domingo, 21 de junho de 2020

Eternidade - capítulo 23



Dalva estava fazendo os preparativos para o almoço. Luciano também estava na cozinha preparando a sobremesa, enquanto Fábio e Daniel descascavam legumes sentados em cadeiras opostas na pequena varanda que ficava em frente ao quintal dos fundos da casa. Johnata e seus novos amiguinhos brincavam de correr por toda a extensão do quintal, todos pareciam se divertir bastante e ter uma energia infinita.

Daniel sorriu ao observar o seu menino.

Johnata estava bem, o seu rosto estava mais radiante, mas satisfeito que antes. Em meio a uma jornada cansativa, era disso o que ele precisava.

Daniel olhou para Fábio que descascavam os legumes com facilidade e praticamente alheio às brincadeiras e sorrisos alegres das crianças.

— Conseguiu ligar para a Juliana hoje? — Daniel perguntou à Fábio que ergueu um pouco a cabeça para fitar Daniel e esboçou um pequeno sorriso.

— Eu telefonei para Juliana um pouco mais cedo, mas ela estava ocupada e teve de sair. Então, prometi ligar mais tarde — respondeu.

— Entendo. — Daniel assentiu. — Você me pareceu um pouco aflito uns minutos atrás.

Fábio terminou de descascar um legume e pegou outro.

— Eu não gosto de ficar sem falar com ela e com o meu filho por muito tempo. Fico sem saber o que acontece a eles e acabo me preocupando. — Fábio deu de ombros. — E, infelizmente, tudo vai continuar assim até eu conseguir dar uma vida melhor para eles.

Daniel voltou a assentir, pensativo, e olhou para Johnata que conseguia se desviar facilmente de todas as tentativas dos amigos de pegá-lo. Fábio notou que as mãos de Daniel haviam parado de trabalhar, embora ainda restassem três legumes dentro da bacia. Ele parecia estar pensativo e não precisava ser muito inteligente para entender o que se passava em seus pensamentos.

— Você e eu conseguiremos sair dessa, Daniel. Você vai ver.

Mesmo tão perdido em pensamentos, Daniel olhou na direção de Fábio e sorriu agradecido pela frase motivadora.

Luciano apareceu na varanda com a mesma energia e olhou para os dois homens.

— Então, terminaram? — perguntou com o mesmo grande sorriso emoldurado no rosto.

Fábio mexeu entre as cascas e constatou que não havia mais nenhum legume para descascar.

— Eu já terminei.

— Já estou terminando — Daniel respondeu notando que haviam só mais dois legumes para acabar.

— Tudo bem, não precisa ter pressa — Luciano disse para Daniel. — Mamãe já pôs o arroz e o feijão no fogo e já está temperando a carne. Você vai terminar de descascar estes dois últimos legumes antes mesmo de ela colocar a carne para cozinhar.

— Você quer que eu ajude em mais outra coisa? — Fábio ofereceu-se para ajudar.

— Não há mais nada — Luciano respondeu. — Eu até pediria para você comprar duas garrafas de refrigerante, mas me lembrei que já fiz um suco da fruta. Também fiz mousse de maracujá, as crianças vão adorar.

— Terminei — disse Daniel olhando satisfeito para o seu trabalho finalizado.

— Muito bem. Vocês dois podem levar as bacias para a mamãe? — Luciano perguntou. — Eu vou pegar uma bola na casinha dos fundos para as crianças brincarem.

Fábio e Daniel assentiram concordando e se levantaram, adentrando a casa em direção à cozinha. Luciano desceu os poucos degraus da pequena varanda e foi cumprimentado pelas crianças alegres e sorridentes.

— Tio Luciano, ele é bem rápido — disse uma das meninas mais novas, apontando para Johnata que sorria triunfante.

Luciano olhou surpreso para Johnata.

— Nenhum deles conseguiu alcançar você?

— Nenhum — Johnata respondeu ainda sorrindo, embora a sua respiração estivesse rasa como as das outras crianças.

— Vou na casinha dos fundos pegar uma bola para vocês — Luciano disse mostrando uma das chaves. — Ou vocês querem continuar com a mesma brincadeira?

Luciano sorriu achando graça das mesmas frases instantâneas e ensurdecedoras vindo das crianças. Ele havia entendido tudo e não havia entendido nada ao mesmo tempo.

— Tudo bem, então vou pegar a bola para vocês.

— Tio Luciano, podemos ir com você? — Johnata perguntou. As outras crianças tinham o mesmo olhar de expectativa.

Luciano assentiu.

— Tudo bem, vamos.

A casinha dos fundos ficava bem próxima ao quintal ao adentrar por um corredor. Um pouco à frente havia uma pia que parecia ser um tanquinho, uma máquina de lavar roupas, várias cadeiras de plástico ao lado e duas cordas longas estendidas por todo o cumprimento do corredor.

Luciano destrancou a porta e ergueu-se na ponta dos pés para poder alcançar a bola que se encontrava na prateleira de cima. O cômodo era bem pequeno, tinha a mesma largura do fogão à lenha de casa, Johnata pensou surpreso. Ainda assim, muitas coisas eram guardadas ali.

Luciano fechou a porta e a trancou. Os olhos curiosos de Johnata pousaram em outro cômodo ao lado que parecia ser uma casinha e bonecas.

— O que é isso? — o menino perguntou apontando para o local.

— Nossos dois cachorrinhos moram aí: o Fred e o Barney — respondeu a menina mais velha.

— Podemos brincar com eles? — Johnata perguntou olhando para os dois cachorros pequenos e peludos.

— Eu sempre os solto no quintal à noite quando as crianças estão dormindo. Mas eu não os deixo perto delas, pois a minha filha tem alergia a pêlo de animais — Luciano respondeu apoiando a mão sobre o ombro da segunda menina mais velha.

A menina esboçou um sorriso amarelo, como que pedindo desculpas, e Johnata arqueou as sobrancelhas em surpresa.

— Os pelos deles te fazem mal? — Ele perguntou para a menina. Ela assentiu.

— Sim — respondeu. — Começo a me coçar perto deles.

— Isso deve ser chato... não poder brincar com um bichinho.

A menina assentiu envergonhada.

— Agora, vamos voltar — Luciano disse carregando o chaveiro e a grande bola colorida. — Vocês vão poder brincar até o almoço ficar pronto — disse andando atrás das crianças que pulavam saltitantes e com a energia renovada.

— Está bem — Disse um outro menininho que estendeu os braços para que Luciano lhe entregasse a bola. Ele voltou a atenção para os amiguinhos. — Vamos brincar de passar a bola? Mas não pode deixar ela cair no chão, senão perde.

Luciano sorriu encantado para as crianças que já haviam se enturmado e feito amizade com o amigo novo, e retirou-se rumo à cozinha.

Daniel lavava o restante de louça que havia sobrado, Dalva estava em frente ao fogão, experimentando um pedaço de legume e Fábio estava encostado no balcão. Os três riam e conversavam. Luciano guardou o chaveiro no pequeno gancho de um porta-chaves de madeira que tinha o formato de uma casa de teto em "v" ao contrário.

— Já está pronto, mamãe?

Dalva olhou para Luciano, ainda com o mesmo sorriso no rosto.

— Está quase. O feijão e o arroz estão prontos, a salada está pronta na geladeira — a senhora respondeu apontando para cada. — Só falta a cenoura ficar um pouco mais mole. Onde você estava?

— Fui pegar uma bola para as crianças brincarem. Vou lavar as mãos — disse ele entrando no banheiro ao lado.

— Terminei — Daniel disse após lavar o último copo e colocá-lo de cabeça para baixo para secar.

Dalva voltou a experimentar outro pedaço de cenoura e constatou que o alimento já estava na consistência certa. Ela fez um som de aprovação.

— Já podem chamar as crianças para lavarem as mãos — A senhora disse para Fábio e Daniel. — A comida já está pronta.



Todos já estavam à mesa, comendo e conversando de vez em quando. Johnata havia elogiado a deliciosa comida de Dalva, o que a fez sorrir acanhada e agradecer.

Eles conversaram sobre comidas, profissões, sobre a vida de Dalva e Luciano no tempo em que trabalharam para a família de Aline, mas Daniel preferiu não mencionar seus assuntos pessoais. Não valeria a pena falar sobre os assuntos mais íntimos de sua vida para todas as pessoas próximas a Aline. Eles eram pessoas maravilhosas, mas decidir não contar nada muito a fundo seria a opção correta.

Daniel observou o seu filho comer e sorriu.

Até mesmo almoçando, Johnata permanecia com a mesma energia de sempre, e agora estava mais aparente pois o menino havia sido rápido em fazer novos amigos. As crianças também gostavam muito dele, mesmo se conhecendo há tão pouco tempo. Havia sido desse jeito na escola e também com dona Maria e sua neta. Johnata era um encanto e uma pessoa fácil de gostar, exatamente como a mãe.

Entre outra garfada, Daniel olhou para o céu azul enquanto os outros conversavam e comiam distraídos.

Estaria Aline olhando para o mesmo céu azul límpido com poucas nuvens e pensando nele? No passado que compartilharam?

Na noite anterior, Johnata havia perguntado se Aline sentia amor por Daniel. De certo modo, Daniel sentiu-se um pouco incomodado com aquela pergunta, pois ele não soube dar uma resposta. A verdade é que ele não sabia a resposta. Sabia, sim, que a amava com todas as forças de seu coração e que ela também o havia amado muito. Mas, e se as coisas tivessem mudado?

Daniel deu um suspiro infeliz. Seria melhor não continuar enchendo a sua mente com preocupações desnecessárias. O grande e intenso amor que um sentiu pelo outro não diminuiria em tão pouco tempo e jamais acabaria.

— Mais salada, Daniel? — Dalva perguntou.

Daniel esboçou um pequeno sorriso de agradecimento.

— Sim, obrigado.



Após o almoço, Luciano pôs as crianças para cochilar um pouco junto da avó. Ele preferiu deixar a sobremesa para mais tarde, pois faltava um pouco mais de uma hora para que estivesse pronta. Juntou-se a Daniel e Fábio para tomarem café na sala de estar.

Daniel olhou ao redor, sentindo falta do filho.

— Johnata também está dormindo? — indagou.

Luciano pensou um pouco antes de responder.

— Ele não quis cochilar. Acho que está com os cachorros.

— Cachorros? — Daniel perguntou num tom de voz um pouco preocupado.

— Não se preocupe, eles são bem pequenos e estão presos dentro da casinha — Luciano respondeu. — Eu só não os deixo soltos pela varanda, pois a minha filha tem alergia a pêlo de animais.

— Ah, sim, entendo.

— A casinha dos cachorros fica no corredor ao lado do quintal, à nossa esquerda daqui — Luciano continuou. — Johnata gostou dos dois e deve estar se divertindo agora.

Daniel assentiu sorrindo e bebeu mais um gole de café.



— Sabe, eu nunca vi o rosto da mamãe, mas a dona Maria me contou algumas histórias sobre ela — Johnata disse enquanto os cachorrinhos pulavam e lambiam as suas mãos. — Hoje eu vou ao parque de diversão com os meus amigos, mas amanhã terei de ir embora para encontrar a mamãe. Estou bem perto de conhecê-la — completou com um grande sorriso.

Um dos cachorrinhos apoiou-se nas patinhas traseiras, segurando as patas dianteiras no braço de Johnata, pedindo mais carinho. O outro rodou pela casinha, balançando o rabo, e parou para beber água.

— Vou sentir a falta de vocês, sabiam?

— Fazendo mais amigos? — Perguntou uma voz conhecida.

Johnata olhou para cima.

— Papai! — Sorriu ao vê-lo.

— Parece que eles gostaram de você. — Daniel agachou-se ao lado do filho. — Quais são os nomes deles?

— O tio Luciano não disse. Eu esqueci de perguntar.

Daniel assentiu e observou Johnata brincar com as mãos, interagindo com os dois pequenos animais.

— Está gostando daqui? — Perguntou ao filho.

Johnata sorriu.

— Sim. Eles são muito legais — o menino respondeu.

— Você sabe que iremos embora amanhã cedo, certo?

Johnata assentiu prontamente.

— Eu sei — a criança respondeu. — Vou ficar triste por ir embora, mas também estou contente em saber que vou conhecer a mamãe.

— Isso mesmo — Daniel concordou. — E, fugindo do assunto: você conseguiu memorizar a tarefa de ontem?

Johnata olhou para o pai e lembrou-se do que havia lhe pedido.

— Algumas — o menino respondeu pensativo.

— Eu trouxe o seu caderno para você memorizar um pouco mais, mas só por alguns minutos. — Daniel mostrou a mão que segurava o caderno que outrora esteve oculta atrás das costas. — Você quer estudar mais um pouco?

Johnata assentiu prontamente.

— Sim — respondeu animado.

— Só não podemos estudar assim, agachados. — Daniel olhou para trás e notou que ao lado da máquina de lavar tinham algumas cadeiras de plástico empilhadas uma sobre a outra. — Papai vai pegar as cadeiras. Enquanto isso, você lava as suas duas mãos.

— Sim — Johnata assentiu concordando e deu mais uma carícia nas duas bolas de pêlo antes de fazer como o seu pai havia pedido.

Nenhum comentário:

Postar um comentário