Era para eles terem saído mais cedo, mas houveram circunstâncias que o fizeram ter de esperar mais um pouco. A primeira, é que Daniel havia se esquecido de perguntar se Luciano sabia sobre o paradeiro de Aline e onde Camila poderia estar. Já a segunda, é que Johnata parecia estar tão apegado às outras crianças quanto elas a ele. Daniel tinha de continuar a sua jornada, mas também sentia compaixão do filho, pois em meio a viagens tão cansativas, o menino tinha, finalmente, outras crianças para brincar com ele. Daniel esperaria um pouco e, então, partiria na parte da tarde, antes do almoço.
Daniel olhou para o filho correndo com as outras crianças pelo quintal dos fundos da casa.
Johnata estava se divertindo e Daniel sentia-se bem ao ver o filho assim, mas seu coração doía de ansiedade pela expectativa de voltar a ver Aline.
O que ela estaria fazendo? Estaria pensando nele e em tudo o que passaram juntos? Ou o teria esquecido de vez após todos esses anos?, Daniel pensou com angústia.
Seria melhor não dar margem a maus pensamentos ou sua ansiedade poderia aumentar ainda mais.
— Quer um suco, Daniel?
Daniel olhou para cima e percebeu que se tratava de Luciano. Ele estava usando o mesmo avental de quando fizera os bolinhos junto com Johnata e as outras crianças no dia anterior.
— Mamãe está fazendo suco de manga e você só bebeu café. Vai querer um pouco? — Luciano perguntou com seu jeito atencioso e hospitaleiro.
Daniel sorriu educado.
— Eu adoraria, obrigado.
Luciano assentiu, mas ao invés de se retirar, também sentou-se no pequeno degrau ao lado de Daniel. O jovem o fitou.
— Sabe, eu ainda não entendi por que você e a menina se separaram. — Luciano e sua mãe só se referiam a Aline como "menina". — Você contou que tiveram um romance e agora a está procurando, mas não disse como terminaram assim. Pela forma como Johnata fala, parece que ele nem conheceu a mãe.
Daniel olhou atentamente para o homem mais velho.
Luciano estava certo em perguntar, pois parecia não saber de muitas coisas envolvendo Aline e Lucas, mas Daniel não queria contar detalhes sobre sua vida para mais ninguém. A única coisa que queria era saber onde Aline poderia estar.
— Me desculpe, Luciano, mas não quero contar tudo pelas entrelinhas. Aliás, muitas coisas não foram esclarecidas, como o paradeiro dela — Daniel disse. — Agora, por favor, me responda, já que não tivemos essa chance ontem. Você sabe onde Aline possa estar neste momento? Você ou a sua mãe?
Luciano o fitou pensativo.
— Eu que peço desculpas se, por algum momento, dei a entender onde a menina Aline possa estar — Luciano disse. — Sei que dona Maria enviou vocês pra cá a fim de obterem informações melhores sobre a menina Aline e a família, mas também não sabemos, pois eles não moram mais no mesmo lugar. Assim eu soube.
Daniel demorou um tempo até tirar seus olhos do rosto de Luciano e assentir vagamente.
No fundo, ele sabia. Era sempre assim. Quando pensava que estava ao alcance da mulher que amava, algo os separava novamente.
Agora não teria mais nada a fazer na casa de Luciano. Falaria com Fábio à respeito e ambos iriam logo embora. Ainda tinha uma última chance, talvez, e não desperdiçaria mais tempo.
— Mas acredito que vocês tenham outros contatos para encontrá-la — Luciano falou.
Daniel saiu de seus pensamentos e o fitou.
— Sim, eu sei — Daniel respondeu. — Temos mais uma pessoa em mente depois que sairmos daqui. A dona Maria disse que talvez você soubesse com mais precisão aonde essa pessoa mora.
— E quem seria?
— Camila, a melhor amiga de Aline — Daniel respondeu, notando que Luciano havia arqueado as sobrancelhas em surpresa. — Você a conhece, não?
Luciano assentiu prontamente.
— Sim, eu a conheço — respondeu. — Ela e a menina Aline eram muito unidas desde crianças. Era como se a menina Aline também tivesse uma irmã, sabe?
— E você sabe onde ela mora? — Daniel indagou tentando não parecer tão esperançoso.
Luciano ponderou.
— Acredito que sim — ele respondeu, mas foi interrompido pela voz de sua mãe vinda da cozinha. — Mamãe está me chamando para ajudá-la. Depois eu procuro o endereço e te respondo.
— Tudo bem — Daniel concordou e o viu levantar-se e adentrar a casa.
Daniel continuou sentado no degrau da escada, pensativo, a mente viajando em possibilidades.
Por mais que parecesse desanimador a cada instante se ver mais perto e, ao mesmo tempo, mais longe dela, teria de acalmar sua mente e o seu coração para continuar em busca e seu amor. E ele sentia que, mesmo apesar de receber algumas respostas que não gostaria de ouvir, estava cada vez mais perto de encontrá-la.
— Papai! — Johnata correu em sua direção, as outras crianças também sorridentes atrás dele. — Olhe o que a Patrícia sabe fazer — Johnata indicou uma dobradura de papel que estava em suas mãos.
Daniel olhou para o pássaro de papel e sorriu.
— Muito bonito — comentou.
— Foi ela quem fez. — Johnata apontou para a menina mais velha.
— Parabéns — Daniel disse à menina que estava um pouco acanhada. — Johnata também sabe fazer, mas só o ensinei a fazer barquinhos de papel, pois não sei fazer outros. Sei, mais ou menos, o aviãozinho.
— Mas o aviãozinho é o mais fácil — Disse o outro menino.
— Depende. O aviãozinho que a maioria das pessoas faz é o mais fácil, mas ele é horrível para lançar — Daniel explicou para a criança. — Já o que tem mais dobraduras é o mais difícil de fazer, mas, por outro lado, fica um bom tempo no ar.
— Ensina para a gente, papai — Johnata pediu.
Daniel suspirou.
Johnata estava muito apegado àquele lugar e àquelas crianças. Era natural, ele sabia. Mas não podia perder mais tempo.
— Eu não sei muito bem. Mas, quem sabe, em outro dia eu ensine o máximo que eu sei — Daniel disse para as crianças que o fitaram esperançosas.
Dalva apareceu com uma bandeja de pãezinhos e Luciano apareceu ao lado dela segurando uma bandeja com copos de suco.
— Hora do lanchinho. — Dalva distribuiu os copos de plástico e pãezinhos para as crianças.
Luciano ofereceu um copo de suco para Daniel.
— Daniel, eu já vou procurar pelo endereço — Disse.
Daniel olhou de Luciano para Johnata que estava comendo perto dos amiguinhos. Ele tornou a fitar Luciano.
— Não se preocupe, não precisa ter pressa.
A verdade é que queria dar continuidade à viagem o mais cedo possível, mas tentar ser apressado naquele momento não resolveria as coisas da forma correta.
Luciano assentiu e Fábio apareceu.
— Oba, lanche — Disse apreciativo. — Tem para mim?
— Onde você estava? — Dalva perguntou.
— Tomando um ar — Fábio respondeu.
— Correção: fumando — Daniel brincou.
Fábio sorriu.
— Às vezes fico um pouco nervoso e tenho que fumar.
— Mas não precisa ser tão cedo — Dalva rebateu, dando um copo de suco e um pãozinho para ele. — Tome.
— Obrigado — Fábio agradeceu e pegou seu lanche.
— Está delicioso — Daniel disse. Dalva e Luciano assentiram e sorriram agradecidos.
— Que bom que gostou — a senhora falou. — Sei que vocês disseram que já iriam embora, mas não querem ficar para a festa?
— Que festa? — Daniel indagou.
— Hoje à noite terá uma festa de aniversário da cidade — Dalva respondeu. — Terá brinquedo para as crianças brincarem.
— Eu soube que terá um parque de diversões — Luciano comentou.
— Parque de diversões? — Johnata perguntou. Seus olhinhos brilhavam.
— Sim — Luciano respondeu. — Montaram vários brinquedos num campo de futebol para todo mundo se divertir na festa e brincar.
— Johnata, fica... — Uma das meninas mais novas pediu com um olhar suplicante ao novo amiguinho. As outras crianças o fitaram tristes por saberem que ele não poderia ficar por muito tempo.
— Mas... — Johnata fitou o pai e voltou a olhar para os novos amigos. — A gente tem que ir embora para encontrar a mamãe...
Daniel olhou atentamente para o filho.
Johnata parecia ter um ato responsável em querer tomar a decisão correta, que seria irem embora e procurar por Aline. Mas seu olhar desapontado não mentia, ele queria estar mais um pouco com os novos amiguinhos que havia feito e divertir-se como todas as crianças. E Daniel compreendia a situação, pois Johnata só havia parado para brincar com outras crianças apenas uma vez e, em outras, o menino havia manifestado tédio e inquietação por causa da longa viagem.
Era importante que eles seguissem com a jornada, mas seria injusto não deixar que o menino tivesse mais um dia de descanso e diversão. Afinal, ele era apenas uma criança.
— Não, vamos ficar — Daniel disse fazendo os outros o fitarem surpresos.
— Papai? — Johnata perguntou sem entender, mas havia uma pequena esperança refletida em seus pequenos olhos.
Fábio olhou para Daniel.
— Tem certeza? — Perguntou, ainda que também entendesse o lado de Johnata.
Daniel assentiu ainda olhando para o filho.
— Vamos ficar mais um pouco e nos divertirmos no parque. E amanhã de manhã cedo partimos.
As outras crianças vibraram e Johnata sorriu parecendo estar aliviado.
Luciano sorriu alegre.
— Viu? O papai deixou e agora vocês podem brincar mais um pouco — Luciano disse para Johnata que sorriu.
— Ele ficou contente — Dalva comentou sobre Johnata. — Talvez precisasse disso.
Daniel sorriu e assentiu.
— Verdade — concordou.
Johnata deixou os novos amigos por um momento, apoiou o copo vazio na bandeja e abraçou o pai bem apertado. Daniel sorriu e beijou o topo da cabeça do menino.
— Te amo, papai!
— Também te amo.
Os outros olharam para pai e filho e sorriram comovidos.
A jornada continuaria. Mas seria bom descansar, por ora.
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