domingo, 14 de junho de 2020

Eternidade - capítulo 22




Era para eles terem saído mais cedo, mas houveram circunstâncias que o fizeram ter de esperar mais um pouco. A primeira, é que Daniel havia se esquecido de perguntar se Luciano sabia sobre o paradeiro de Aline e onde Camila poderia estar. Já a segunda, é que Johnata parecia estar tão apegado às outras crianças quanto elas a ele. Daniel tinha de continuar a sua jornada, mas também sentia compaixão do filho, pois em meio a viagens tão cansativas, o menino tinha, finalmente, outras crianças para brincar com ele. Daniel esperaria um pouco e, então, partiria na parte da tarde, antes do almoço.

Daniel olhou para o filho correndo com as outras crianças pelo quintal dos fundos da casa.

Johnata estava se divertindo e Daniel sentia-se bem ao ver o filho assim, mas seu coração doía de ansiedade pela expectativa de voltar a ver Aline. 

O que ela estaria fazendo? Estaria pensando nele e em tudo o que passaram juntos? Ou o teria esquecido de vez após todos esses anos?, Daniel pensou com angústia.

Seria melhor não dar margem a maus pensamentos ou sua ansiedade poderia aumentar ainda mais.

— Quer um suco, Daniel?

Daniel olhou para cima e percebeu que se tratava de Luciano. Ele estava usando o mesmo avental de quando fizera os bolinhos junto com Johnata e as outras crianças no dia anterior.

— Mamãe está fazendo suco de manga e você só bebeu café. Vai querer um pouco? — Luciano perguntou com seu jeito atencioso e hospitaleiro.

Daniel sorriu educado.

— Eu adoraria, obrigado.

Luciano assentiu, mas ao invés de se retirar, também sentou-se no pequeno degrau ao lado de Daniel. O jovem o fitou.

— Sabe, eu ainda não entendi por que você e a menina se separaram. — Luciano e sua mãe só se referiam a Aline como "menina". — Você contou que tiveram um romance e agora a está procurando, mas não disse como terminaram assim. Pela forma como Johnata fala, parece que ele nem conheceu a mãe.

Daniel olhou atentamente para o homem mais velho. 

Luciano estava certo em perguntar, pois parecia não saber de muitas coisas envolvendo Aline e Lucas, mas Daniel não queria contar detalhes sobre sua vida para mais ninguém. A única coisa que queria era saber onde Aline poderia estar. 

— Me desculpe, Luciano, mas não quero contar tudo pelas entrelinhas. Aliás, muitas coisas não foram esclarecidas, como o paradeiro dela — Daniel disse. — Agora, por favor, me responda, já que não tivemos essa chance ontem. Você sabe onde Aline possa estar neste momento? Você ou a sua mãe?

Luciano o fitou pensativo.

— Eu que peço desculpas se, por algum momento, dei a entender onde a menina Aline possa estar — Luciano disse. — Sei que dona Maria enviou vocês pra cá a fim de obterem informações melhores sobre a menina Aline e a família, mas também não sabemos, pois eles não moram mais no mesmo lugar. Assim eu soube.

Daniel demorou um tempo até tirar seus olhos do rosto de Luciano e assentir vagamente.

No fundo, ele sabia. Era sempre assim. Quando pensava que estava ao alcance da mulher que amava, algo os separava novamente.

Agora não teria mais nada a fazer na casa de Luciano. Falaria com Fábio à respeito e ambos iriam logo embora. Ainda tinha uma última chance, talvez, e não desperdiçaria mais tempo. 

— Mas acredito que vocês tenham outros contatos para encontrá-la — Luciano falou.

Daniel saiu de seus pensamentos e o fitou.

— Sim, eu sei — Daniel respondeu. — Temos mais uma pessoa em mente depois que sairmos daqui. A dona Maria disse que talvez você soubesse com mais precisão aonde essa pessoa mora.

— E quem seria?

— Camila, a melhor amiga de Aline — Daniel respondeu, notando que Luciano havia arqueado as sobrancelhas em surpresa. — Você a conhece, não?

Luciano assentiu prontamente.

— Sim, eu a conheço — respondeu. — Ela e a menina Aline eram muito unidas desde crianças. Era como se a menina Aline também tivesse uma irmã, sabe?

— E você sabe onde ela mora? — Daniel indagou tentando não parecer tão esperançoso.

Luciano ponderou.

— Acredito que sim — ele respondeu, mas foi interrompido pela voz de sua mãe vinda da cozinha. — Mamãe está me chamando para ajudá-la. Depois eu procuro o endereço e te respondo.

— Tudo bem — Daniel concordou e o viu levantar-se e adentrar a casa.

Daniel continuou sentado no degrau da escada, pensativo, a mente viajando em possibilidades. 

Por mais que parecesse desanimador a cada instante se ver mais perto e, ao mesmo tempo, mais longe dela, teria de acalmar sua mente e o seu coração para continuar em busca e seu amor. E ele sentia que, mesmo apesar de receber algumas respostas que não gostaria de ouvir, estava cada vez mais perto de encontrá-la.

— Papai! — Johnata correu em sua direção, as outras crianças também sorridentes atrás dele. — Olhe o que a Patrícia sabe fazer — Johnata indicou uma dobradura de papel que estava em suas mãos.

Daniel olhou para o pássaro de papel e sorriu.

— Muito bonito — comentou.

— Foi ela quem fez. — Johnata apontou para a menina mais velha.

— Parabéns — Daniel disse à menina que estava um pouco acanhada. — Johnata também sabe fazer, mas só o ensinei a fazer barquinhos de papel, pois não sei fazer outros. Sei, mais ou menos, o aviãozinho.

— Mas o aviãozinho é o mais fácil — Disse o outro menino.

— Depende. O aviãozinho que a maioria das pessoas faz é o mais fácil, mas ele é horrível para lançar — Daniel explicou para a criança. — Já o que tem mais dobraduras é o mais difícil de fazer, mas, por outro lado, fica um bom tempo no ar.

— Ensina para a gente, papai — Johnata pediu.

Daniel suspirou.

Johnata estava muito apegado àquele lugar e àquelas crianças. Era natural, ele sabia. Mas não podia perder mais tempo.

— Eu não sei muito bem. Mas, quem sabe, em outro dia eu ensine o máximo que eu sei — Daniel disse para as crianças que o fitaram esperançosas.

Dalva apareceu com uma bandeja de pãezinhos e Luciano apareceu ao lado dela segurando uma bandeja com copos de suco.

— Hora do lanchinho. — Dalva distribuiu os copos de plástico e pãezinhos para as crianças.

Luciano ofereceu um copo de suco para Daniel.

— Daniel, eu já vou procurar pelo endereço — Disse.

Daniel olhou de Luciano para Johnata que estava comendo perto dos amiguinhos. Ele tornou a fitar Luciano.

— Não se preocupe, não precisa ter pressa.

A verdade é que queria dar continuidade à viagem o mais cedo possível, mas tentar ser apressado naquele momento não resolveria as coisas da forma correta.

Luciano assentiu e Fábio apareceu.

— Oba, lanche — Disse apreciativo. — Tem para mim?

— Onde você estava? — Dalva perguntou.

— Tomando um ar — Fábio respondeu.

— Correção: fumando — Daniel brincou.

Fábio sorriu.

— Às vezes fico um pouco nervoso e tenho que fumar.

— Mas não precisa ser tão cedo — Dalva rebateu, dando um copo de suco e um pãozinho para ele. — Tome.

— Obrigado — Fábio agradeceu e pegou seu lanche.

— Está delicioso — Daniel disse. Dalva e Luciano assentiram e sorriram agradecidos.

— Que bom que gostou — a senhora falou. — Sei que vocês disseram que já iriam embora, mas não querem ficar para a festa?

— Que festa? — Daniel indagou.

— Hoje à noite terá uma festa de aniversário da cidade — Dalva respondeu. — Terá brinquedo para as crianças brincarem.

— Eu soube que terá um parque de diversões — Luciano comentou.

— Parque de diversões? — Johnata perguntou. Seus olhinhos brilhavam.

— Sim — Luciano respondeu. — Montaram vários brinquedos num campo de futebol para todo mundo se divertir na festa e brincar.

— Johnata, fica... — Uma das meninas mais novas pediu com um olhar suplicante ao novo amiguinho. As outras crianças o fitaram tristes por saberem que ele não poderia ficar por muito tempo.

— Mas... — Johnata fitou o pai e voltou a olhar para os novos amigos. — A gente tem que ir embora para encontrar a mamãe...

Daniel olhou atentamente para o filho.

Johnata parecia ter um ato responsável em querer tomar a decisão correta, que seria irem embora e procurar por Aline. Mas seu olhar desapontado não mentia, ele queria estar mais um pouco com os novos amiguinhos que havia feito e divertir-se como todas as crianças. E Daniel compreendia a situação, pois Johnata só havia parado para brincar com outras crianças apenas uma vez e, em outras, o menino havia manifestado tédio e inquietação por causa da longa viagem.

Era importante que eles seguissem com a jornada, mas seria injusto não deixar que o menino tivesse mais um dia de descanso e diversão. Afinal, ele era apenas uma criança.

— Não, vamos ficar — Daniel disse fazendo os outros o fitarem surpresos.

— Papai? — Johnata perguntou sem entender, mas havia uma pequena esperança refletida em seus pequenos olhos.

Fábio olhou para Daniel.

— Tem certeza? — Perguntou, ainda que também entendesse o lado de Johnata.

Daniel assentiu ainda olhando para o filho.

— Vamos ficar mais um pouco e nos divertirmos no parque. E amanhã de manhã cedo partimos.

As outras crianças vibraram e Johnata sorriu parecendo estar aliviado.

Luciano sorriu alegre.

— Viu? O papai deixou e agora vocês podem brincar mais um pouco — Luciano disse para Johnata que sorriu.

— Ele ficou contente — Dalva comentou sobre Johnata. — Talvez precisasse disso.

Daniel sorriu e assentiu.

— Verdade — concordou.

Johnata deixou os novos amigos por um momento, apoiou o copo vazio na bandeja e abraçou o pai bem apertado. Daniel sorriu e beijou o topo da cabeça do menino.

— Te amo, papai!

— Também te amo.

Os outros olharam para pai e filho e sorriram comovidos.

A jornada continuaria. Mas seria bom descansar, por ora.

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