O dia tinha sido divertido. Em pouco tempo, Johnata fizera novos amiguinhos, como sempre. Dalva era tão encantadora quanto Maria, Luciano parecia ser um homem muito alegre e contente com a vida que levava; não aparentava ser o tipo de pessoa que se aborrecida fácil ou deixava se abater. Era uma família contente e calorosa e trataram Daniel, Fábio e Johnata como alguns dos seus. O ambiente era tão acolhedor que uma parte de Daniel não queria sair de lá, o que era um pensamento inoportuno, pois sua jornada em busca de Aline deveria continuar.
Daniel contou a eles que tivera um relacionamento com Aline e ambos tiveram um filho, mas não contou sobre a partida dela e outros detalhes mais íntimos. Fábio fizera o mesmo, assim como Daniel havia lhe pedido. Ainda assim, não obteve uma resposta concreta sobre onde Aline poderia estar. Daniel não insistiu muito, pois não adiantaria muita coisa no momento; apenas ficaria mais ansioso ao ponto de não conseguir dormir ou até mesmo permanecer naquela casa por mais tempo. Além disso, o momento com eles tinha sido ótimo, uma conversa fluía depois da outra, o que o fazia se esquecer um pouco sua busca por pouco tempo e interagir com os adultos e as crianças.
À noite, quando todos foram dormir, Johnata pegou o caderno da escola que havia guardado na mochila de viagem e subiu no colo do pai que estava sentado numa cadeira de balanço.
Pai e filho iam dormir no mesmo quarto, que era um dos quatro quartos da casa, mas propriamente das duas meninas mais velhas. Luciano estava dormindo em seu próprio quarto, Dalva também, e as outras crianças foram dormir no quarto da menina e do menino mais novos — Fábio havia escolhido dormir na sala, pois levantava-se para fumar de vez em quando.
— Eu não sabia que havia trazido o seu caderno — Daniel disse para o filho que estava folheando as páginas que queria encontrar. — Muito menos que ele caberia na mochila cheia. Mas e aí, o que quer me mostrar?
Johnata encontrou o que queria e dobrou o caderno.
— Ele é pequeno, papai — disse o menino e apontou para a folha. — Você não tinha dito para eu te falar as palavras difíceis que eu aprendi na escola?
Daniel olhou surpreso para as letrinhas engarranchadas e depois para o filho.
— Sim, me lembro. Então, me conte o que aprendeu.
— A tia pediu para a gente escrever palavras difíceis. Antes, ninguém entendeu nada, mas foi divertido aprender. Sabe o que significa "mancebo"?
— Não, o que significa? — Daniel indagou interessado, mas havia mentido, pois sabia o significado.
— "Jovem moço" — Johnata respondeu. — Um menino novo.
— Não exatamente um menino, mas um rapaz — Daniel complementou. — Papai também é um mancebo, sabia?
Johnata o fitou em descrença.
— Mas você não é novo.
Daniel teve de rir.
— Como não, meu filho? Papai tem apenas vinte e cinco anos — disse achando graça da expressão do menino.
— Ah, sim... — Johnata voltou sua atenção para o caderno. — Sabe o que significa "outrora"?
Daniel ponderou.
— Bem, não seria "antigamente"? Uma junção entre "outra" e "hora"?
Johnata sorriu.
— Você acertou! Mas o que é "junção"? — o menino perguntou curioso.
— Não tem aí? — Daniel apontou para o caderno.
Johnata meneou a cabeça.
— Não — respondeu a criança. — O que significa?
— Significa "ajuntar" — Daniel respondeu. — Juntar uma coisa com a outra.
Johnata olhou ao redor do quarto, procurando por algo.
— O que foi? — Daniel perguntou.
— Não tem lápis para eu anotar — Johnata respondeu. — E também me esqueci de trazer.
— Não precisa, depois eu te lembro. Tem mais?
Johnata puxou o caderno para mais perto.
— Acho que só mais duas. — Virou a folha para ver atrás. — A tia disse que depois passaria mais.
— E qual é a primeira das duas?
— "Enamorados". — Johnata olhou para o pai. — Sabe o que significa?
— Uma palavra muito bonita. Aliás, as pessoas que falam em espanhol pronunciam assim até hoje, já em nossa língua foi mudado — Daniel explicou observando Johnata prestar atenção em cada palavra. — Mas quero que você responda agora.
Johnata parou por um momento e sorriu olhando para o vazio no teto e pensando em algo.
— Não, não, mocinho. Nada de ver as respostas atrás — Daniel advertiu brincalhão quando Johnata estava prestes a virar a folha do caderno. — Não sabe o que significa? Pensei que tivesse aprendido.
— Eu me esqueci — Johnata disse de modo inocente.
— Vou dar uma dica: o que eu e sua mãe somos.
Johnata fitou o pai, ponderando por um momento.
— Homem e mulher? — o menino optou.
Daniel não conseguiu segurar o riso.
— Não, meu filho. "Apaixonados" — Daniel explicou. — "Enamorados" significa "apaixonados".
— Ah, sim! Mas será que a mamãe ainda é apaixonada por você?
O sorriso de Daniel esmoreceu um pouco.
Ela ainda estaria apaixonada por ele, mesmo após todos esses anos? Seria melhor não pensar muito.
— Próxima questão — Daniel pediu com o tom de voz um pouco mais rígido que o normal. Pigarreou. — Por favor.
Johnata fitou o pai por um breve momento, mas voltou a prestar atenção no caderno.
— "Eternidade" — O menino disse.
Daniel o fitou com uma expressão de surpresa e questionamento.
— Você não sabe o que significa "eternidade"? De todas essas palavras, é a mais fácil.
— Então o que é? — Johnata perguntou brincando de ser desafiador. — Eu me lembro desta, a tia disse.
— "Eternidade" significa "aquilo que é eterno", "aquilo que dura para sempre", "infinito" — Daniel respondeu.
— Igual o seu amor pela mamãe, não é, papai?
Daniel esboçou um leve sorriso e suspirou profundamente.
— Sim. E também o meu amor por você. — Daniel olhou para o filho e ambos sorriram. Daniel beijou o topo da cabeça do menino. — Terminou?
— Sim, só tinham essas. — Johnata fechou o caderno e o acomodou no colo.
— Então, qualquer dia desses, vou te ensinar mais "palavras difíceis" — Daniel disse. — Que tal?
Johnata sorriu animado e abriu o caderno.
— Me ensine agora, papai — O menino pediu cheio de energia.
Daniel o fitou surpreso.
— Agora? Mas está tarde e têm pessoas dormindo. Além disso, vamos ter que ir embora de manhã cedo.
— Por favor, só um pouquinho — Johnata pediu com os olhos suplicantes.
Daniel sorriu achando graça ao notar o quão brilhantes os olhos de Johnata estavam. Era um menino muito inteligente, mas bem longe de se interessar pelos estudos. Era bom saber que, pelo menos, as "palavras difíceis" o deixaram interessado.
Daniel suspirou, dando-se por vencido e pegou o caderno da mão de Johnata.
— Vá até minha a mochila — Pediu ao filho. — Acho que tem um lápis na parte da frente.
Johnata sorriu satisfeito e desceu do colo do pai, correndo até uma das camas onde a mochila se encontrava.
— Está no bolso menor, na parte da frente — Daniel indicou, balançando-se suavemente na cadeira de balanço.
Johnata tateou os bolsos e procurou, mas nada encontrou.
— Não está aqui, papai — O menino disse, mas seus olhos voltaram-se para a parte de cima de uma escrivaninha no outro canto do quarto. Lá tinham alguns lápis, borrachas e outros apetrechos. Seus olhos voltaram para o pai. — Posso? — Apontou.
— Acho que eles não vão se importar se pegarmos emprestados, por enquanto, e depois devolvemos — Daniel o encorajou.
Johnata correu até a escrivaninha, pegou um lápis e uma borracha emprestados e voltou a sentar-se no colo do pai, pondo o caderno em cima de suas pequenas pernas.
— Agora, vamos começar — Daniel começou a lição enquanto Johnata tinha o lápis e a borracha em mãos, prestando atenção em seu novo professor temporário. — Escreva aí: "a-par-tar"...
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