Luana havia sido criada pela madrinha desde os quatro anos de idade. Sua mãe morreu jovem e ela nunca conheceu seu pai. Após anos se mudando de um lugar para outro como quase nômades, Luana e Leonora decidiram se estabelecer na cidade nova quando Luana estava prestes a completar doze anos. Logo que chegaram à cidade, Luana não tinha feito muitos amigos, mas não havia demorado muito para se adaptar, como em outros lugares. Ela não era de se apegar muito, mas definitivamente não gostava de tentar se adaptar e readaptar a outros lugares e deixar para trás o que tinha vivido. Contudo, ela não tinha do que se queixar; aquelas mudanças cansativas eram em benefício da saúde da madrinha e era isso o que importava.
Diferentemente das amizades que Luana havia feito antes em outros lugares em que morou, dessa vez ela tinha certeza que Fred, Jéssica, Nina e David estariam mais definitivos em sua vida. Mas entre eles, David viera um pouco antes.
Em mais uma ida à farmácia para comprar os remédios que a madrinha precisava, Luana esperou na fila logo atrás de um rapaz. Como o atendimento não foi imediato, as coisas fluíram naturalmente, como se já o conhecesse antes. Ela era nova na cidade e sabia que dessa vez ficaria em definitivo, então não seria nada mau em fazer a primeira amizade.
Talvez não fosse com aquele garoto, mas com qualquer pessoa que estivesse em sua frente na fila. Mas algo em seu íntimo agradeceu por ter sido com ele.
O nome dele era David, um nome que talvez não combinasse tanto, foi o que ela pensou na época. Ele era um pouco diferente das pessoas daquela região; seu cabelo escuro ficava na altura do queixo, a pele era bem alva quase como um contraste com sua pele morena, e os olhos eram de um azul tão forte e profundo como ela nunca vira igual.
Ele parecia deslocado naquele lugar como se nunca tivesse estado ali antes ou sem ter noção do que fazer, exceto pelas primeiras instruções da pessoa que o atendeu.
— Acho que você não precisará mais do curativo — Luana observou. — A sua ferida sumiu.
David olhou para o antebraço direito e constatou que realmente havia sumido, como se tivesse se cicatrizado ou nunca estivesse ali. O seu semblante outrora amigável e descontraído pareceu absorver uma carga pesada e obscura da qual ela não entendeu naquele momento e até ainda não entendia.
David pareceu fazer um enorme esforço para voltar a sorrir para ela, embora sem o mesmo efeito de antes, e tentou se apreciar de sua companhia até o momento em que eles sairiam e cada um tomaria o lado oposto. Ele realmente parecia ser diferente, Luana pensou.
A partir daquele dia, eles formaram uma boa amizade, pois voltaram a se encontrar, para a alegria de Luana e dele também. David era um bom rapaz, praticamente um à moda antiga, o que agradou Leonora. Ele parecia ser mais reservado e observador do que a grande maioria das pessoas que ela havia conhecido — não que ela desgostasse, achava que era um charme dele, principalmente por saber que ele só conseguia se abrir mais para ela. Mas ainda que David fosse um rapaz estonteante em vários aspectos e uma parcela das pessoas da escola ficar fazendo fofocas com intenções maliciosas sobre os dois, Luana se interessou por outra pessoa.
O rapaz em questão era uma das pessoas mais populares do colégio e também havia se interessado por ela. Os dois começaram a namorar com a permissão — embora desgosto — de sua madrinha, mas o namoro durou apenas dois meses, o que incrivelmente foi o mais longo de sua vida! Todos os seus outros três namorados que arrumara com o passar do tempo, não duraram, nem ao menos, duas semanas e todos eles haviam terminado com ela de um modo estranho, sem qualquer explicação. Parecia que temiam algo, como se tivesse algo de errado com ela. Leonora parecia suspeita a princípio, mas embora ela claramente não aprovasse seus namoricos repentinos, não parecia ter sido por culpa dela seus términos completamente sem sentido. Luana tinha se sentido uma azarada no amor, embora soubesse que não havia amor verdadeiro, e desde então tentou ao máximo treinar seu coração pra não se interessar por mais ninguém.
David era o seu consolo, o seu ombro amigo para as horas mais tristes e contentes e Luana sentia-se bem em confiar nele. Mas praticamente tudo passou a mudar a partir do ano passado. Ele passou a se comportar de um modo... diferente — não apenas diferente do garoto que conheceu, mas diferente do que muitos consideravam "normal". Os olhos safira já não transpareciam o mesmo brilho de antes, agora mais pareciam maliciosos e intimidadores.
Certo dia, quando ainda se falavam normalmente sem qualquer barreira, Luana tinha ficado um tanto confusa sobre a conversa que tivera com David sobre o último namorado que ela tivera.
— Então, quer dizer que vocês terminaram? — David indagou com um vestígio de sorriso no canto dos lábios.
Os dois estavam sentados num banco de uma praça, à luz do dia, alimentando com farelos os pombos que por ali pousavam. A diferença de altura entre eles já era bem considerável.
— Sim — Luana respondeu, um pouco desanimada pelo término do namoro, embora bem curto, e por ter passado mais uma vez por aquela situação. — Ele terminou comigo do nada. Igual aos outros.
David olhou para ela, o que pareceu ser uma eternidade, depois suspirou.
— Não fique assim, Luana. — Ele lhe ofereceu um sorrido condolente. — Realmente, não era para você ficar com aqueles idiotas. Nenhum deles merecia você.
O rosto dele transmitia uma mistura de alívio, compaixão, compreensão e algo mais pecaminoso. David era lindo, sempre foi. Como, afinal, ela nunca tinha se envolvido com ele?
O que diabos ela estava pensando? Ele era o seu melhor amigo, praticamente um irmão. Seria loucura ter qualquer envolvimento com ele que não fosse puramente amizade. Outras pessoas podiam começar um relacionamento romântico a partir de uma linda amizade, mas não era o caso dela. Não mesmo.
Por mais que Luana quisesse dizer ou perguntar algo, as palavras não saíam, pois ela já se encontrava completamente hipnotizada pelo olhar intenso dele.
A partir daquele dia, Luana percebeu o que David realmente queria dizer e os sentimentos dele que iam além da amizade que cultivaram juntos ao longo dos anos. Também percebeu o quão sufocante poderia ser a presença dele e o quanto algo em seu corpo e em sua consciência parecia não repelir o crescente interesse dele.
Tudo o que ela pôde fazer foi se afastar aos poucos, cada vez mais, antes que fosse tarde.
°•♤•°
Luana correu para fora do prédio do trabalho e tropeçou na calçada, a respiração ofegante. Mas, o que tinha sido aquilo? David a amava? Mas, como?
Por um considerável tempo, ela viu David como o melhor amigo, como uma espécie de irmão e, agora, descobrira que ele a amava. Mesmo que tivesse percebido um ano atrás sobre as reais intenções por parte dele, que pareciam ser bem mais fortes do que a amizade que haviam cultivado ao longo do tempo, saber que havia amor deixava tudo ainda mais complexo do que antes.
Luana sentiu uma lágrima cair em sua face. Ela a enxugou e olhou confusa para a sua mão úmida, achando estranho por que aquilo havia acontecido.
Por que ela estava chorando, afinal? Talvez pelo fato de ter sido abordada de uma maneira tão violenta, logo com David, a quem considerava uma pessoa tão importante para si, a sua própria consciência a respondeu.
Luana enxugou a mão na roupa que usava e tratou de se recompor. Devia estar mais equilibrada e não dar a entender algo errado a quem passasse por perto. Logo reencontraria seu noivo.
— Olá, Bela Lua.
Luana virou-se e constatou surpresa que Drácula havia aparecido por trás dela. Embora espantada, ela deu-lhe seu melhor sorriso, mesmo com os olhos ainda vermelhos e marejados.
— Drácula.
A expressão satisfeita por reencontrá-la passou para um semblante preocupado em poucos segundos.
— O que foi, Bela Lua? Por que está chorando?
Luana tentou se concentrar em qualquer coisa para não deixar mais lágrimas caírem; de coisas engraçadas até as mais ridículas possíveis.
— Não foi nada demais. — Ela sorriu numa tentativa de tranquilizá-lo. — Lembrei de algumas coisas, só isso.
— Quer me contar?
Contar para ele? Nunca.
— Não é nada demais. Coisas de mulheres. Você não entenderia.
Sim, Luana sabia que aquela desculpa era completamente ridícula. Talvez ele notasse.
Por um momento, ele pareceu um pouco confuso, mas depois se inclinou em direção a ela para beijar suavemente os lábios carnudos.
— Seja o que for que esteja lhe incomodando, estarei aqui para você.
Sim, ele estaria lá para ela. Luana sorriu.
Parecia que ela tinha conseguido encontrar o príncipe encantado, o que talvez fosse bem melhor do que ganhar na loteria. Diferentemente de seus namorados anteriores, esse não a deixaria, pelo menos era o que ele transparecia e fazia questão de lembrar a todo momento.
Ela sabia que estava gostando dele. E por quê não gostaria? Ele era lindo, jovem – talvez um pouco mais velho que ela – gentil, romântico... Realmente, tinha todas as qualidades que uma mulher iria querer num homem. Sim. Drácula estava conquistando seu coração em tão pouco tempo.
— Obrigada. — Luana se ergueu nas pontas dos pés para retribuir o beijo. — Você é muito gentil. — Ela sorriu um pouco mais descontraída.
Ele a envolveu em seus braços. Era uma sensação tão boa.
— Quero saber como foi seu dia, minha bela.
Luana desviou o olhar.
Ela não queria olhar para o noivo e falar sobre seu dia estranho e confuso com David. Nem ao menos queria pensar mais sobre aquilo, não por hoje.
— Bem... Meu dia foi um pouco chato. Você não iria querer saber.
— Quero saber tudo sobre você, minha bela. Qualquer coisa. Estamos nos conhecendo, certo?
A verdade era que nenhum dos dois iria querer tocar naquele assunto. Afinal, David havia se declarado e logo depois investiu com agressividade para cima dela. Qual seria o namorado, noivo ou qualquer coisa do tipo que aceitaria calado o que havia passado há pouco? Não, ela não falaria sobre aquilo.
— Eu estou bem — Luana disse somente, tentando pôr um fim naquela insistência.
Embora ela parecesse ansiosa ou agoniada por algum motivo, ele decidiu se pôr em seu lugar.
— Tudo bem, Bela Lua. Não a forçarei a fazer nada do que não quer.
Luana sorriu, aliviada.
— Você estava passando por aqui ou veio para me ver? — Ela indagou dando graças por mudar de assunto.
— A segunda opção — Ele a apertou um pouco mais junto ao seu corpo. — Eu queria te ver melhor, passar um pouco mais de tempo com você.
— Bem, obrigada. Concordo plenamente com você.
Drácula deu um passo atrás e tomou a mão em que estava o anel de noivado que havia dado a ela.
Luana o observou atentamente.
Ele parecia tão orgulhoso por observar a joia que havia lhe dado. Era estranho e completamente irreal pensar que havia ficado noiva de um homem no mesmo dia em que o conheceu, e até aquele dia ela ainda pensava que estava louca ou sonhando. Mas aquela situação era diferente, ele era diferente. Não havia mais normalidade em sua vida desde o dia em que entrou a primeira vez naquela mansão perdida em meio a uma estrada totalmente deserta.
— Fica lindo em você. Realça ainda mais a sua beleza.
Luana sorriu acanhada pelo elogio, mas sentiu que ele parecia querer contar-lhe algo.
— Bela Lua, quero te pedir uma coisa.
— Imaginei que sim.
Ele assentiu.
— Eu gostaria que você jantasse conosco, em minha casa.
— “Conosco”, você quer dizer quem?
— Ivan, eu... e nosso sobrinho.
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