O grupo em volta da mesa conversou sobre muitas coisas: sobre o passado de Luciano como cozinheiro e os pratos que ele adorava fazer para Aline e Lucas; sobre a vida de Daniel no interior, as terras que ele havia herdado dos pais, e como ele garantia o sustento do dia a dia; haviam falado sobre o sonho financeiro que a irmã de Luciano estava buscando em suas viagens, sobre as crianças e o quanto elas haviam se acostumado uma a outra.
Depois de cada ida à um brinquedo, as crianças voltavam com Fábio e juntavam-se aos adultos nas conversas, lanchavam ou brincavam por perto. Johnata e Patrícia, a menina mais velha, haviam deixado para irem nos brinquedos que tanto queriam por último. Dessa vez, Fábio havia saído para fumar um pouco e telefonar para a mãe de seu filho, então Daniel aceitou a tarefa de cuidar das crianças enquanto Dalva e Luciano dançavam próximos às mesas, como algumas pessoas faziam por perto. Daniel sorriu ao ver mãe e filho se divertindo, e acompanhou as crianças pelo parque.
Daniel olhou ao redor e notou que havia mais opções de divertimento além dos grandes brinquedos do parque. Em algumas barracas, tinham algumas brincadeiras de pesca, em outras tinham tiro ao alvo, e muitas outras brincadeiras que divertiam e distraíam as pessoas. Talvez mais tarde eles iriam passar por aquelas barracas e se divertirem um pouco mais, já que os ingressos para as crianças irem em mais brinquedos já estavam prestes a acabar.
Daniel pegou a sua carteira do bolso e percebeu que não daria para gastar tanto dinheiro dali para frente ou suas economias para a viagem acabariam rápido. Ainda assim, pegou uma pequena quantia que não faria falta e levou Johnata e Patrícia na bilheteria enquanto as outras crianças divertiam-se no minhocão. Ele comprou ingressos um pouco mais baratos para se divertirem nas barracas de brincadeiras; tiro ao alvo, pesca livre e arremesso de argolas.
Eles esperaram só mais um pouco as crianças saírem, e então levou Patrícia para entrar na barca. Nenhum momento foi entediante, fosse esperando nas filas para as entradas das crianças nos brinquedos, fosse na espera por cada brincadeira ser finalizada, ou até mesmo pelas muitas conversas — algumas até sem sentido — vindas das crianças. Daniel havia levado Johnata ao parque de diversões para o filho divertir-se com os novos amigos em sua primeira experiência num lugar como aquele, mas constatou que ele também se divertia e se distraía fácil com o lugar encantador e com as brincadeiras à sua volta. Não que Daniel houvesse se esquecido do que realmente iria fazer em meio àquela jornada um tanto cansativa, mas a tensão em seu coração havia sumido, tudo parecia mais alegre e despreocupado.
Após Patrícia sair bem mais sorridente que antes, e um pouco tonta até, Daniel levou as crianças em cada barraca para brincarem. Na pescaria, as duas meninas mais novas tentaram pegar os peixes certos contra muitas outras crianças, mas somente uma delas conseguiu obter um prêmio: um brinquedo pequeno e simples. No tiro ao alvo, Daniel e Patrícia tentaram mirar e atirar nos alvos certos, mas apenas Daniel ganhou, pois sabia mirar melhor do que a menina; o prêmio foi um urso de pelúcia e ele o segurou junto ao corpo, mesmo sabendo que não ficaria com o brinquedo. No último, arremesso de argolas, Johnata e o outro menino tentaram mirar os anéis das argolas em pequenos cones que ficavam mais à frente, disputando com pessoas até mais velhas que eles. Com muito esforço e quase se pendurando no balcão que separava as pessoas do interior da barraca, e com os gritos de motivação de Daniel e das outras crianças, Johnata e o outro menino conseguiram acertar os cones. Ambos gritaram, orgulhosos de seus feitos, e cada um ganhou um brinquedo, também pequenos e modestos.
— Você viu, papai? — Johnata comentou contente. — A gente venceu!
Daniel sorriu e acariciou as cabeças dos dois meninos.
— Eu vi — ele disse e caminhou atrás das crianças, segurando os brinquedos enquanto elas saltitavam alegres logo à frente. — Quase perdi a voz de tanto torcer para que vocês ganhassem.
— O tio Daniel ficou gritando mais alto do que a gente — disse a filha de Luciano, sorrindo e arrancando risadas de Daniel.
— Eu ouvi — Johnata concordou. — Daqui a pouco, o papai vai ficar rouco.
Daniel pigarreou.
— Estou quase lá — ele disse e engoliu um pouco de saliva para tentar limpar a garganta. — Agora vamos voltar.
— Mas papai, a gente ainda não foi na roda gigante — Johnata lembrou.
— Exatamente. Estou levando eles de volta para nós dois podermos ir — Daniel respondeu o filho. — Não teria com quem eles ficarem.
Daniel levou as crianças de volta para Luciano e Dalva que estavam conversando e rindo com Fábio. Luciano notou a presença deles.
— E, então, divertiram-se? — Luciano perguntou.
— Papai, o tio Daniel levou a gente para brincar nas outras barracas — disse o outro menino. — Eu consegui arremessar a argola no cone e ganhei um brinquedo.
— "Argola no cone"? — Luciano perguntou sem entender.
— Arremesso de argolas — Daniel explicou. — Ele e Johnata brincaram de arremessar argolas, Patrícia e eu brincamos de tiro ao alvo, e as outras duas meninas brincaram na barraca de pescaria. Ah, a propósito. — Daniel apoiou o ursinho numa das mesas. — Este urso fica para vocês — ele disse para as crianças.
— Como é que se fala? — Dalva indagou para os netos.
As quatro crianças agradeceram, contentes, e Daniel sorriu, satisfeito. Com toda a certeza, aquele estava sendo um dia muito especial.
Fábio olhou para Daniel e Johnata, e sentiu-se contente por eles estarem tão descontraídos, especialmente Daniel que era tão sério e observador na maior parte das vezes. A viagem estava sendo especial em vários fatores: para Fábio, que havia reencontrado amigos tão queridos; e para Daniel e Johnata que, além de estarem prestes a encontrar alguém tão especial para eles — a pessoa que os completavam —, fizeram novas amizades e saíram um pouco do estado isolado que, mesmo de modo inconsciente, Daniel construíra ao redor dele e do filho. Fábio podia se sentir melhor agora. O enorme sorriso de Daniel, que ele só mostrava para Aline e o filho deles, estava lá para todos verem, e demoraria bastante tempo para desaparecer — bem, pelo menos, era o que Fábio esperava.
— Agora eu e Johnata iremos no último brinquedo que ele tanto queria ir. — Daniel olhou para o filho. — Vamos? — Perguntou para Johnata que respondeu o óbvio, sorridente.
◇
Lá era bem alto. Dava para se ter uma boa vista do bairro e de quase todo o parque; pessoas pareciam ser pequenas formigas, e a sensação que dava é de estarem prestes a sair da órbita terrestre.
Daniel olhou em volta e se deu conta de que aquela cabine era bem fechada e dava mais sensação de proteção, diferente da roda gigante que ele havia ido com Aline, que era apenas um banco para duas pessoas com uma trava na frente — trava que parecia estar solta, foi o que ele notou naquele tempo, mas não disse nada, pois não queria assustá-la.
A cabine era bem grande e tinha espaço o suficiente para quatro pessoas. Daniel notou que Johnata oscilava de vez em quando em olhar para a cabine e olhar para fora. O menino não aparentava ter medo de altura.
— Está se divertindo? — Daniel perguntou ao filho.
Johnata olhou para a frente e sorriu para o pai.
— Muito — o menino respondeu. — Parece que estamos voando.
— Verdade. — Daniel concordou sorrindo e olhou para o céu estrelado — o mesmo céu que o amor de sua vida devia estar observando, pensando nele e no filho deles.
Mas o semblante de Daniel não transpareceu dor ou tristeza ao pensar nela. Ele estava contente demais — por ele, por Johnata e pelas pessoas maravilhosas que havia conhecido. O seu coração estava em paz, finalmente, e repleto de esperanças; doces esperanças que os aguardavam dali para frente.
— Venha aqui. Venha ficar ao lado do papai — Ele chamou Johnata, que pulou correndo em seu colo. — Sabe o que eu notei?
— O que? — Johnata perguntou olhando para o pai que apoiava a cabeça na mão estendida.
— Que você subiu no meu colo duas vezes hoje, para alguém que diz que já não é mais uma criança. — Daniel sorriu para o filho e o seu sorriso aumentou para uma risada quando Johnata fez cara feia e saiu do colo do pai, sentando-se ao lado da janela da cabine.
— Papai!
— Tudo bem, estou brincando. — Daniel continuou a sorrir, mas parou, observando o cenário mudar conforme a cabine descia um pouco mais. — Na verdade, foi algo que percebi.
Johnata o fitou atentamente.
— E o que é? — a criança indagou, curiosa.
Daniel olhou para o filho e sorriu.
— Que eu não preciso mais me entristecer e me desesperar por causa da sua mãe — respondeu. — Nós a amamos e tenho certeza de que ela ainda nos ama muito. E enquanto esse amor existir e perdurar, nós a encontraremos, onde quer que ela esteja.
Johnata sorriu e encostou a cabeça no peito do pai, que o beijou com carinho.
— Estou muito contente, papai.
— Eu também estou muito contente — Daniel disse. — Por agora e pelo futuro que nos aguarda ao lado de sua mãe.
Johnata suspirou de alegria e satisfação. Aquele, definitivamente, tinha sido o dia mais feliz de sua vida — ou, pelo menos, um deles.
Daniel apenas permaneceu daquele modo com o filho, observando o lugar bastante iluminado lá fora. Amanhã o dia seria diferente. Seria o começo de um futuro feliz.
— Papai — Johnata o chamou.
— Hum? — Daniel olhou para o filho.
— O que é "perdurar"? — Johnata perguntou com curiosidade.
Daniel voltou a sorrir para o seu menino, sua outra preciosidade.
Por mais que Johnata tentasse ser independente, ainda podia se notar que o menino fazia de tudo para estar mais ao lado do pai e aprender mais com ele; como pedir auxílio à uma coisa boba que poderia ser ensinada na escola. E Daniel sempre estaria lá para ele.
— Mais tarde, antes de irmos dormir, eu ensino a você. — Daniel apertou a ponta do nariz do filho num gesto carinhoso. — Está bem?
Johnata sorriu por conta do gesto afetivo e brincalhão do pai.
— Está bem — o menino concordou e tornou a olhar para a imagem lá fora.
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