Daniel não perdeu tempo e tratou de ajeitar tudo o que tinha para fazer, incluindo a licença na escola para que Johnata também pudesse viajar. Ele não sabia para onde iria e se o início daquela jornada o faria reencontrar Aline, mas procurou ouvir seu coração e te fé que tudo daria certo. Johnata, enfim, conheceria a mãe é Aline veria o quanto o filho deles havia crescido.
Daniel sorriu com o pensamento. Já podia imaginar o alegre e inquieto Johnata pulando nos braços da mãe.
Ele fechou a mochila grande e pesada com todas as roupas e pertences que ele é Johnata precisariam para a viagem.
Mesmo não sabendo por quanto tempo estariam na estrada, Daniel não sentiu necessidade de arrumar a mala. Apenas a mochila seria necessária para guardar as coisas dele e do filho.
Daniel suspirou cansado e fechou os olhos, satisfeito, sentindo o vento do ventilador em seu rosto.
Tudo já estava ajeitado como devia e ele sentiu-se satisfeito de ter feito tudo em tão pouco tempo. Mas, obviamente, sua maior satisfação seria reencontrar a primeira e única mulher que amou.
- Papai! - Ouviu-se a voz de Johnata quando o menino entrou no quarto.
Daniel abriu os olhos e olhou para o filho.
- Diga - ele falou notando que Johnata parecia estar entusiasmado e esperançoso com a ideia de conhecer a mãe pela primeira vez.
O menino subiu na cama do pai, sentando-se a seu lado.
- Aquele moço disse que vai levar a gente onde está a mamãe, não é?
Daniel assentiu.
- Sim - Daniel respondeu. - Nessa viagem que faremos, ele vai parar em todos os lugares onde estão as pessoas que conhecem a sua mãe e que podem ser onde ela está.
Johnata olhou de modo interrogativo para o pai.
- Não entendo. Por que você não fez isso também?
- Você quer dizer ir atrás de sua mãe? - perguntou Daniel surpreso com o questionamento do menino. - Como eu poderia, meu filho? Eu tinha que cuidar de você e também não tinha nenhuma ideia de onde sua mãe poderia estar. Diferente de mim, Fábio conhece a sua mãe é a família dela além deste lugar. E é por isso que vamos iniciar essa viagem com ele.
- Ah, sim - O menino assentiu compreendendo. - Mas, se não fosse por ele, a gente nunca mais veria a mamãe, não é?
O coração de Daniel pareceu parar por um breve instante, absorvendo as palavras do filho. Johnata tinha apenas cinco anos, mas era uma criança inteligente. E mesmo sem querer, o menino o havia deixado sem fala e sentindo-se completamente incapaz.
Nunca mais eles a veriam? Ele poderia mentir a si mesmo defendendo a ideia que o destino que os havia separado voltaria a uni-los, mas sabia que só iria enganar o filho e a si mesmo. Era assustador pensar que nunca mais poderia ver, tocar e estar com o amor de sua vida. Mais assustador do que poderia imaginar.
- Não diga essas coisas, filho. Vamos mudar de assunto - Daniel disse visivelmente incomodado. - Gostou do carrinho que o papai fez para você?
O rosto de Johnata se iluminou.
Daniel não era tão bom como marceneiro, mas sempre que podia, tentava fazer alguns brinquedos de madeira para o filho brincar. Johnata havia gostado do brinquedo e quase não havia um momento em que ele não estivesse puxando o carrinho por uma corda.
- Gostei - disse o menino. - Ele é bem legal.
Daniel sorriu e beijou o topo da cabeça do filho.
- Vamos lá para fora? - disse se levantando e desligou o ventilador.
- Vamos para onde? - perguntou Johnata.
- Vamos alimentar os cavalos. Venha.
◇
- Por que eles comem isso?
Johnata olhou confuso para o monte que mais parecia ser palha.
- Isso se chama feno - Daniel explicou dando um pouco para o animal. - Eles também se alimentam disso além de grama, capim e ração.
- Nossa - Johnata falou surpreso. - Posso dar um pouco para ela?
- Claro - Daniel concordou e colocou um pouco do pequeno monte de feno na mão de Johnata.
Ele sorriu achando graça ao ver o pequeno Johnata empinar-se nas pontas dos pés para alimentar a égua que mantinha a cabeça abaixada na direção do menino.
- Se estiver desconfortável, é só me dizer - Disse ao filho.
O menino fez que não é continuou concentrado em alimentar a égua.
- Eu estou bem - disse a criança equilibrando-se nos pezinhos.
Daniel olhou para a égua de estimação e para os outros dois cavalos nos outros cômodos do estábulo.
- Vamos ficar um bom tempo com eles hoje - Disse ao filho. - Afinal, eles sentirão a nossa falta.
O menino olhou do pai para Pompeu que estava do outro lado.
- Eles vão ficar aqui sozinhos? - Johnata perguntou ao pai. Havia um leve toque de preocupação na voz do menino.
- Não - Daniel respondeu. - Hoje, depois de eu ter te levado para a escola e ter pedido sua licença para a viagem, pedi para os nossos vizinhos virem aqui todos os dias para cuidar deles.
- Vizinhos?
- Pedro e a esposa dele - Daniel respondeu. - Paguei uma quantia considerável para eles virem cuidar dos cavalos.
Johnata olhou com tristeza para Pompeu que estava alheio a tudo, menos ao monte de feno à sua frente.
- Vou sentir falta do Pompeu. E dos outros cavalos também - disse o menino.
- Eu também - disse Daniel. - Mas vamos matar essa saudade antes de viajarmos amanhã?
O menino olhou para o pai.
- Como?
- O sol já está se pondo, o tempo está ficando mais fresco. Acho que e5um ótimo momento para continuar seu treinamento com Pompeu. O que você acha?
O rostinho de Johnata iluminou-se de alegria.
- Sim, papai.
◇
Daniel beijou as costas da mão e Aline como um gesto para tentar acalmá-la.
Aline ainda estava triste, inconsolável por ter mais um tempo limitado ao lado do homem que mais amou no mundo. Ela já era maior de idade, mas o destino fez questão de contrariar seus planos e ficar ao lado dele para sempre. Era injusto.
Eles haviam acabado de fazer amor e estavam deitados frente ao outro em cima do feno dentro do cômodo vazio do estábulo. O tempo estava calmo e ameno logo após uma noite de muita chuva, os sons dos pássaros preenchiam o ambiente acolhedor, mas nem mesmo um momento tão precioso conseguia acalentar o coração de Aline.
Doía para ele ter que pensar em deixá-la ir quando a hora chegasse, mas doía ainda mais vê-la sofrer tanto ao ponto de não conseguir apreciar o breve tempo que os dois ainda teriam juntos.
- Eu, não chore - Daniel disse, passando a mão sobre a blusa e a saia dela e a aconchegou ao seu peito. - Vamos aproveitar este tempo que nós temos juntos, meu amor.
Aline fungou o nariz no peito coberto pela camisa que ele vestia.
- Eu tento... - Ela olhou para ele. - Mas quando penso que nós vamos ter que nos separar, e essa vez para sempre, meu coração sangra.
O coração dele também sangrava. Mas teria que ser forte pelos dois.
- Sei como se sente. Mas quero que saiba de uma coisa. - Ele a fez encará-lo. - Não vai ser para sempre. - Ele sorriu tentando confortá-la. - Por mais que as coisas tenham ficado desse jeito, por mais que estejamos separados, ainda vamos poder ficar juntos para sempre. Eu não vou desistir de você.
Aline fungou o nariz e sorriu para seu amado.
- Nem eu de você - ela disse. - Eu te amo, Daniel.
Daniel não era o tipo de homem que dizia sempre "Eu te amo" para sua mulher. Ainda assim, Aline sabia o quanto ele a amava, principalmente quando ele unia seu lábio de encontro ao dela num beijo. Duas atitudes falavam mais do que as palavras e ela confiava nele de toda a sua alma. E confiaria nas palavras dele sobre dizer que a separação não duraria para sempre.
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