quarta-feira, 12 de junho de 2019

A NOIVA DO DRÁCULA - CAPÍTULO 50


Luana, mais uma vez, tenta manter o foco em seu trabalho.
Havia uma papelada em cima de sua mesa para que ela pudesse copiar para o computador, mas sua mente não a deixava se concentrar.  Afinal, como poderia concentrar-se em algo, quando tudo o que poderia pensar era em David e em seu noivado?

Sua mente vagou quando Alan havia comentado sobre David ter escutado.

***

Luana se surpreendeu pelo que seu noivo acabara de dizer. Então, David estivera lá em cima os escutando todo esse tempo?

– Ele... ouviu? – Ela perguntou.

Alan assentiu.

- Sim, Bela Lua. – Alan suspirou. – Me deu pena ao vê-lo daquele jeito.

Luana não pôde se segurar.

– Que jeito? – perguntou de imediato.

Alan não estava com o mesmo olhar intenso e acolhedor como antes, mas triste.

– Ele ouviu boa parte da conversa, Bela Lua. Com certeza se sentiu arrasado – Alan disse em lamento. – Mas, tem algo que eu não entendo.

– E o que é? – Ivan perguntou.

Alan olhou para o irmão.

– Por um momento, achei que aquele não era o David que conheço, mas outra pessoa. Seu olhar para mim não era mais de ódio ou algo parecido, mas um olhar mais limpo e sereno, apesar da tristeza que vi nele. – Alan olhou de Ivan para Luana. – Atrevo-me a dizer que toda essa história mexeu com ele. Mas, incrivelmente, de um jeito bom.

Luana assentiu entristecida.
O que ela mais queria no momento era de subir as escadas, encontrar-se com David e abraçá-lo fortemente, dizendo que estaria sempre lá para ele. Mas, sabia que agora isso seria impossível. David já não era mais como antes, agora ele representava perigo. Além do que, logo teria que trabalhar, e David também precisava ter um tempo só para ele depois de toda aquela revelação.

– Bem, eu tenho que ir – ela disse ao levantar-se do sofá. – Tenho trabalho daqui a pouco.

Os dois irmãos assentiram, e Ivan levantou-se.

– Eu a levo até lá, Bela Lua – Alan disse a ela.

Luana sorriu educada, mas negou.

– Não, Alan. Está sol, não quero que algo aconteça com você.

Ele sorriu para ela. O Alan sedutor estava de volta.

– Não se preocupe. Já fiz isso várias vezes, e uma delas foi quando fui buscar David na praia onde você estava, se lembra?

Luana se lembrava com bastante clareza.
Fora naquele mesmo dia em que julgara David sem nem ao menos saber sobre seus segredos mais sombrios e profundos, o que incluía seu triste passado. Nina estava certa. Ela era uma tola.

– Sim – ela concordou. – Tudo bem. Aceito uma carona até meu trabalho. Obrigada, Alan.

Alan olhou atentamente para sua noiva.
Luana parecia falar vagamente e com a voz um pouco embargada. O que estaria acontecendo com ela?

– Bela Lua, você está bem? – ele perguntou gentilmente.

Luana tratou-se de se recompor e assentiu mais uma vez, agora um pouco melhor.

– Sim, estou. – Luana olhou para Ivan, que os olhava com atenção. – Ivan. – Ela sorriu para ele. – Obrigada por ter me contado. Obrigada mesmo por ter me aturado desde cedo e ter falado sobre coisas que eu nem imaginava. Devo muito a você.

Ivan balançou a cabeça em negativo.

– Você não deve nada a mim, Luana. Eu que devo a você por ter me permitido contar sobre o passado e, ao mesmo tempo, ter uma relação de paz com ele. Porque é isso o que eu sinto depois de ter contado essa história: paz. – Ivan sorriu. – Sinto que, a partir de agora, posso aprender com meus erros e seguir um caminho diferente. Principalmente, cuidar melhor de meu sobrinho.

Luana teve que engolir em seco para que não pudesse chorar ali, na frente dos dois. Não era hora para isso.
Ela desviou rapidamente o olhar de Ivan e prendeu uma mecha de cabelo para atrás da orelha.

– Bem, então, tenho que ir – ela disse agarrando sua bolsa. – Já está na hora. – Ela sorriu. – Até mais, Ivan.

– Até mais, Luana.

– Vamos? – Alan ofereceu o braço num gesto cortês e Luana aceitou educada.

Ela deu um último olhar para trás e viu Ivan sentar-se novamente em sua poltrona favorita, pegando uma pequena foto do bolso da calça e acariciando com carinho o pequeno retrato. Não foi preciso ser muito esperta para saber de quem era a foto.

❦ ❦ ❦

Alan estacionou a Lamborghine em frente ao prédio onde Luana trabalhava. O sol não estava muito forte, o tempo estava um pouco nublado, então não seria arriscado para ele.
Luana desfez o cinto de segurança e sorriu para seu noivo.

– Obrigada, Alan.

Antes que ela pudesse sair, Alan segurou seu braço gentilmente.

– Espere um pouco.

Luana o encarou sem entender. O que ele queria?

– O que foi? – ela perguntou.

– Quero lhe contar algumas coisas que o Ivan não teve tempo de lhe contar.

– E quais seriam?

Alan olhou para algumas pessoas que entravam e saíam do edifício. Não queria ter que tomar o tempo dela, mas era necessário que Luana soubesse.

– David acabou sabendo por Shartene e Miranda o que Vlad fez com Katherine. Foi um incidente por parte delas. Não era para ele ficar sabendo daquela forma. De um menino que já estava perturbado pelo que havia passado, David começou a ficar rebelde. Já não era algo fácil mantê-lo distraído ou tentar lhe dar atenção. – Alan engoliu em seco. – Eu comecei a ver Vlad nele, e aquilo me deixava mal. Então, fiz de tudo para não lhe dar a devida atenção e o afeto de que ele tanto precisava.

Luana pôde entendê-lo. Alan sentia raiva do irmão mais velho pelo que o mesmo havia feito com seu pai, e ainda sentia mágoa ao relembrar o terrível episódio. Era bom vê-lo falar daquela forma, pois podia ver um lado menos vampiro e mais sentimental de seu noivo.

– David soube o que aconteceu com sua mãe aqui, no Brasil mesmo. Ele estava com oito anos de idade. – Alan sorriu e olhou para Luana. – Não, não tivemos coragem de contar a ele antes. Simplesmente, não conseguíamos. David começou a estudar nas escolas daqui, no total foram cinco, até encontrarmos um local mais sossegado para termos nossa casa. – Alan suspirou. – Não foi fácil para ele, nem para nós. Aos poucos, David já não mais sabia o idioma de nossa terra, e tivemos que nos adaptar por causa dele, esquecendo algumas coisas também. Hoje em dia, não sei se consigo falar tantas coisas em romeno como antes. – Alan riu.

Luana sorriu também.

– Entendo – ela disse. – Então, vocês aproveitaram e disseram sua real condição a ele?

Alan negou.

– Ele já sabia – Ele viu Luana arquear as sobrancelhas. – Só não me pergunte como.

– Por alguma coisa que ele viu vocês fazendo antes? – ela perguntou.

– Acho que não – ele respondeu. – Todos nós nos alimentávamos às escondidas, não tinha como ele saber. Creio que alguém contou a ele.

– Shartene ou Miranda?

– Não, elas apenas deixaram escapar sobre a morte de Katherine. Alguém contou a David que ele era um vampiro mestiço, e creio que tenha sido alguém no dia do baile da Elite. Só não sei se o indivíduo fez isso para o bem ou para o mal.

Luana olhou para a rua.

– Com certeza devia ter sido muito para um menino de apenas cinco anos saber que era um vampiro mestiço, e ainda ser tratado mal por causa de sua condição, e três anos depois descobrir que sua mãe havia sido morta por seu próprio pai.

– Sim, foi – Alan concordou com um longo suspiro. – Mas, depois de um certo tempo, David mudou drasticamente.

Luana olhou intrigada para seu noivo.

– Ele já não estava seno tão rebelde como antes, pois algo, ou alguém, parecia acalmá-lo. David sorria mais, e cada suspiro que ele dava era um sinal de satisfação – Alan disse olhando firmemente para Luana, que o olhava de volta. – Ele tinha encontrado algo bom. Algo que não tivera com seus pais, nem comigo ou com Ivan. Essa pessoa o estava mudando de uma forma tão boa, que nem Ivan e nem eu nos sentíamos mais como pedras em seu caminho. Era estranho, mas ao mesmo tempo confortável, vê-lo sorrir e suspirar como um bobo apaixonado.

Luana engoliu em seco, abrindo e fechando a boca rapidamente. Sabia exatamente quem era a pessoa de quem Alan se tratava. Sua respiração ficou um pouco acelerada.

– Eu juro que não sabia, Bela Lua. Não sabia que a garota por quem ele estava irremediavelmente apaixonado era você. Jamais teria feito isso com ele, ou até mesmo com meu irmão. – Alan acariciou o rosto de Luana. – Eu disse algo que irritou ainda mais meu sobrinho, fazendo o ódio dele por mim aumentar: disse que lutaria por você. – Ele sorriu. – Desde que te conheci, senti algo parecido com paz e alívio dentro de mim, Bela Lua. E, pela primeira vez, pude entender os sentimentos de Vlad por Katherine. Mesmo que ele tenha matado a quem tanto amava. – Alan continuou acariciando o rosto frágil de sua noiva. – Você é uma jovem linda e muito inteligente, uma mulher muito atraente. E, certamente, a quero como minha futura esposa, mas com uma condição.

Luana fez o possível para que não deixasse transparecer para seu noivo a dor que estava em seu rosto e em seu coração. Era inevitável; saber de tudo aquilo a machucou muito.

– E qual é a condição? – ela perguntou, tentando manter sua voz normal.

– Que você realmente me queira – Alan disse, pegando-a de surpresa. – Há muito tempo, eu me importava demais com o que a Elite pensasse sobre mim e a minha família, mas hoje não me importo mais, graças a David e a meu irmão, Vlad. E acredito que Ivan se sente da mesma maneira. – Alan segurou o rosto feminino entre as duas mãos. – A questão, Bela Lua, é que já briguei com meu próprio sobrinho por sua causa. Mas jamais poderia obrigá-la a ser minha quando seu coração é de outro. – Alan notou os olhos de Luana se encherem de lágrimas. – Você entende?

Luana tentou ao máximo não chorar, mas uma lágrima lhe desobedeceu, caindo de seu olho.
Alan estava se abrindo para ela, demonstrando tudo o que sentia. Ele temia que ela não o quisesse, por isso não tentou forçar nada. Mas, o que ela realmente queria? A pergunta que fazia a si mesma, principalmente naquele momento, era o que realmente queria. Por tanto tempo havia ignorado David, sem nem ao menos saber sobre seu passado. Alan sempre a tratava como toda mulher gostaria de ser tratada, era um verdadeiro gentleman. Não poderia fazer o que algo – seu coração ou sua razão – lhe pedia desde há muito tempo. Alan não merecia que ela tomasse um caminho diferente.

– Sim – ela disse entre lágrimas. – Ficarei com você.

Alan a olhou atentamente.

– É isso mesmo que você quer? – Ele enxugou as lágrimas que caíam em seu rosto.

Luana engoliu em seco. Por favor, não me deixe pensar muito, pensou desesperada.

– Sim – ela respondeu. – Quero me casar com você.

Alan sorriu para ela e aproximou o rosto, beijando-a intensamente.
Luana pôde notar pelos beijos que Alan lhe dava, que ele de fato a queria e a amava. Como pudera pensar em dizer não a ele?
Ela se segurou a ele, apenas deixando-se ser levada pela boa sensação de ser beijada pelo homem mais galante e maravilhoso que tivera a sorte de conhecer. Tentaria não pensar muito em outras coisas, pois só a deixaria pior do que se sentia.
Luana quebrou o beijo, enxugando o resíduo de lágrimas que restaram em seu rosto e olhou timidamente para seu futuro esposo.

– Tenho algo a lhe dizer.

– Diga.

– Não tenha raiva ou rancor de seu irmão.

Alan franziu o cenho.

– Eu sei que tudo isso não teria acontecido se não fosse por iniciativa dele, nem mesmo seu pai ter morrido de forma tão cruel – ela continuou. – Mas ele não teve culpa de ter amado tanto. Acredito que ele fez o que fez, porque o desespero lhe subiu a cabeça quando tentava proteger os dois a quem mais amava. Consegue entender?

Alan assentiu brevemente e respirou fundo.

– Eu sempre soube disso – ele disse. – Mas nunca dei uma chance a mim mesmo para perdoá-lo pelo que fez. – Alan olhou para ela. – Você acha que ainda é possível eu perdoá-lo?

Luana se recompôs e sorriu gentilmente para ele.

– Como minha madrinha já dizia: "errar é humano, mas perdoar é divino". – Ambos sorriram. – Tente fazer isso. Afinal, são apenas dois que mais estão sofrendo com isso tudo.

– Vlad e David... – Alan disse compreendendo. – Você está certa. Tanto tempo já se passou. Já está na hora de eu tomar um novo rumo, assim como Ivan disse.

– Sim – Luana disse e pegou sua bolsa. – Obrigada pela carona. Pode deixar, que eu mesmo abro a porta do carro.

– Sim, Bela Lua. – Alan pegou a mão dela e plantou um beijo. – Minha futura esposa.

Luana podia sentir-se maravilhada pelo gesto cortês e belo que Alan sempre insistia em lhe tratar, mas a única coisa que pôde fazer foi dar um sorriso amarelo como resposta e sair do carro.

***

Luana olha para seus amigos, que continuavam a trabalhar em seus computadores, e olha para o relógio mais uma vez, depois de várias. Faltavam poucos minutos para o expediente de trabalho acabar, mas estava desesperada para sair de lá e ir para casa. Queria cair na cama e dormir, para tentar esquecer a imensa tristeza que invadia seu coração.
Luana levou a mão ao peito e apertou a blusa.
Mas, o que estava acontecendo? Aquela história tinha sido realmente muito triste, mas até mesmo Alan e Ivan buscaram olhar para a frente, não se prendendo tanto ao passado. Mas, por que ela estava sentindo-se tão perdida?
Seria mesmo somente por causa da história que se sentia tão mal, ou havia algo a mais por trás de tudo?
Não, ela se negava veementemente a aceitar aquilo. Não daria vazão a coisas de sua cabeça. Era Alan a quem ela amava, e de quem seria esposa dali a pouco tempo. Não deixaria sua mente pregar peças mais uma vez.

Nina passou com uma pequena papelada em mãos e olhou preocupada para Luana.

– Luana. Você está bem?

Luana pôs a mão à boca para tentar abafar um soluço que vinha do âmago e olhou de soslaio para a mesa vazia onde David costumava trabalhar. Não podendo deter seus próprios sentimentos, Luana dá um grito de tristeza e se põe a chorar desesperadamente.
Nina rapidamente coloca os papéis em cima da mesa e corre até a amiga, a abraçando firme, enquanto a mesma chora copiosamente, incapaz de conter os soluços.

– Luana! O que houve? – Nina pergunta preocupada enquanto Jessica e Fred levantam de suas mesas para ir até lá.

– O que houve com ela? – Jessica pergunta preocupada.

Nina nega com a cabeça, não sabendo responder, enquanto aninha o corpo tremido de Luana em seus braços.

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