Dia 7
Ele ainda não havia voltado a si, estava nervoso e andando de um lado para o outro.
Os olhos de Natália voltaram-se para a filha que dormia calmamente no berço. Agora a menina parecia estar melhor, mas teria que cuidar de suas higienes. Esperaria Miguel se acalmar um pouco para depois pedir permissão a ele para cuidar da criança. Antes, ele parecia estar mais acessível, embora perigoso, mas, infelizmente, havia voltado a perder o controle.
Natália olhou para os braços já soltos no colo. Miguel não a havia prendido novamente, mas ela optou por permanecer no mesmo lugar, não queria irritá-lo ainda mais. Ele estava muito estressado, a respiração pesada. Mas em nenhum momento voltou a agredi-la ou gritar com ela, o conflito era mais consigo mesmo. Para dizer melhor, sempre foi mais consigo mesmo.
— INFERNO! — Miguel bradou e deu um soco certeiro no espelho acima da cômoda.
Natália teve um pequeno sobressalto, assustada com a cena, e notou que o bebê havia acordado, remexendo-se de modo desconfortável no berço.
— Inferno... — Miguel repetiu desolado, apoiando o corpo na beirada da cômoda e segurando a mão que sangrava.
Natália estava com medo, mas não pôde evitar estar preocupada com o ferimento do marido. Ela engoliu em seco, perdida se diria ou faria qualquer coisa. Miguel estava cabisbaixo e seu rosto estava transfigurado pela dor, talvez não a física, mas a emocional. Natália remexeu-se um pouco, mas preferiu não sair do lugar.
— Miguel... — Ela o chamou, a voz fraca e hesitante.
Miguel olhou em sua direção. Mas não parecia que ele a estava fitando, mas sim ao vazio.
— Venha. — Natália estendeu seus braços a ele. Miguel pareceu evitá-la por um momento, mas saiu do lugar, andando em sua direção, e agachou-se de frente à ela.
Mesmo com os braços ainda tremendo, Natália ergueu as mãos e pegou a mão masculina que estava com as costas dos dedos sangrando muito e praticamente em carne viva. A mão dele também estava tremendo. Natália rasgou um pedaço de lençol da cama, limpando o líquido vermelho com cuidado. Felizmente, não havia nenhum caco de vidro grudado, pelo menos nenhum que pudesse ser visto. E nesse breve momento de cuidado, os olhares de ambos se encontraram e um fitou o outro intensamente. Os olhos de Miguel não mostravam a total escuridão de antes, mas ela não soube distinguir o que havia neles, talvez fosse um misto de emoções. Aquele à sua frente ainda não era o homem que ela amava, mas também não parecia ser o louco insano de antes. Ela queria saber o que ele estaria pensando. Ele ainda a amava ou a odiava? Queria continuar a torturá-la ou estava começando a se arrepender de todas as coisas terríveis que havia cometido?
O breve contato entre eles havia sido interrompido pelo choro da filha. Miguel olhou de modo indiferente para a menina e depois levantou-se. Contudo, em vez de ir na direção da criança, foi para o banheiro. Antes de entrar, parou sem olhar para trás.
— Por enquanto, você pode sair de onde está para amamentá-la.
Natália, confusa, o observou se retirar e trancar a porta atrás de si. Ela olhou para a filha que ainda chorava, mas, antes de se levantar, se pôs a pensar em tudo o que havia ocorrido até ali.
Uma parte sua tinha esperança de que Miguel estava voltando a si aos poucos e havia se arrependido das coisas horríveis que fez; aqueles olhos não negavam esse pensamento. Mas outra parte sua se perguntava se ele realmente estava voltando a ser o que era, o seu amado marido. Mesmo querendo que tudo voltasse a ser como era antes, lembrou-se que também tivera esperanças nas outras vezes e agora encontrava-se naquela situação lastimável — não somente ela, como também a filha.
Natália levantou-se um pouco vacilante por conta da imensa dor nas pernas, andou até o berço e carregou sua filha nos braços.
Jamais havia se imaginado sem Miguel, sem o seu calor a envolvendo. Por muito tempo, gostava da vida tranquila que tinha naquela casa, a isenção de preocupações sobre onde iria se deitar ou o que iria comer, pois Miguel havia suprimido todas aquelas necessidades, além do amor e proteção que ele lhe dera.
Ela aconchegou a cabecinha da bebê perto de seu coração e enxugou uma lágrima que havia caído.
Prometera que ficaria ao lado do marido em todas as fases; na alegria e na tristeza, não importasse o que viria a acontecer. Não sabia qual seria o seu destino dali para frente, nem mesmo para onde iria, mas sua filha não podia mais viver daquele jeito ou iria morrer. Ela também acabaria por morrer se continuasse naquela terrível situação. Então, a única solução que lhe restava seria fugir dali antes que fosse tarde demais.
Natália não sabia por quanto tempo ficaria longe de Miguel, mas daria tempo ao tempo até que o verdadeiro Miguel, o homem com quem havia casado e que tanto amava, se recuperasse de todo aquele ódio que o consumia. Doeu-lhe no fundo da alma ter que deixar aquela casa que guardava tantas lembranças maravilhosas e também ter que deixar tudo para trás. Mas aquele homem não era o seu marido, era um ser maligno que ainda habitava o corpo dele. Natália teria de ir embora para salvar a sua vida e a vida da criança que Miguel fizera questão de negar a paternidade.
Natália aconchegou ainda mais a menina em seus braços numa tentativa de aquecer o corpo pequeno e frágil, olhando mais uma vez para aquela casa que outrora lhe trouxera tantas felicidades, e finalmente partiu dali com a sua filha.
♤
A lua brilhava no céu escuro e tudo parecia muito silencioso.
Natália continuou a andar pela escuridão com sua filha nos braços, sem ter a mínima idéia de onde estava ou para onde iria. Seu andar era vacilante e de vez em quando ela tropeçava e parava para respirar devido às dores muito fortes em todo o seu corpo, principalmente nas pernas. A menina continuava a chorar e Natália sentia-se mal por não poder fazer nada pela filha naquele momento. Não podia parar num canto e amamentá-la, pois teria que encontrar um lugar quente e seguro. A noite estava fria demais, nem mesmo ela estava suportando. Além disso, queria fugir para o mais longe possível de Miguel antes que ele percebesse a sua ausência. Mesmo assim, ainda que tentasse ser mais rápida, suas pernas fracas tremiam e as ataduras mal colocadas estavam começando a se desgrudar. Natália cambaleia exausta e caiu sentada numa pequena escadaria em frente à uma bela casa enquanto protegia a menina nos braços. O ar lhe faltava nos pulmões, sua cabeça girava e todo o seu corpo doía.
Ela olhou para a sua menininha que agora não chorava tanto.
Miguel logo perceberia sua ausência e não demoraria muito para ele encontrá-la e ela sabia que as coisas poderiam ficar ainda piores se ele o fizesse. Não seria justo para a sua filha continuar sofrendo aquilo tudo, passar por coisas até piores que antes. Havia fugido de casa para proteger a vida da filha e não poderia fazer com que a sua fuga fosse em vão. Por mais que doesse, por mais que o seu coração rasgasse apenas em pensar na possibilidade, teria de deixá-la.
— Meu amor... — Natália soluçou ao acariciar o rosto do bebê. — Desculpe a mamãe.
Uma lágrima após outra inundou o rosto machucado e cansado de Natália.
— Eu realmente não sei o que aconteceu para que o seu pai ficasse daquele jeito, nem sei quando ele irá voltar para a gente. — Ela soluçou mais alto, mal contendo o choro. — A mamãe está com medo do que ele possa fazer a você. E se algo acontecer a você, eu morro.
Natália pegou a mãozinha frágil e delicada da filha e ali depositou um beijo molhado por conta das lágrimas.
— Eu te amo — disse, a voz embargada. — Desde quando eu soube à primeira vez que você estava aqui dentro de mim. Mas, infelizmente, o seu pai não sente o mesmo...
Natália mais uma vez beijou a mão da menina e caiu em prantos, soluçando descontroladamente.
— Eu sinto muito por tudo o que está acontecendo, meu amor, mas a mamãe não vai poder ficar com você. Por enquanto.
Natália não queria ter de deixar a filha, abandoná-la como se fosse um objeto usado, não queria ir embora sem a sua menininha. Mas, no fundo, ela sabia que não tinha para onde ir e toda aquela situação só seria pior para a criança. Era um milagre a menina ainda estar viva depois de passar dias sem ser alimentada e higienizada. Natália não pretendia voltar para casa, pois sabia que iria sofrer e submeter a filha a mais dias como aqueles, ou vagar com ela por aí sem saber aonde iria ficar, seria loucura e irresponsabilidade de sua parte. Ela iria sofrer, e muito, mas a menina não merecia continuar passando por aquilo.
— Me perdoe. Está bem?
A criança mal estava coberta e nem mesmo havia uma cesta para colocá-la dentro. Natália pôs o pequeno e frágil corpo do bebê em frente à porta de entrada e em seguida tocou a campainha. Como se já sentisse falta do calor da mãe, a criança voltou a chorar e Natália sentiu-se ainda mais destruída. Ela não conseguiria aguentar ficar longe da filha.
Olhando para a menininha uma última vez, apressou-se em sair dali, a visão turva pelas incessantes lágrimas. Logo alguém apareceria e a tomaria nos braços, protegendo-a e lhe dando os cuidados necessários que ela e Miguel não deram. Mas aquilo não era um adeus, pois voltaria a ter a sua filha nos braços.
♤
O ar estava rarefeito e as suas pernas estavam cada vez mais bambas pela dor e pelo cansaço. Natália cambaleava para lá e para cá, perdendo total equilíbrio e sem nem mesmo ter ideia para onde ir. Não poderia voltar para Miguel, não depois de tudo o que ele havia feito ou do que ela mesma fizera com a filha por causa dele. Ele não era mais o marido cuidadoso que a amava e que almejava tanto ser pai, mas um estranho que cometeu terríveis atos contra ela e quase fez o mesmo com a filha deles.
Poucas luzes iluminavam as ruas, o caminho que ela percorria dava em tantos lugares, mas, ao mesmo tempo, não dava em nada. Natália estava sozinha, perdida, com o corpo fraco. Abandonar o homem que sempre tanto amou doía, mas doía ainda mais ter abandonado a própria filha recém-nascida. Ela não queria ter de fazer aquilo, mas as péssimas circunstancias em que se encontrava a obrigaram a cometer tal ato repulsivo e, acima de tudo, doloroso.
Ela já não se encontrava mais perto das ruas normais e das casas suburbanas; o lugar em que estava era praticamente vazio e silencioso, tinha matos tão altos que davam a impressão de que, por mais que andasse para longe, permanecia no mesmo lugar. A situação estava ficando cada vez mais desesperadora, a respiração de Natália se alterava mais conforme as fortes e insuportáveis dores que sentia e pelas frenéticas batidas do seu coração. Ela via tudo, mas não via nada; sentia tudo, mas não sentia nada. Tudo começava a rodar, a perder o foco e Natália já estava começando a perder a consciência. Ela sentia que estava prestes a desmaiar, quando algo despertou a sua atenção: os faróis de um carro.
Natália pôs o braço sobre o rosto para proteger-se da luz forte e observou o carro desconhecido andar em alta velocidade em sua direção. O veículo não deveria estar ali, naquele lugar não tinha asfalto, somente mato alto. Do jeito que o carro corria, ela pôde ter certeza de que morreria naquele momento, até que houve uma freada brusca e a porta se abriu, de lá saindo um homem que parecia estar afoito procurando por alguém.
O coração de Natália parou por um breve momento quando ela encarou a silhueta que lhe era tão familiar. Aquela pessoa que andava a passos curtos e apressados em sua direção era Miguel; ele a havia achado.
Com muito esforço, ela conseguiu sair de seu transe e correr o mais rápido possível na direção oposta, mas o seu corpo inteiro parecia não colaborar.
Miguel foi chegando mais perto enquanto Natália lutava com todas as suas forças para fugir dele. Com toda a certeza, ele a manteria trancada novamente em casa e faria até pior que antes, talvez até mesmo a matasse. Era estranho e amedrontador pensar que o homem que sempre amou pudesse sequer pensar em fazer tudo aquilo. Mas era real o que estava acontecendo, a sua vida havia se tornado em terrível pesadelo.
Natália estava ficando cada vez mais desesperada por tentar fugir e sentir Miguel a poucos centímetros de distância. Seu corpo todo doía, suas pernas estavam falhando e tudo parecia estar fora do eixo. Ela não conseguia chorar, gritar ou sequer suplicar por algo ou alguém, apenas continuar correndo desorientada. Entretanto, para o seu azar, Miguel finalmente a alcançou e a derrubou no chão, ficando sobre ela.
— Não! — Ela gritou desesperada, tentando se desvencilhar dele a todo custo. — Não!
Contudo, mesmo com seus esforços, Miguel era muito mais forte e, mesmo com dificuldade, conseguiu manter o corpo frágil de Natália sob o seu na grama alta do local deserto.
— Natália, pare! — Ele esbravejou tentando controlá-la. — Onde está a nossa filha? O que você fez com ela?
Natália encarou atordoada o homem acima dela e sentiu raiva invadindo o seu coração.
Ela teve de abandonar a própria filha, sua linda menininha, por causa dele e do que ele pretendia fazer com elas. Os olhos dele ainda transmitiam todo ódio e insanidade que ela vira antes e mesmo que doesse deixar a criança em outro lugar, sentia que havia feito o certo para protegê-la do monstro que possuíra de vez o corpo de Miguel.
— Me largue! — Natália também esbravejou com fúria, tentando soltar-se dos braços fortes que a cercavam. — Me solte!
Miguel tentava controlá-la e tentava agarrar os braços femininos que tanto se debatiam, mas estava sendo uma tarefa difícil, ainda que ele fosse mais forte que ela. Natália não conseguia se acalmar, o seu coração estava tão acelerado que parecia estar prestes a explodir.
— Ande, Natália, fale! O que você fez com a nossa filha?!
Os olhos de Natália lacrimejaram, sentimentos de tristeza e raiva invadiram o seu coração.
— Ela não é a sua filha! — Ela gritou, os olhos exalando fúria enquanto o encarava. — Você não é o pai dela, é um monstro!
Por algum motivo que ela não soube explicar, o corpo de Miguel estacou ao invés de continuar tentando dominá-la, a expressão furiosa dando lugar a uma expressão confusa e mais outra que parecia ser tristeza.
A Natália de antes teria tentado entender o porquê da súbita mudança, mas a atual Natália estava sofrendo, desesperada e com muita raiva de tudo o que ocorrera até ali. Ela não pensou duas vezes e aproveitou o momento de distração, acertando um golpe certeiro na face de Miguel. Metade do corpo dele havia caído do outro lado do mato e Miguel apoiou a mão no local em que havia sido atingido. Natália tentou ser o mais rápida possível e apressou-se em correr, dando-se conta que um pouco mais à frente havia uma pista onde passavam muitos carros. Aquele lugar não era completamente deserto e ela poderia procurar por ajuda, mas sabia que o seu corpo não iria aguentar por muito tempo de tão fraco e dolorido que estava e Miguel poderia alcançá-la novamente a qualquer momento.
Pouco tempo lhe restava. A pista parecia estar mais perto, mas cada vez mais longe. Natália estava dando tudo de si, correndo com todas as suas forças à procura de ajuda. Miguel se encontrava atrás dela, perto de alcançá-la novamente, ele não iria parar nem por um momento. Mas nem tudo estava completamente perdido e, mesmo com a escuridão quase tomando conta de sua mente, Natália sentiu mais do que viu o chão de concreto da pista e o vai-e-vem dos carros. No entanto, pois mesmo que estivesse num local tão perigoso, o perigo real estava à centímetros de distância e, se fosse pega novamente, não conseguiria escapar.
— Natália, volte aqui agora!! — Miguel gritou furioso, quase a alcançando.
Ela não iria aguentar, seu peito subia e descia com os fortes batimentos do coração e a respiração acelerada, os olhos quase se fechando e as pernas falhando. Entretanto, um estrondo lhe despertou e Natália percebeu que um carro vermelho havia freado bruscamente à poucos centímetros dela, enquanto logo atrás um caminhão havia ocupado quase toda a pista ao ter perdido o controle.
Natália olhou de um lado para o outro, desesperada e confusa. Onde estaria Miguel? Mesmo com as vozes de protesto e buzinadas simultâneas ao fundo, o corpo de Natália permaneceu parado e os olhos castanhos continuaram a olhar para cada ponto daquele lugar, mas não havia nenhum sinal de Miguel. A confusão de carros havia atrapalhado o caminho dele até ela ou algo de pior havia acontecido?
Natália sentiu seus pés recuarem e ela voltou-se na direção para onde estava correndo antes. Não havia por que continuar ali, ainda que algo possivelmente tivesse acontecido a ele. Miguel não mais existia há algum tempo e ela não poderia dar fim à sua fuga para logo depois morrer pelas mãos dele. Ela queria viver, recuperar-se de todos aqueles traumas físicos e emocionais e, então, reencontrar a sua menininha.
Apesar de tudo, uma lágrima caiu em sua face e, como um último adeus ao homem que tanto amou e que outrora preencheu a sua vida de felicidades, Natália continuou a correr para o mais longe daquele lugar.
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