida antes que Miguel pudesse fazer algum mal à menina.
— Não faça nada a ela! — Natália gritou quando Miguel abaixou-se para pegar a criança. — Faça o que você quiser comigo, pelo amor de Deus, mas não faça nada a ela — suplicou aos prantos.
Miguel estreitou os olhos sombrios e voltou a deitar o bebê no colchão. Com determinação no olhar, caminhou lentamente na direção de Natália. Ele iria matá-la?, ela pensou apavorada enquanto o via chegar cada vez mais perto. Miguel parou à sua frente e abaixou-se, o rosto à centímetros do seu. Por um momento, Natália pensou que ele fosse beijá-la, mas aquele homem não era mais o Miguel, o marido que a amava e a cobria de beijos e carícias. Tremendo e tomando uma respiração profunda, Natália temeu o que viria em seguida, mas permaneceu calada. Suportaria qualquer coisa que ele fizesse a ela, mas não o deixaria fazer nenhum mal à menina, mesmo que tivesse de morrer para isso.
Miguel afastou as pernas dela com rudeza e Natália gritou e dor, sentindo mais lágrimas invadirem seus olhos por conta da dor das feridas que ainda não estavam cicatrizadas. Logo em seguida, ele pegou a sua calcinha, rasgando-a e jogando para o outro lado e abriu o zíper da calça que ainda vestia. Natália o encarou, paralisada.
Ele iria mesmo fazer aquilo? Sempre fizera amor com Miguel, desde o dia em que se conheceram, e ela amava as relações sexuais que ambos tinham, mas aquela vez seria diferente. Ele iria violentá-la, abusar de seu corpo fraco sem qualquer piedade. Além do mais, aquele sujeito estava à anos luz de ser o homem que ela amava.
Miguel livrou-se da calça até os joelhos e puxou o corpo dela para si, adentrando o corpo feminino com fúria.
Natália sentiu ainda mais vontade de chorar, tamanha era a dor que estava sentindo. Miguel não dava nenhuma trégua em nenhum momento. Ele avançava com fúria contra o seu corpo, como se aquela fosse mais uma maneira de descontar todo o ódio que o consumia cada vez mais. Mas Natália manteve-se firme e aguentou tudo calada, apesar de seu corpo estar quase desfalecendo pelos ataques incessantes do homem que se parecia com seu marido. O ódio dentro de Miguel estava o fazendo esquecer-se de tudo e incitando-o a agir como um louco. Aguentar aquilo e mais o que teria por vir não seria fácil, mas ao menos a sua filha estaria a salvo.
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Dia 5
Aquela estava sendo mais uma sessão de violência contra o corpo de Natália. Quando Miguel não a estava torturando físico e psicologicamente, ele abusava de seu corpo sem nenhuma compaixão.
Enquanto ele arremetia fortes estocadas para dentro do corpo feminino e a respiração pesada e irregular sopravam no pescoço dela, Natália encarava fixa e vagamente para o vazio, não demonstrando nenhuma expressão além da dor e da tristeza. Por um breve momento, Natália lembrou-se dos momentos íntimos que havia passado com ele, a forma carinhosa e, ao mesmo tempo, selvagem que seu marido a acariciava e fazia amor com ela. Seus olhos claros outrora transmitiam amor e desejo, suas mãos tocavam o seu corpo como se estivesse prestando-lhe adoração. Agora tudo parecia ter virado de cabeça para baixo, revelando um homem completamente louco e desesperado. Ela sabia que todo aquele desespero advindo do marido era por algo, mas, como antes, ela nada podia fazer para ajudá-lo. Para ser exato, Natália nem mesmo sabia o que fazer para salvar a si e sua filha daquele estranho ser que ocupava o corpo do marido.
Miguel esvaziou-se dentro dela com um rugido animalesco, prensando o corpo feminino contra o pé da cama. Natália sentiu a sua coluna doer, mas ignorou o desconforto. Seu corpo inteiro já estava em situação preocupante, mas agora nada mais lhe importava que não fosse a proteção da filha.
Miguel se pôs de pé, fechando a braguilha da calça, mas Natália desviou o olhar até o berço onde dormia a bebê. A menina não aguentaria continuar vivendo naquela preocupante situação, pois ainda era um bebê recém-nascido, Natália pensou com seu coração se enchendo de aflição. Se ao menos ela pudesse fazer com que sua menininha escapasse de todo aquele inferno, mesmo que apenas ela continuasse a sofrer nas mãos de Miguel.
A última coisa que quero é te assustar.
Se algum dia eu enlouquecer, por favor, me pare.
Natália fechou os olhos com força e uma lágrima solitária caiu em sua face.
E pensar que todo aquele tormento pudesse ter sido evitado se Miguel não houvesse entrado para o Instituto de Ciências. Pois todo o vício que ele começara a obter, toda a persistência e noites mal dormidas haviam sido por causa daquele trabalho. Tudo na vida deles estava dando errado por causa daquele maldito trabalho.
Natália ouviu um rangido vindo da porta e abriu os olhos, notando que o quarto estava vazio e que a porta semiaberta oscilava de um lado para o outro. Miguel não se encontrava ali. Mas o que, de fato, chamou sua atenção foi ter ouvido algo parecido com choro vindo do outro lado da sala.
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Dia 6
A criança continuava a chorar por causa da fome e de carência por não ter o calor e a proteção dos pais. Natália estava fraca e ainda mais abatida por ainda estar naquela terrível situação. Nenhum dos três comia ou bebia nada, mas Miguel e ela poderiam aguentar, diferente da filha que ainda era um bebê e não fora alimentada desde o nascimento. Natália estava preocupada mais com a situação delicada da menina do que com Miguel ou consigo mesma. Tinha medo de que algo ruim fosse acontecer à filha e o seu coração sangrava em somente pensar na possibilidade. Ouvira Miguel chorar no dia anterior e parte sua sabia que ele estava começando a voltar a si, dando-se conta de toda a loucura e desgraça que havia cometido a si mesmo e à sua família. Mesmo que o temesse, ela quis abraçá-lo e consolá-lo de alguma forma por saber que ele estava sofrendo. Miguel não apenas estava fazendo esposa e filha sofrerem, mas ele também estava sofrendo muito e estava completamente perdido em suas angústias, deixando os seus sentimentos desabaram em lágrimas de desespero.
Miguel estava sentado em outra ponta da cama, olhando fixamente para o nada, os olhos vermelhos e inchados e a expressão vazia. Ele parecia alheio ao pranto da criança e Natália fez mentalmente uma prece para que ele não fizesse mal nenhum a menina. No entanto, os olhos dele se mexeram, parecendo notar o que estava ocorrendo no quarto. O seu olhar passou onde a criança estava e levantou-se, andando na direção dela. O coração de Natália começou a bater mais forte, dando lugar ao medo. Miguel estava chegando cada vez mais perto da menina.
— Miguel, não! — Natália suplicou debatendo-se contra as cordas que cingiam os seus braços. — Por favor, não faça nada de mau a ela!
Miguel a ignorou e parou em frente ao berço da criança, agachando-se para pegá-la. Os lábios de Natália tremeram pelo pânico.
Ela estava lá, presa por cordas ao pé da cama, prestes a ver o marido fazer alguma maldade à própria filha e sem poder fazer nada para impedir. Ela continuou a se mexer contra as cordas e deixou cair mais lágrimas de desespero.
— Pelo amor de Deus, Miguel, ela é nossa filha! Faça o que quiser comigo, por favor, mas não faça nada a ela — Natália soluçou angustiada. — Por favor, eu imploro!
Miguel continuou a ignorá-la e parou ao lado da cama, colocando cuidadosamente a menina deitada no colchão. Natália observou a cena sem entender e Miguel deu a volta pela cama, parando em frente a ela, e agachou-se sem olhá-la nos olhos.
Ele iria tornar a fazer aquilo, Natália pensou temerosa. Mas não seria problema agora, pois preferia muito mais ter seu corpo violentado por ele do que ver algo ruim acontecer ao seu bebê. Contudo, diferente do que achava, Miguel passou as mãos ao redor dela e desatou cada nó das cordas apertadas, deixando seus doloridos e dormentes braços livres. Os braços de Natália tremiam e ela mal conseguiu levantá-los, mas os encarou sem entender. O que ele estaria fazendo?
— Miguel?
Ele nada disse, voltou para onde a menina estava e a carregou nos braços, a levando até Natália. Ela olhou preocupada para a filha enquanto Miguel se agachou para aninhá-la em seus braços.
— Ela ficou por muito tempo naquele berço — Ele disse olhando para o vazio, menos para as duas. — Vou dar um tempo para você amamentá-la. — Miguel colocou a menina nos braços de Natália e levantou-se, saindo do quarto.
Natália olhou para a porta semiaberta sem saber o que pensar ou o que dizer. Ela tornou a olhar para a menininha em seus braços. A criança ainda estava chorando, mas não tanto quanto antes. E como se sentisse o calor e o cheiro da mãe, a bebê tateou à procura do seio, enfiando a cabecinha entre eles. Os olhos de Natália despejaram mais lágrimas e ela liberou um seio, vendo a filha abocanhar e sugar o líquido com avidez. A menina estava morrendo de fome, o que deixou Natália ainda mais triste, pois também não havia se alimentado, o que consequentemente faria com que o leite materno acabasse rápido e a bebê chorasse ainda mais.
Ela não sabia o porquê da súbita mudança de Miguel em relação à menina, mas agradeceu a Deus em pensamento por nada de ruim ter ocorrido. Algo lhe dizia que Miguel estava voltando a ser o que era, libertando-se das amarras do ódio que o consumira, mas também preferiu não alimentar as esperanças.
Acolheu para mais perto sua filhinha nos braços, observando-a a mamar avidamente.
— Logo tudo ficará bem, meu amor — Disse chorosa. — E o seu pai voltará para nós.
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