Aquilo era uma aparição ou uma simples imaginação sua?
Daniel forçou a vista para ver melhor: era mesmo Fábio. Mas o que ele estaria fazendo ali?
Se ele estava nas redondezas, Aline poderia estar também, Daniel pensou afoito com o coração batendo forte inundado de esperanças.
- O que foi, papai? - Johnata pareceu notar sua inquietação.
- Venha, filho.
Daniel pegou na mão do menino e andou um pouco rápido na direção de Fábio.
Estivera há tanto tempo pensando em variadas maneiras de voltar a encontrar Aline, que agora não iria desperdiçar essa chance. Era tudo ou nada.
- Fábio - Daniel chamou não conseguindo ocultar a aflição na voz.
Fábio, que estava sorrindo e conversando com um menino e sua mãe, olhou para o lado ao ser chamado e seus olhos se expandiram em surpresa ao perceber que era Daniel, o grande amor de sua jovem patroa.
Os olhos de Daniel brilharam num misto de espanto e expectativa, a respiração um pouco alterada. A mão direita dele segurava a pequena mão de um menininho que aparentava ter cinco ou seis anos. A criança refletia confusão no olhar e parecia não entender o que estava acontecendo. Para dizer melhor, nenhum deles parecia entender.
- Daniel - Fábio falou com surpresa na voz. - Como...? O que você está fazendo aqui?
Daniel conseguiu sorrir por um momento.
- Acho que esta pergunta é minha. Eu moro aqui.
Fábio assentiu, ainda surpreso.
- Verdade - Disse.
A mulher carregou o filho no colo e olhou para os dois homens.
- Vocês se conhecem? - ela perguntou.
Fábio olhou para a mulher.
- Sim - respondeu. - Daniel é um velho amigo e ex-namorado da senhorita Aline. Você a conheceu.
- Ah, sim - A mulher assentiu compreendendo.
Ex-namorado, Daniel repetiu pensativo. Nunca pensou que seria "namorado" de Aline, mas algo muito maior. O que aconteceu entre eles era algo para além da vida.
- Fábio, eu preciso falar com você - Daniel falou um tanto inquieto. - Por favor.
Fábio olhou atentamente para Daniel. Os olhos do jovem rapaz refletiam inquietação e desespero misturados com esperança, e Fábio sabia por quem ele estava daquele jeito: Aline. Daniel não parecia tê-la esquecido, mesmo depois do que aconteceu. Fábio ainda podia se lembrar de ver Daniel segurando o filho ainda bebê no colo e a jovem patroa andando na direção do carro, o rosto transfigurado pela tristeza.
Fábio olhou para a mulher e esboçou um leve sorriso.
- Amanhã nos vemos, então - Disse ele e acariciou a cabeça da criança.
A mulher assentiu, mas ainda olhou confusa para os dois homens que pareciam ter um segredo em particular.
- Tudo bem. Até mais.
A mulher se retirou com o filho nos braços e Fábio voltou sua atenção para Daniel.
- Realmente é uma grande surpresa ver você - Ele olhou mais uma vez para o menino. - Ele é aquele bebê, não é?
Daniel assentiu.
- Sim, é ele - respondeu e olhou para o filho. - Johnata, este é o Fábio, ele trabalhou para a sua mãe.
O rosto do menino se iluminou.
- Você conhece a mamãe? - perguntou o menino curioso.
Fábio sorriu e assentiu.
- Sim. Eu era o motorista da família - respondeu.
Era...
Um pensamento um tanto negativo veio-lhe a cabeça, mas Daniel tentou não pensar naquilo.
- Legal - O menino disse animado. - Como ela era? Papai disse que ela era linda por dentro e por fora.
Fábio assentiu.
- Mas era. Sua mamãe era uma pessoa muito gentil - Ele olhou para Daniel. - Não foi à toa que seu pai se apaixonou por ela.
Daniel sorriu. Johnata olhou para o pai.
- Papai, posso brincar um pouco? - O menino perguntou apontando para o parquinho que ficava de frente para a escola.
Daniel assentiu.
- Tudo bem. Mas se comporte.
O menino deixou a mochila com o pai e correu sorrindo alegremente em direção ao parquinho.
Fábio olhou para o jovem rapaz.
- Vamos nos sentar - Apontou para o banco ao lado. - Acredito que você queira muito falar comigo.
- Sim - Daniel respondeu.
Ambos se sentaram e Daniel não perdeu tempo.
- É uma grande surpresa para mim te reencontrar. Pensei que durante todo esse tempo eu nunca mais veria Aline ou qualquer outra pessoa relacionada a ela. Mas eis que você aparece.
O homem mais velho ajeitou-se um pouco desconfortável no banco.
- Também é uma surpresa para mim, Daniel. Mas tenho algo a te dizer.
Daniel o observou, cauteloso.
Ele esperava muito que Fábio não viesse com más notícias, que dissesse que estava tudo bem com Aline. Seu coração se enchia de esperança a cada minuto só de imaginar em voltar a encontrá-la. A vida a havia presenteado, a tomou de volta e agora estava lhe dando uma nova chance de voltar a vê-la. E Fábio era a única linha que podia ligá-lo ao amor de sua vida.
- Diga, Fábio. Você sabe como está a Aline? Ela está bem? - Ele perguntou esperançoso e com grande expectativa.
Fábio encarou aquele olhar suplicante e suspirou frustrado. De fato, Daniel jamais iria esquecê-la.
- Eu não posso mais te responder essa pergunta, Daniel - Fábio disse para o jovem que agora o encarava sem entender. - Eu fui demitido e não trabalho mais para a família da senhorita Aline.
◇
Fábio continuou a olhar pela janela do carro.
Daniel e Aline se despediram, o rapaz com um lindo bebê no colo enquanto Aline virou-se na direção do carro, tentando enxugar as incessantes lágrimas que caíam uma após a outra.
Daniel continuou parado, praticamente sem reação, e o bebê também parecia chorar como se já sentisse falta da mãe.
Fábio abaixou a cabeça, entristecido.
Era triste passar por uma situação como aquela, pois Daniel e Aline desde muito jovens eram apaixonados um pelo outro, eram cheios de esperança de que o amor que sentiam era duradouro e jamais iriam se separar. Ele conviveu com tudo aquilo e torcia pelos dois, mas o cruel destino insistia em separá-los de vez.
Aline abriu a porta traseira do carro e entrou, ainda desorientada, a mão na boca para encobrir os soluços.
- Vamos, Fábio - Ela pediu encolhendo-se no banco, olhando pai e filho pelo vidro da janela.
Fábio suspirou derrotado e infeliz.
- Sim, senhorita - obedeceu e ligou o carro, partindo daquele lindo e tranquilo lugar, os soluços e o choro incessante de Aline preenchendo o ambiente.
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