O lugar era enorme, devia ter sido um campo de futebol antes de transformá-lo num parque de diversão e em uma área de lazer para pessoas de todas as idades. Era noite e as luzes piscando em volta dos brinquedos, mais as luzes vindas dos pequenos postes e das muitas barracas, deixavam o parque mais iluminado e encantador do que uma árvore de Natal.
Daniel já conhecia aquilo tudo, pois já havia ido duas vezes em parques parecidos como aquele: a primeira vez, tinha sido com o seu responsável; e na segunda vez, tinha sido com Aline, quando ela ainda tinha quinze anos de idade. Mas Johnata nunca havia ido à um parque de diversão. As vezes mais próximas que haviam chegado perto de tal experiência foram brincando em brinquedos normais de praças; uma que ficava em frente à escola, outras pelas redondezas, e a última que Johnata havia ido quando pararam para abastecer o carro. Certamente, o menino devia estar muito encantado com todos aqueles enormes brinquedos e luzes em volta.
Daniel fitou Johnata, que segurava a sua mão, e constatou que estava certo; os olhos do menino irradiavam alegria e o seu sorriso ía de orelha à orelha.
— Olha, papai, o minhocão! — Disse o outro menino segurando a mão de Luciano com uma mão e apontando para o brinquedo com a outra.
— Sim, estou vendo — Luciano disse. — Depois iremos lá.
Com a outra mão, Luciano segurava a mão de sua sobrinha, a menina mais velha. A sua única filha segurava a mão de Fábio, e a menina mais nova segurava a mão da avó, que vinha um pouco à frente sob o olhar atento e preocupado do filho. Johnata olhou para o amigo que vinha logo atrás dele.
— O que é minhocão? — Perguntou.
— É aquele brinquedo ali. — O menino apontou para um brinquedo grande que parecia ser mistura de uma minhoca com um trenzinho. — É muito divertido! — disse com o tom de voz mais alto que o normal, por conta das conversas, gritos e risadas das pessoas e das músicas altas.
Johnata olhou para o minhocão e notou que o brinquedo girava sem parar, percorrendo o mesmo círculo. Em alguns assentos, tinham apenas crianças, enquanto em outros, os adultos responsáveis também acompanhavam.
— O minhocão é chato, ele é muito lento — Disse a menina mais velha.
— É claro que para você ele vai parecer chato — Luciano disse para a sobrinha. — Você não tem mais idade para querer andar nele.
Mesmo gostando de todo o lugar, Johnata sentiu-se obrigado a concordar. Aquele brinquedo parecia ser entediante.
— Vamos parar para comer antes ou depois? — Dalva perguntou.
Luciano olhou para a mãe.
— É melhor deixarmos o lanche para depois, mas precisamos achar um lugar para sentar, de qualquer forma. — Dalva era uma senhora de idade, e não podia ficar em pé por muito tempo.
Após passarem um considerável tempo procurando por mesas e cadeiras, visto que o lugar estava cheio, todos sentaram-se e conversaram um pouco. Johnata e as outras crianças manifestaram vontade de ir nos brinquedos e Fábio voluntariou-se para levá-las em um de cada vez. Luciano abriu a carteira e deu uma boa quantia para que Fábio pudesse pagar os ingressos. Fábio saiu logo atrás enquanto as crianças brincavam saltitantes um pouco à frente. Os olhos atentos de Daniel os acompanhou e ele sorriu.
— Estou com fome, acho que já vou pedir o lanche — Luciano disse. — Vai querer algo para beber, Daniel?
— Por mim, tanto faz. — Daniel deu de ombros. — Mas eu adoraria acompanhá-los no que for pedido — Daniel disse sorrindo educadamente para Luciano e Dalva que estavam sentados em lados opostos das duas mesas.
— Vou comprar uma cerveja para nós. A senhora quer, mamãe?
Dalva fitou o filho.
— Você deveria saber que eu não posso beber nada alcoólico.
— Verdade, mamãe tem intolerância a álcool. — Luciano sorriu ao lembrar-se. — Então, pago um refrigerante para a senhora e uma cerveja para mim e Daniel. O que vão querer para comer?
— Tanto faz. — Dalva deu de ombros.
— Contanto que seja gostoso — Daniel disse como se completasse o que Dalva havia dito. Os três sorriram, e Daniel sacou a sua carteira do bolso.
— Não precisa, eu pago — Luciano adiantou-se antes que Daniel contasse as notas.
Daniel fez que não.
— Faço questão de ajudar. — Daniel puxou algumas notas e estendeu para Luciano. — Aceitar que você pague tudo, me ofenderia.
— Ah, sim. Contanto que você não se sinta ofendido, tudo bem — Luciano concordou e sorriu. — Fritura está bem para a senhora, mamãe?
— Se a fritura estiver enxuta, e não encharcada de óleo, tudo bem — Dalva respondeu.
— Tudo bem — Luciano assentiu e retirou-se. — Já volto.
— A senhora ainda aguenta ir em um desses brinquedos? — Daniel perguntou para Dalva.
Dalva o fitou e sorriu.
— Somente naqueles em que as crianças bem pequenas vão. Acho que eu não aguentaria ir nos outros brinquedos mais loucos, e talvez nem mesmo me deixariam entrar — Dalva respondeu e fez uma breve pausa por um momento enquanto Daniel olhava em torno do parque. — Está preocupado com o seu filho?
Daniel olhou para ela.
— Um pouco, mesmo sabendo que as crianças estão em segurança com Fábio — ele respondeu. — Às vezes, tento não me preocupar, mas é mais forte do que eu.
— Mas é claro, você é pai — Dalva disse. — Mesmo o meu filho sendo um homem adulto e tendo uma idade mais avançada, não deixo de me preocupar com ele.
Daniel assentiu.
— A senhora mora na casa dele ou ele mora em sua casa? — Perguntou.
— A casa é minha, Luciano e as crianças moram comigo — Dalva respondeu. — A mina filha está viajando a trabalho, e por isso, as duas filhas dela estão morando temporariamente conosco. Mas o meu filho não me dá despesas, mesmo que a maioria das pessoas pense errado de um homem de meia idade estar morando na casa da mãe. Luciano me ajuda muito lá em casa, e para mim, não há felicidade maior do que ter meus filhos e meus netos por perto.
Daniel assentiu pensativo.
— Acho que penso o mesmo — Daniel concordou. — Não consigo imaginar ver meu filho longe de mim, mesmo que ele fique mais velho.
— Sim, eu notei. — Dalva sorriu. — Você parece ser um pai muito protetor e cuidadoso.
Daniel sorriu envergonhado.
— Eu faço o que posso por ele. Afinal, Johnata não é só o meu filho, mas também é minha única lembrança viva da mãe dele, e a minha esperança para continuar seguindo em frente.
Dalva assentiu, o fitando atentamente.
— Eu ainda não entendi muito bem o motivo de vocês terem se separado, pois você não quis se aprofundar no assunto. Mas é estranho imaginar que uma mãe abandonaria um filho recém-nascido, e essa criança crescer sem conhecer a mãe — Dalva disse observando o olhar pensativo de Daniel refletir uma visível tristeza. — Quer dizer, essa não é a pequena Aline que eu conheci e aprendi a amar.
Daniel suspirou profundamente e se pôs em silêncio por um breve momento antes e voltar a olhar para Dalva.
— Ela não o abandonou — ele disse quase vagamente, perdido em pensamentos. Contar tudo novamente para mais outra pessoa, ainda mais num lugar como aquele, não estava em seus planos, e nem mesmo iria ajudá-lo a continuar com sua busca. — É complicado dizer...
Dalva continuou a olhar para o jovem à sua frente e apiedou-se por ele.
Era visível que Daniel sentia-se incomodado ao falar sobre o assunto, o que dava para notar tristeza em seu olhar sempre que ele ou alguém falava sobre Aline. Ele realmente a amava muito.
Ela esboçou um sorriso tranquilizador e pôs a sua mão sobre a dele.
— Não é preciso falar. Apenas fique calmo e creia que tudo dará certo — Dalva disse e notou um dos cantos dos lábios de Daniel subir num pequeno sorriso. Maria tirou a sua mão sobre a dele e ajeitou-se na cadeira. — Estamos num lugar divertido e não quero ver você ficar triste.
O sorriso de Daniel se ampliou um pouco mais e, enfim, ele suspirou profundamente numa tentativa de tirar alguns pensamentos tristes e negativos de sua mente. Dalva tinha razão: aquele não era o momento e nem o local adequado para falar ou pensar no que houve em seu passado.
— Obrigado, dona Dalva — Daniel agradeceu, sentindo-se um pouco mais aliviado.
Antes que Dalva respondesse, Luciano chegou. Em uma mão, ele carregava uma enorme bandeja de batatas-fritas com algumas carnes em volta; em outra mão, carregava uma garrafa de cerveja e uma garrafa pequena de refrigerante.
— Mamãe, está pronto — Luciano disse cheio de energia, como sempre. — Enfim, podemos lanchar!
Daniel levantou-se da cadeira.
— Deixe-me ajudá-lo — Daniel ofereceu ajuda, estendendo as duas mãos para que Luciano pudesse lhe passar a bandeja de batatas-fritas.
Luciano agradeceu enquanto Daniel colocava a bandeja no meio entre as duas mesas, e pôs as duas garrafas mais à frente.
— Eu me esqueci de pedir o abridor de garrafas e alguns copos de plástico — Luciano comentou.
— Eu posso buscá-los — Daniel se voluntariou, ainda de pé.
— Obrigado, Daniel. — Luciano sorriu agradecido e virou-se para trás, apontando a segunda barraca mais à frente. — Foi ali onde eu comprei o lanche e as bebidas. É só você pedir copos de plástico e abridor de garrafas, eles não te cobrarão pelo pedido. Pois se você pedisse em outro lugar, seria bem capaz de eles te cobrarem o aluguel do abridor e a venda dos copos.
Daniel e Dalva riram do que Luciano havia dito.
— Sim, tudo bem. Não demoro — Daniel disse e fez como o pedido.
◇
Fábio havia terminado de pagar os ingressos e retirou-se da bilheteria acompanhado das crianças.
— Eu comprei ingressos para o minhocão, para o carrossel e para as xícaras giratórias — Ele disse para as crianças enquanto organizava os ingressos.
— Xícaras giratórias? — Johnata perguntou sem entender.
— Sim, as xícaras ficam rodando em volta, assim como o carrossel — Fábio respondeu. — Mas a diferença é que elas giram em torno de si mesmas também.
— Assim? — A menina mais nova virou em apresentação.
Fábio sorriu.
— Assim mesmo — ele concordou.
— Mas isso deve dar tontura — comentou a segunda menina mais velha.
— Depende — Fábio falou. — Em algumas pessoas, sim, e em outras, não.
— Podemos ir ali depois? — Johnata perguntou olhando para a roda gigante.
Fábio e as outras crianças também olharam para cima.
A grande roda, que tinha pequenas cabines fincadas em torno, era enorme e bastante iluminada.
— Que lindo — A menina mais velha comentou, maravilhada.
— Verdade — Concordou a menina mais nova.
— Eu quero ir — disse o outro menino.
Fábio olhou para o garotinho.
— Lamento, mas só comprei ingressos para as xícaras, o minhocão e o carrossel — disse. — E o dinheiro que o seu pai me deu já acabou. Sobraram somente poucas moedas.
A expressão do rosto do menino deixou transparecer irritação e desânimo.
— Mas vocês irão nesses brinquedos primeiro — Fábio disse tentando animá-los novamente. — Talvez mais tarde eu pergunte a eles se vocês poderão ir na roda gigante.
— Tem mais brinquedos? — Johnata perguntou em tom de curiosidade com o sorriso alegre emoldurado o rosto.
Fábio fez que sim.
— Tem muito mais — respondeu. — Mas não creio que terá dinheiro o suficiente para pagar por todos eles.
— Tem a barca também — a menina mais velha disse enquanto eles continuavam andando entre as muitas pessoas que se divertiam no local.
— Barca? — Johnata voltou a perguntar, curioso.
Fábio sorriu, achando graça. Mas, no fundo, sentiu-se incomodado ao perceber que Johnata e Daniel pareciam ser tão isolados do resto do mundo.
— Depois eu mostro a barca — Fábio respondeu acompanhando as crianças para a frente do carrossel que estava repleto de crianças acompanhadas de seus respectivos responsáveis. — No momento, esperaremos o carrossel esvaziar um pouco para que vocês possam entrar.
Johnata olhou para Fábio.
— Você não vai também? — o menino perguntou.
Fábio fez que não.
— Ficarei aqui observando vocês — ele respondeu. — Por enquanto, vamos esperar um pouco até vocês começarem a se divertir. Então, vocês poderão ir nos outros brinquedos.
Os olhos de Johnata reluziram ao fitar o carrossel e o subir e o descer dos cavalinhos que ficavam em volta, praticamente ignorando a grande fila de crianças e adultos à frente. Aquilo tudo era uma grande novidade para ele, e tentaria aproveitar o máximo que pudesse ao lado dos seus amigos.
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