sexta-feira, 30 de setembro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 12



Miguel olhou para o resto do conteúdo que restara de sua pesquisa. Havia se passado três semanas desde que fizera o experimento em Natália e naquela altura do campeonato ela já deveria ter engravidado. 

Ele suspirou frustrado. 

Não se daria por vencido, nem mesmo cobraria demais de Natália, pois ela não tinha culpa. Ainda havia testado uma pequena quantidade do conteúdo e esperaria mais uma semana para voltar a inseri-lo na esposa. Contudo, tentaria não pensar naquilo ou se frustraria ainda mais. 

Miguel guardou alguns de seus pertences no armário e destrancou a porta do porão, saindo do recinto. Ele sorriu ao se deparar com a gentil e sorridente Natália. 

Ele mal tinha chegado em casa e ela praticamente o havia derrubado no chão ao abraçá-lo com tanta alegria por vê-lo em casa. Ela parecia estar mais alegre do que o normal e com certeza era por vê-lo chegar mais cedo do trabalho. Desde que fizeram aquele amor intenso um dia depois de ter feito o experimento da pesquisa nela, ambos pareciam mais próximos e apaixonados do que nunca. 

— Meu amor — Natália exclamou sorridente ao ver o marido parado na sala, a observando como um bobo apaixonado. — A janta já está saindo. Só falta cozinhar o feijão — ela disse em frente ao fogão, um pano de prato estendido sobre o ombro. 

Miguel esboçou um sorriso bobo. Como podia ser possível ser tão apaixonado por uma pessoa? 

— Não tenho pressa — ele disse. — Ainda são oito horas da noite. 

Natália abaixou o fogo onde a panela de pressão estava, pendurou o pano de prato na parede e andou na direção do marido que a encarava com o mesmo olhar apaixonado que ela tinha e sempre teria por ele. 

— Você está muito cansado? — Perguntou Natália ao acariciar o rosto do amado. 

Miguel sorriu e pegou a mão da esposa, beijando logo em seguida. 

— Não muito — respondeu. 

Na verdade, sentia-se um pouco exausto por ter chegado do trabalho e praticamente no mesmo instante ter corrido para o porão. Ele mal havia falado com Natália por causa da ansiedade que tinha em relação ao efeito da pesquisa que fizera. 

— Me desculpe por não ter ficado muito tempo aqui com você. 

Natália sorriu e aconchegou-se nos braços do homem que amava mais que tudo. 

— Tudo bem, meu amor — Ela falou compreendendo. — O que importa é que você chegou mais cedo e está aqui comigo. 

Miguel apertou-a ainda mais nos braços fortes, arrancando risadinhas da esposa, enquanto a beijava no pescoço. 

— Ah, então é por isso que você está toda feliz, por eu estar aqui com você, não é? — Perguntou ele entre um beijo e outro. 

Natália o abraçou mais apertado e sentiu as lágrimas de alegria invadindo-lhe os olhos. Mas trataria de não chorar, não naquele momento. Ainda estava cedo e deixaria para contar-lhe sobre a gravidez com mais calma. 

♤ 

As horas se passaram, Miguel e Natália jantaram, assistiram televisão, tomaram banho e fizeram amor no chuveiro e lá estava o casal apaixonado, sentados na cama, Miguel abraçando a esposa por trás. Natália sentiu-se nervosa, oscilando entre contar ou não, mas decidiu por fim que contaria a ele naquela noite. O relacionamento dos dois estava melhor do que nunca e ela tinha certeza que o esposo adoraria a notícia, pois uma das coisas que Miguel mais almejava era ser pai. 

Natália levantou a mão direita do marido e levou aos lábios, beijando com carinho. Miguel sorriu com o gesto amoroso. 

— Miguel? — Ela chamou seu nome com a voz fina e amável. 

Miguel beijou-lhe o topo da cabeça e a abraçou mais apertado. 

— O quê? — Perguntou ele. 

Natália engoliu em seco. Aquele era o momento certo, apesar de sentir um nó na garganta e as pernas bambas. Ela agradecia muito por estar sentada. 

— Preciso te contar algo — Natália olhou para ele por cima do ombro. — Algo que você vai gostar muito. 

Miguel a fitou, pensativo. 

Natália parecia estar tão plena, mas tão tensa ao mesmo tempo. Agora que ele havia parado para pensar, ela parecia estar alegre até demais naquele dia, mas também parecia esconder algo. 

E por um momento, ele parou e a encarou com surpresa e perplexidade. Ele não queria ter falsas esperanças, mas algo lhe dizia que a notícia que ela daria era algo que eles estavam esperando há dois anos. E, como que aumentando ainda mais uma forte esperança que brotava de seu íntimo, Natália o analisou e sorriu, como se já soubesse o que ele desconfiava. 

— Natália — Miguel engoliu em seco. — Não me diga que... 

Ela assentiu, os olhos marejados. 

— Sim, meu amor — Natália confirmou, a mão feminina guiando a mão masculina até o topo do seu ventre ainda liso e coberto pela parte de cima do pijama. 

Natália olhou para o seu amado e uma lágrima invadiu-lhe a face ao vê-lo boquiaberto olhando fixamente para a casa onde o filho deles cresceria por nove meses. 

— Nós conseguimos — Ela disse com a voz emocionada. — Eu estou grávida. 

Miguel continuou a encarar o ventre liso de Natália, sua mão acariciando o lugar guiado pela mão macia dela. 

Dois anos. Foram dois anos de tentativa e espera para tentar conceber e gerar uma criança fruto do amor que sentiam pelo outro. Mas mesmo ambos sendo tão novos, Natália já havia apresentado sintomas de esterilidade, o que fez a tristeza e insatisfação entrar na vida do casal, ainda que o amor estivesse à frente de tudo. Contudo, mesmo o amor não havia impedido que Miguel ficasse cada vez mais viciado no trabalho e na realização de uma pesquisa milagrosa que fizesse Natália engravidar, e até mesmo dela sentir-se cada vez mais impotente. 

E lá estava ela, radiante, com lágrimas invadindo-lhe a face — mas, dessa vez, lágrimas de alegria. Sua pesquisa havia dado certo. Aquela tinha sido a terceira pesquisa que havia feito em prol de tentar engravidá-la e dessa vez a vida estava lhe sorrindo e o abençoando com uma criança, o primeiro filho deles. 

— Ah, meu Deus... 

Ele sorriu e soluçou ao sentir que também estava chorando de alegria, acariciando o ventre feminino. Natália sorriu ao notar as lágrimas do marido e ergueu a cabeça para beijá-lo no rosto. 

— Nós conseguimos, meu amor — Ela repetiu deslumbrante. 

Miguel olhou para a mulher que amava mais que tudo. 

— Você tem certeza? — Indagou ainda com certo ceticismo, pois ainda não lhe caía a ficha que finalmente seria pai. 

Natália assentiu. 

— Sim. Fiz três testes e todos deram positivo — ela disse. — Você quer vê-los? 

— Amanhã — Ele sorriu ainda não acreditando que aquilo estava acontecendo, pois aquela tinha sido a terceira tentativa de engravidá-la e havia dado certo. 

Miguel virou o corpo de Natália para si de modo que pudesse olhar para o rosto emocionado dela. Ele continuou a acariciar a barriga por debaixo da camisa do pijama que ela vestia. 

— Amanhã farei questão de ver os testes e tirar foto deles para guardar como lembrança deste dia muito especial. Por ora, quero fazer algo melhor. 

Miguel tocou levemente o rosto de Natália e a beijou com ternura, colocando as mechas do longo cabelo castanho para trás. Natália já sabia o que ele queria e o beijou de volta do mesmo modo gentil e apaixonado enquanto desaboatoava a camisa do pijama dele. 

Ele a deitou gentilmente no lado oposto da cabeceira e também desabotoou o pijama dela, libertando os seios fartos e já excitados. Eles continuaram a se beijar enquanto Miguel acariciava o ventre feminino como num gesto de reverência. Finalmente eles se tornariam pais e tal pensamento o fazia apaixonar-se ainda mais pela esposa. 

Miguel quebrou o beijo e olhou fissurado para Natália que já estava ofegante e ávida por tê-lo dentro de si. Seria impossível para qualquer homem na Terra amar uma mulher como ele amava sua esposa. 

— Eu já estava pronto para dormir para enfrentar um longo dia de trabalho amanhã, até você me contar sobre a gravidez — Disse Miguel erguendo as pernas femininas e tirando a calça do pijama junto com a calcinha, jogando-as no chão. — Mas neste momento não sinto nem um pouco de sono e acho que essa notícia maravilhosa deva ser comemorada da melhor forma possível e a noite inteira. 

Natália suspirou excitada e ansiosa. Mas, mais do que tudo, completamente apaixonada por aquele homem amoroso e protetor que a vida tinha lhe dado de presente após anos de sofrimento. 

Miguel tocou a barriga exposta e agachou-se depositando um beijo no lugar, o que fez Natália deixar cair mais lágrimas de amor e de alegria. 

— Durma, meu bebê — Miguel disse baixinho para a barriga de Natália como se estivesse falando com o filho. — O papai e a mamãe vão ter uma longa discussão a respeito desta noite maravilhosa. 

Natália deu uma risadinha deliciosa em meio às lágrimas e estendeu os braços para seu amado que já estava engatinhando em sua direção. 

— Você me ama, Natália? — Ele indagou enquanto dava leves mordidas no queixo dela. 

Natália assentiu rapidamente, o corpo tremendo de ansiedade e por todo o amor que parecia lhe esmagar. 

— Eu te amo — ela respondeu completamente apaixonada acariciando as mechas douradas do cabelo dele, pois sabia que Miguel adorava. — E te amarei sempre. 

Miguel sorriu deslumbrante e mergulhou com satisfação num beijo apaixonado com a mulher que ele considerava a mais perfeita no mundo. 

♤ 

Miguel guardou um dos frascos de vidro no compartimento debaixo do balcão de trabalho. Ainda faltava mais uma hora para encerrar o expediente, mas ele precisava contatar seus superiores antes de ir para casa. Pela primeira vez, em dois anos de trabalho, um projeto seu seria aprovado e aclamado por todos. 

Por dois anos tentara engravidar a esposa e também fazer com que alguma pesquisa sua fosse conhecida dentro do país e fora dele. Vendo por um certo ponto e vista, dois anos não pareciam ter sido muito tempo, contudo, toda a angústia e sensação de derrota que sentira dava a impressão de que tinha se passado uma década. Não que pudesse cantar vitória, por ora, pois sempre havia alguma burocracia em relação às aprovações das pesquisas. De qualquer forma, lutaria até o fim para que o começo de sua carreira desse certo. 

Ele tentou disfarçar o sorriso bobo e satisfeito, pois havia outra pessoa na sala trabalhando com ele. Só em pensar na noite de amor que tivera na noite anterior, e o quanto ele e Natália estavam felizes pela chegada do bebê, o fazia tão feliz que mal conseguia disfarçar a alegria. 

— Já terminou? — Perguntou a outra pessoa. 

Miguel olhou a frente. 

Betina trabalhava no Instituto há cerca de quase um ano e, assim como ele e a grande maioria, não tivera nenhum projeto aprovado pelos superiores, dos dois que havia conseguido realizar. Entretanto, assim como ele, Betina não entendia um "não" que lhe jogavam e sempre empenhava-se para fazer o melhor. 

— Tecnicamente, sim — respondeu Miguel. — Quero me adiantar um pouco para ter uma palavra com os superiores. 

Betina piscou surpresa. 

— Oh. Uma reclamação? 

Miguel fez que não. 

— Não — ele respondeu. — Consegui realizar um dos projetos que eu estava desenvolvendo. 

Betina sorriu maravilhada. 

— Que bom. Meus parabéns! — Ela felicitou-lhe. — E o que pretende fazer agora? 

Miguel sorriu e deu de ombros. 

— Falarei com os superiores e aguardarei a pesquisa ser aprovada. 

— E depois, você vai querer trabalhar na iniciativa pública ou privada? — ela indagou. 

Miguel franziu o cenho sem entender. 

— Não entendi. 

— Você trabalha aqui há mais tempo que eu e não sabia? — Betina perguntou surpresa para o colega. — Quando o projeto de algum júnior é aprovado, o Instituto o encaminha para alguma empresa de iniciativa pública ou privada de qualquer lugar do Brasil ou do exterior. Márcio foi encaminhado para uma empresa privada lá de Minas Gerais, pois fica perto da casa da mãe dele. 

— Por causa da pesquisa dele, não é? — Miguel perguntou. 

— Sim — ela respondeu. — Eu soube que ele foi premiado no coquetel, mas não pude ir. 

Miguel assentiu pensativo, quase perdendo o bom humor. 

O desgraçado havia roubado sua pesquisa e fora condecorado por aquilo. Logo sua pesquisa ficaria sendo conhecida Brasil afora, mas sendo remetida à um filho da mãe sem escrúpulos. 

— Entendo — Ele engoliu em seco tentando manter o controle. — Bom para ele, não é? 

Sorriu e tirou o jaleco branco, pendurando-o num dos ganchos da parede e pegou sua mochila preta, pondo-a sobre o ombro. 

— Tenho que ir, Betina. Amanhã nos veremos. 

Ela sorriu amigavelmente. 

— Até mais. E boa sorte. 

♤ 

— Acho que vocês terão que estimular mais os juniores a realizarem mais pesquisas. O mercado exterior está pedindo por mais. 

Rodolfo Linsmeyer estava sentado à mesa do escritório, olhando por cima dos óculos para os dois superiores do Instituto, Álvaro e Edgar, que estavam em pé. 

Os dois tinham sido discípulos de Rodolfo num outro Instituto da Escócia e logo com o término de seus estudos acadêmicos ajudaram Rodolfo a criar o mais novo Instituto de Ciências brasileiro — não só o mais novo, mas o mais famoso e respeitado de todo o país. 

— Eles parecem estar muito inspirados, mas não creio que em pouco tempo teremos mais uma pesquisa criada — Disse Edgar. 

Álvaro olhou para o colega. 

— Márcio conseguiu destaque — disse. 

— Para Minas Gerais, não para o exterior — salientou Edgar. — E parece que nossos concorrentes estão conseguindo mais êxito no caso. 

— Edgar tem razão — Os dois colegas olharam para Rodolfo ao ouvirem a voz profunda. — Mesmo que o nosso Instituto seja o que tem mais prestígio no país, do jeito que os outros importam mais pesquisas e mais novos cientistas, seremos ultrapassados rapidamente. E assim, todos os nossos esforços terão sido em vão. 

Os três permaneceram em silêncio na sala, sem saberem o que mais dizer até que ouviram uma batida na porta. 

— O senhor estava esperando mais alguém? — Edgar indagou apontando para a porta. Rodolfo fez que não. 

Álvaro abriu a porta e se surpreendeu ao ver Miguel ali. 

— Miguel? O que está fazendo aqui? 

Como sempre, Miguel sentia raiva e uma incrível vontade de esmurrar a cara arrogante de Álvaro, mas sua alegria era tanta que aquela possibilidade nem lhe passava pela cabeça no momento. 

— Vim dar uma ótima notícia — Disse disposto. — Posso entrar? 

Mesmo sem entender, Álvaro abriu a porta, dando-lhe espaço para entrar. 

Miguel entrou no cômodo e olhou para seus superiores que o encaravam confusos. 

Ainda lembrava da última vez que havia entrado naquela sala, mas da última vez tinha sido chamado por Rodolfo para dar satisfações sobre seu comportamento, sendo que havia sido roubado por Márcio, o que foi uma grande injustiça. Contudo, como o mundo girava corretamente, agora lá estava ele com sua pesquisa pronta em mãos para esfregar nas caras daqueles arrogantes o que ele era e ainda seria capaz de fazer. 

— Boa noite — Miguel os cumprimentou. — Eu não avisei que viria e certamente os senhores devem estar estranhando minha presença aqui. 

— É algo muito importante, Miguel? — Edgar interrogou. 

Miguel sorriu satisfeito e abriu um dos bolsos da mochila preta, tirando um pequeno frasco redondo de lá e o apoiou na mesa de Rodolfo. 

— O que é isso? — Rodolfo indagou enquanto segurava e olhava curiosamente para o pote de vidro que continha um viscoso líquido azul. 

Miguel olhou brevemente para Álvaro que tinha a mesma expressão dos outros. 

— Eu soube que Márcio foi mandado para Minas Gerais e que a pesquisa dele vai ser muito explorada no país e no exterior. Muito bem, nesse meio tempo que se passou, pude empenhar-me mais em meus planos de criar uma nova pesquisa, não só porque não ganhei algum prêmio, como Márcio, mas senti que podia me inspirar nele e em sua força de vontade. 

Era óbvio que Miguel não sentia nenhuma inspiração em Márcio, e a vontade que sentia era de esganá-lo na primeira oportunidade que o visse novamente. Mas não podia revelar aquele tipo de coisa a seus superiores, ainda que Álvaro desconfiasse de sua frustração pela pesquisa roubada. 

— E foi então que há um pouco mais de três semanas eu decidi criar uma pesquisa que ajudasse minha esposa — continuou. 

— Ajudar sua esposa? — Linsmeyer perguntou sem entender. 

— Ela era estéril e eu procurei me empenhar em tentar termos um filho desde o meu primeiro dia de trabalho aqui. 

— "Era"? — Álvaro perguntou. 

— Mesmo sendo nova, minha esposa sofria para engravidar e logo foi diagnosticada como sendo "estéril". Foi um baque para nós dois, mas comecei a correr atrás de alguma possibilidade que pudesse dar certo, até que chegou a vez desse produto que os senhores podem ver — Disse Miguel indicando o pequeno frasco apoiado em cima da mesa de Rodolfo. — Então, há um pouco mais de três semanas, eu criei este conteúdo para tentar mais uma vez fazer com que desse certo, apesar de eu ter falhado nas primeiras duas tentativas. 

— Você criou duas pesquisas antes desta para tentar engravidar sua esposa? — perguntou Edgar. 

— Sim, e peço desculpas por não ter mencionado antes, mas achei que não teria por que falar sobre algo que não havia dado certo, nos dois casos — Miguel respondeu. 

— Sei — Álvaro ponderou. — E o que você fez para que desse certo? 

Miguel teria de ser cauteloso e dançar conforme a música, pois Álvaro e os outros pareciam estar desconfiados. 

— Fiz uma mistura entre alguns conteúdos, incluindo o ativador de oosfera que, apesar de ter esse nome, não consegue agir sozinho — Ele respondeu. — Claro que não consegui realizar essa façanha na primeira vez. Para dizer a verdade, eu já estava perdendo as esperanças. 

E como estava, pensou ele. Não só em questão familiar, mas também na profissional. Entretanto, Miguel nunca fora um homem de desistir. 

— E você tem alguma prova em mãos? — Perguntou Linsmeyer olhando para ele por cima dos óculos. 

Miguel sorriu, não pela pergunta, mas pela lembrança da manhã com Natália e da alegria que estava sentindo por saber que iria ser pai. 

Ele abriu outro bolso da mochila e tirou uma foto de lá, entregando-a para Rodolfo. 

— Eu não estava acreditando muito, até que ela me disse que havia feito três testes — Miguel disse tentando disfarçar seu contentamento. 

Rodolfo olhou de Miguel para a foto em mãos e pôde notar mãos femininas e com unhas bem cuidadas segurando os testes de gravidez e cada um tinha dois riscos na parte central, o que provavelmente indicava que a esposa de seu funcionário estava grávida. A questão era como ele havia conseguido aquilo, sendo que a esterilidade era frequente em todo o mundo, ainda que fosse uma minoria de homens e mulheres com o problema. 

Miguel sentiu certa confusão no olhar sério de Rodolfo enquanto analisava a foto e o conteúdo no frasco acima da mesa. Por isso, abriu mais um bolso da mochila e sacou um documento, mostrando-o aos outros. 

— Este aqui é um documento que prova a esterilidade da minha esposa. — Ele entregou a Edgar que interessou-se em verificar. — Se quiserem, os senhores podem entrar em contato com o hospital que realizou esse procedimento. 

Álvaro juntou-se ao colega e notou que o telefone de contato estava no fim da página. Edgar também analisou e entregou o papel para Rodolfo, que também analisou cuidadosamente. Não demorou até ele entregar a foto de volta a Miguel. 

— E quando ela lhe contou que estava grávida? — Perguntou Linsmeyer. 

— Ontem, doutor — Miguel respondeu. 

Rodolfo assentiu. 

— Meus parabéns pela gravidez de sua esposa, mesmo depois de tanto tempo. 

Miguel sorriu. 

— Eu agradeço, doutor. 

— Ainda assim, preciso lhe fazer uma pergunta — Linsmeyer cruzou as mãos debaixo do queixo, encarando Miguel seriamente. — Você, por um acaso, não realizou pesquisas com os acessórios exclusivos, correto? Pois sabe que essa é uma conduta antiética para o Instituto e, de fato, você pode perder os direitos sobre a pesquisa, mesmo tendo sido uma criação sua. Sabe disso, não sabe? 

O sorriso de Miguel desapareceu e ele engoliu em seco. 

De fato, ter em mãos os acessórios exclusivos em vez dos que eram solicitados, era uma conduta indecorosa às normas do Instituto e ele sabia disso. Mas teimoso como era, tinha decidido jogar as regras para o inferno e continuar tentando criar a "fórmula mágica" para a situação de Natália, o que só daria certo levando produtos proibidos, embora bem mais edicazes, às escondidas para casa. 

Linsmeyer parecia ser um homem que confiava em seu potencial, diferente dos outros, mas era óbvio que Miguel não diria a verdade a ele, até porque não estavam sozinhos. Miguel só teria que ser mais cuidadoso da próxima vez e não deixar vestígios de mais uma infração. Sujeitos como Álvaro estavam sempre por perto e não seria bem-vinda uma possível demissão, principalmente porque teria mais uma boca para alimentar. 

— Não, Dr. Linsmeyer — Miguel respondeu. — A maior parte de minhas pesquisas eu fiz aqui no ambiente de trabalho e com todos os acessórios que me foram solicitados. Conheço as regras. Além disso, eu não tenho acesso às salas exclusivas. 

Houve um breve silêncio na sala até Rodolfo suspirar e assentir em concordância. 

— Muito bem. Precisarei do documento para ligar para o hospital e também da pesquisa — disse Rodolfo apontando para o conteúdo desenvolvido por Miguel. — Confirmarei isso com eles com base nos dados da paciente, sua esposa. Por ora, pode ir para casa descansar enquanto resolvemos essa questão. 

Miguel assentiu, guardando a foto dos testes em um dos bolsos maiores da mochila. 

— Sim, doutor — Ele concordou. — Vou estar no aguardo para amanhã. 

— Tudo bem. Até amanhã, Miguel. 

Miguel sorriu um tanto satisfeito, especialmente porque ele podia sentir que Rodolfo estava lhe dando um voto de confiança, além de parecer animado com sua pesquisa. Claro que ele não podia dizer o mesmo sobre Edgar e Álvaro. Ambos pareciam estar desconfiados sobre algo, mesmo que a expressão de desconfiança de Edgar não estivesse tão aparente quanto os olhos de Álvaro que exalavam um ódio reprimido. Aquele homem sentia raiva e pura inveja e seu maior objetivo era destruí-lo. Miguel teria que tomar cuidado com ele se quisesse sair como vencedor. 

— Até amanhã — Miguel ajeitou a mochila sobre o ombro e saiu da sala sem ter que encarar os outros dois. 

Após um silêncio, Álvaro olhou com descrença para a porta fechada e para os outros dois cientistas na sala. 

— Dr. Rodolfo, não vá me dizer que o senhor vai acreditar nessa história estapafúrdia. 

— E por que não? — Rodolfo questionou de imediato. — Ele mostrou a foto com os testes, a pesquisa, e deixou-me o documento com o telefone do hospital. Ligarei para lá para confirmar se, de fato, a esterilidade era real e se a esposa dele está grávida — disse ele com a mesma paciência de sempre. — Ademais, devemos nos lembrar que Miguel também é um ótimo cientista júnior e o vejo tendo um futuro muito promissor. Se Márcio e os outros conseguiram, ele consegue. 

— O seu mal é depositar confiança em quem logicamente não merece — disse Álvaro com evidente irritação. — Com todo o respeito, Dr. Rodolfo, mas o senhor parece ser muito ingênuo quando se trata de Miguel. Por que colocar a mão no fogo por ele? 

Linsmeyer encarou Álvaro por cima dos óculos enquanto Edgar permanecia sem dizer uma palavra sequer. 

— Não ponho minhas mãos no fogo por ninguém, nem mesmo por você, Álvaro — disse Rodolfo percebendo que o ex-discípulo parecia estar ofendido e incomodado. — Mas, como eu já disse antes, Miguel não foi chamado para trabalhar aqui à toa e confio em seu potencial. Agora só falta confirmar o que está neste documento. 

Álvaro tomou uma respiração profunda e tratou de manter a mente no lugar certo. Não queria que Rodolfo ou Edgar desconfiassem de uma possível inveja ou insatisfação de sua parte. Ele era um dos mais renomados cientistas do país e não deixaria se levar por qualquer derrota em relação à um mero junior. 

— E também confirmar mais outra coisa, espero — Álvaro disse mais calmo e com um leve sorriso no rosto. 

— Perdão? — Linsmeyer perguntou sem entender ao ajeitar a armação dos óculos sobre os olhos. 

Álvaro olhou para os dois na sala e manteve a postura de sempre. 

— O senhor perguntou se ele teria tido acesso aqui ou levado os acessórios exclusivos para casa, salientando que essa conduta é completamente antiética para o Instituto e que ele poderia perder sua pesquisa se o tivesse feito. Naquele mesmo momento, eu senti Miguel aparentar um certo nervosismo, o que me pareceu bem desconfiável — disse Álvaro mais confiante. 

Agir com sabedoria ao ver o inimigo se dar bem seria muito melhor do que agir impulsivamente pela raiva, o que não seria bom a se mostrar ao colega e ao superior. 

— O que quero dizer — ou melhor, sugerir — é que possamos investigar se ele, de fato, fez ou ainda faz pesquisas em casa com os produtos da empresa. 

— Está me sugerindo que invadamos seu local de trabalho? — questionou Linsmeyer. 

— Não seria invasão, se o senhor permitir — Álvaro respondeu. — Apenas acho que se o senhor pode confirmar se o que está neste documento é real, também poderíamos confirmar se Miguel está ou não agindo de má fé. 

Rodolfo suspirou profundamente com um leve cansaço e desabou sobre a cadeira branca. 

— Não seria uma boa ideia — disse pensando seriamente. — Me soa como algo desleal. 

— Seria algo desleal se ele estivesse mentindo para nós, não é? — Álvaro rebateu gentilmente. — E acredito que não foi só eu a reparar no nervosismo de Miguel ao responder a sua pergunta, doutor. 

Rodolfo olhou para Edgar que só parecia atento a conversa. 

— O que você acha, Edgar? — indagou. 

Edgar olhou atentamente para o colega e depois para o superior. 

— Acho que Álvaro tem razão — Concordou. — Se ele está preocupado com essa situação de Miguel é pelo bem do Instituto, assim como nós dois também pensamos do mesmo modo. Temos que adiantar mais juniores para o mercado que está cobrando muito, mas isso não quer dizer que possamos fingir que qualquer tipo de infração possa ser ocultada apenas pelo crescimento da empresa. Acredito que temos uma reputação a zelar acima de tudo e não vejo nenhum problema em investigar se Miguel está ou não desacatando as normas restritas do Instituto. 

Álvaro disfarçou seu sorriso de contentamento ao olhar de Edgar para Linsmeyer. 

— Basta o senhor nos permitir — Álvaro disse por fim. 

Rodolfo assentiu pensativo. Seu olhar fixou no frasco onde continha a pesquisa, ponderando sobre as palavras dos ex-discípulos. 

De fato, não custaria nada investigar se Miguel havia agido conforme as regras. 

— Tudo bem — Concordou finalmente. — Eu os autorizo a terem acesso a sala de trabalho de Miguel, mas para amanhã antes que dê o horário de entrada dos juniores. Para hoje, quero que confisquem todas as gravações recentes das salas exclusivas. 

♤ 

— Então, se tudo der certo, você será transferido? — Natália perguntou animada. 

Miguel a aconchegou em seu colo e pôs a mão por debaixo da blusa dela, acariciando a barriga ainda lisa. 

— Sim — Ele sorriu contente. — E, quem sabe, teremos um lugar melhor para morar. 

Natália olhou em volta. 

— Eu gosto da nossa casinha. 

— Mas eu, não — disse ele. — Aqui é muito pequeno, tem apenas um quarto e logo teremos um menininho à caminho para preencher mais espaço. Precisamos de uma casa nova e maior e eu vou fazer isso acontecer. Você confia no seu marido? 

Natália assentiu contente. 

— Claro que sim — ela respondeu. — Mas apenas quero fazer uma ressalva de que o nosso "menininho" pode ser uma menininha. Nunca se sabe. 

De um momento para o outro, o sorriso de Miguel esmoreceu e a mão que outrora estava fazendo carícias na barriga de Natália paralisou de modo repentino. O que havia acontecido para ele ficar daquele jeito? 

— Miguel? — Natália o chamou um tanto preocupada pela súbita reação estranha do marido. 

— Não, Natália — Ele falou num tom de voz mortalmente calmo. — Eu quero que essa criança seja um menino e é isso que você vai me dar.

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