terça-feira, 4 de outubro de 2022

AOP (parte 1) - capítulo 14




Miguel paralisou. Não podia ter ouvido aquilo.

— O quê? — Perguntou ele ainda sem acreditar.

— Eu disse que você está demitido. Não trabalhará mais para nós, nem será promovido para um novo cargo — Linsmeyer disse firmemente. — Pode tirar o jaleco e pegar a carta de demissão com Edgar.

Miguel olhou atonitamente de Linsmeyer para Edgar em pé do outro lado da sala com um documento em mãos. Aquilo não podia estar acontecendo.

— O quê? Mas... — Por um momento ele perdeu a fala. — Eu trabalho neste Instituto há dois anos e o senhor acabou de me parabenizar por minha pesquisa ter dado certo.

— Sim, sua pesquisa deu certo — disse Rodolfo. — Mas nenhuma das perguntas que fiz foi respondida corretamente.

Miguel continuava o encarando sem entender. Aquilo só podia ser um pesadelo ou uma piada de muito mau gosto.

— Perguntei se você sabia que um funcionário deve trabalhar em equipe. Também perguntei sobre fazer o trabalho com a supervisão de um instrutor, assim como também obedecer e respeitar todas as regras do Instituto — Rodolfo disse sem titubear, olhando para o jovem homem à sua frente. — Você nunca gostou de trabalhar em equipe, sempre fazendo os trabalhos sozinho e de modo egoísta. Nunca se importou em obedecer qualquer um dos instrutores, e até mesmo já entrou em conflito com um deles. E, bem, não preciso dizer que você também desrespeitou as regras, não é?

Miguel continuou em silêncio encarando Rodolfo.

Alguma coisa, no fundo, lhe dizia que aquilo tudo não passava de uma brincadeira.

— Autorizei Álvaro e Edgar para verificarem se estava tudo correto no seu departamento — Rodolfo continuou e Miguel olhou para onde os dois instrutores estavam. — A maioria dos tubos de ensaio e componentes químicos havia sumido. Ou seja, grande parte dos componentes "naturais" dentro de sua pesquisa não é derivada de componentes revisados e autorizados por qualquer instituto de ciências do país. Você poderia ter causado a morte de sua esposa por causa de sua irresponsabilidade.

— Eu jamais faria qualquer mal a minha esposa — Miguel disse irritado. — E, sim, inseri e criei componentes novos, pois estava em busca da solução perfeita para o caso. Mas, ainda assim, isso não tira o meu mérito e tenho certeza de que essa demissão é injusta.

Linsmeyer pegou o frasco com o componente líquido de sua mesa.

— Sim, não tira o seu mérito. Afinal, você conseguiu realizar a pesquisa que queria e ainda o desejo de ser pai. — Rodolfo olhou para Miguel. — E é por isso que ficaremos com ela.

— O quê? — Miguel alarmou-se.

— Você sabe que uma das normas do Instituto diz que todos aqueles que são demitidos por quebrarem as regras não têm qualquer reconhecimento pelas pesquisas realizadas. A sua pesquisa ficará aqui no Instituto.

— Não! Vocês não podem fazer isso comigo. Eu me dediquei anos por esta empresa! — Miguel disse furioso.

— Não adiantou muita coisa você se dedicar dois anos e, ao mesmo tempo, desobedecer as regras por causa do seu egoísmo — disse Linsmeyer sem se deixar intimidar pela raiva de Miguel. — Como eu disse, este componente ficará conosco. Agora pegue o documento de sua esposa e a carta de demissão com Edgar. Não se preocupe, Miguel. Apesar do que fez, não será demitido por justa causa e poderá trabalhar em outros lugares.

Miguel avançou à frente da mesa principal.

— Pelo amor de Deus, não faça isso comigo — Miguel suplicou debruçado sobre a mesa e olhando nos olhos de Rodolfo por trás da armação dos óculos. — Eu tenho uma esposa e agora vou ser pai.

Miguel não conseguia ocultar o desespero em sua voz. Aquilo tinha de ser um maldito pesadelo.

— Eu já disse, Miguel. Você não será demitido por justa causa — Linsmeyer repetiu sem deixar se abalar. — Lamento que isso esteja acontecendo, mas eu mesmo teria infringido as regras se fizesse diferente.

Miguel engoliu em seco e contraiu o maxilar. Velho filho da puta!

Como se nenhum daqueles malditos tivesse infringido qualquer norma do Instituto. Por exemplo, sua pesquisa havia sido roubada por Álvaro e Márcio, e nada fizeram sobre o caso, apenas alegaram "coincidência". Mas teria que sair dali antes que fizesse uma besteira.

— Tudo bem, então — Disse de modo mortalmente calmo e se recompôs, pegou o documento do hospital e olhou para o conteúdo no frasco — sua pesquisa que havia se esforçado tanto para concretizar.

Ele deu meia-volta na sala e andou na direção de Edgar e Álvaro. Pegou a carta de demissão com Edgar, sem nem mesmo olhar para ele; estava com vergonha e raiva de tudo. Mas, infelizmente, seus olhos pararam em Álvaro — uma das principais pessoas que despertaram um ódio mortal dentro de si. Álvaro esboçou um leve sorriso.

— Boa sorte, Miguel.

Miguel nada fez e nada falou. Mas seus olhos transmitiam uma fúria tão grande que, se pudesse, acabaria com a vida daquele desgraçado ali mesmo. Tudo o que podia fazer seria virar as costas e sair daquela sala. E foi isso o que ele fez.


Ele era pequeno e cheio de sonhos. Estava sozinho, sem ninguém, tendo que se sustentar sozinho. O pai e a mãe o abandonaram, o deixando à própria sorte. Teve que crescer sendo um garoto forte, corajoso e persistente. Aliás, persistência era o seu nome do meio; persistência e perfeccionismo.

Tantas coisas negativas haviam acontecido em sua vida que fizeram ele dizer sempre "sim" a si mesmo, nunca um "não". Correr atrás e persistir até mesmo nas coisas que pareciam ser impossíveis, isso era ser perfeccionista para ele.

O menino cresceu, tornou-se homem e continuou tendo que conviver com as misérias da vida. Coisas boas aconteciam, mas não eram o suficiente. Coisas lhe eram tomadas, outras lhe eram dadas. Pessoas iam e pessoas vinham. Isso era o natural das coisas, da vida — mas não para Miguel.

Sua dificuldade em aceitar um "não" e que coisas ruins pudessem acontecer, mexiam com suas emoções de tal forma que seu equilíbrio e desespero emocional falavam mais alto.

Havia feito muitas besteiras por conta disso, mas não se arrependa nem um pouco de ter feito cada uma delas. Ele era assim.

E agora lá estava ele, um menino fracassado e perdido que se tornara um homem... também fracassado e perdido.

Miguel estava prestes a colocar o pé para fora do Instituto, mas levantou a cabeça outrora cabisbaixa.

Sentiria falta daquele lugar, apesar de tudo. Apesar de ter sido perseguido, por ter sido deixado de lado, por terem feito sua vida um inferno.

Os olhos de Miguel pousaram no controle de energia fincado na parede.

Cada botão deveria ser ajustado por um técnico profissional. Qualquer erro de compatibilidade poderia levar o lugar em chamas.

Ele continuou a olhar atentamente para cada disjuntor.

Ele poderia sair dali rapidamente, ir para casa colocar a mente no lugar e esquecer qualquer loucura que pudesse passar por sua cabeça. Mas não jogaria sua chance fora. Faria cada um passar pelo mesmo inferno que ele.


— E a mamãe disse que vai dar um irmãozinho para a gente — Disse a pequena Paulina levitando no ar com seus braços sustentados por Natália e Ana que segurava a filha mais velha com a outra mão.

— É verdade? — Natália indagou e sorriu para a menina.

— Deixa eu fazer também? — perguntou Alessandra tomando a frente.

Paulina retirou-se e Alessandra também levitou no ar com seus bracinhos sustentados por Ana e Natália. A menina mais velha riu alegre.

— Tia, qual vai ser o nome dele? — Paulina perguntou a Natália.

Natália fora buscar Alessandra e Paulina na escola junto com Ana, e na volta para casa, Ana contou as meninas sobre a gravidez de Natália. Natália sorriu envergonhada.

— Bem, eu não sei se será menino ou menina — Natália respondeu. Mas algo dentro de si estava desejando muito que fosse um menino, como Miguel queria.

— Se for menino, coloque o nome dele de Astolfo — Opinou Alessandra brincando no ar.

— Eca. Astolfo é nome de velho! — falou a mais nova fazendo cara de nojo.

Ana e Natália riram.

— Mas, filha, todo "velho" já foi um bebê, sabia? — Disse Ana a filha mais nova.

— Eu sei, mas é estranho — disse a pequena.

Elas já haviam chegado em casa e Ana abriu o portão duplo de entrada. Ao entrarem, Natália quase deixou Alessandra cair com um impulso que teve no corpo.

— O que houve, Natália? — Ana perguntou preocupada.

— Eu senti um empurrão, algo assim.

As sobrancelhas de Ana se arquearam em surpresa.

— Mas o bebê já está chutando?

— Não, foi no peito — Natália respondeu massageando o lugar. — Como se algo ruim estivesse acontecendo.

— O que poderia estar acontecendo? — Ana perguntou amparando a prima. — Miguel está trabalhando, não deve ter nada acontecendo com ele.

— Acho que você tem razão — concordou Natália por fim.

Alessandra veio correndo da casa em direção ao jardim onde elas estavam.

— Mamãe, o telefone está tocando.

Ana andou à frente, acompanhada por Natália e as meninas, abriu a porta de casa e atendeu o telefone.

— Alô?

— Vão para o quarto guardar as mochilas e os uniformes e tomem banho para mais tarde comermos a sobremesa deliciosa que a mamãe fez — Natália disse as duas meninas. As duas responderam "está bem" e correram escada acima.

— Natália, é o Miguel. Ele quer falar com você — Disse Ana estendendo o telefone. — Ele está com uma voz tensa, estranha... — comentou em tom baixo.

Natália fez uma prece em pensamento para que nada tivesse acontecido a seu marido. Ela pegou o telefone, mal escondendo seu nervosismo.

— Alô.

— Natália, venha para casa agora — Ordenou a voz de Miguel do outro lado da linha.

— Mas o que houve...

— Não pergunte nada agora, apenas obedeça — a voz dele a interrompeu. — Apenas faça o que pedi e não diga nada a Ana ou para quem quer que seja. E, por favor, não demore.

A linha havia caído. Miguel havia desligado.

Natália encarou o telefone sem entender. O que poderia ter acontecido para que Miguel ficasse tão alterado daquela forma?

— O que houve, Natália? — Ana perguntou visivelmente preocupada após a prima colocar o gancho do telefone no lugar.

— Não houve nada, Ana. Miguel apenas chegou cedo do trabalho — mentiu. — Tenho que ir. — Natália pegou sua bolsa, pondo-a sobre o ombro.

— Tem certeza de que está tudo bem mesmo? — Ana insistiu.

Natália olhou para a prima e engoliu em seco.

Nem ela mesma sabia. E a dor em seu peito havia sido por causa de algo envolvendo Miguel. Por favor, que nada de mau tenha acontecido a ele, suplicou mentalmente em aflição. Ainda assim, fez questão de mostrar a Ana que estava tudo bem.

— Sim, está tudo sob controle. Diga as meninas que precisei sair, mas outro dia venho para ficar com vocês.

— Você não quer nem um pedacinho de torta para levar?

— Não, obrigada. Eu realmente tenho que ir — desculpou-se Natália.

— Tudo bem — As duas trocaram beijos de despedida. — Se cuida.


Natália havia acabado de chegar em casa quando notou Miguel andando apressado do porão para o quarto. Ele estava suando frio e seu cabelo estava todo desalinhado.

No quarto deles, Miguel estava colocando roupas e outras coisas importantes dos dois dentro de uma mala grande estendida sobre a cama. Ele mal notava o que estava colocando dentro da mala, a não ser por seus acessórios de trabalho, quão grande era seu nervosismo.

— Miguel, o que houve? — Natália perguntou num fio e voz, praticamente sem piscar diante daquela situação.

Miguel notou a presença dela e saiu do quarto atravessando a sala em sua direção.

Ele a agarrou fortemente, sem lhe dar qualquer chance de pensar e a beijou furiosamente. Natália olhou sem fôlego para ele.

— Miguel?

— Você confia em mim, não é? — Ele indagou ainda suado e alterado.

— Mas o que houve?

— Apenas responda — ele exigiu.

Natália olhou atônita para o marido. Jamais havia visto Miguel daquela maneira.

— Sim, eu confio — Ela respondeu ainda preocupada.

— Ótimo — Ele falou e a soltou bruscamente. — Fique com esta mesma roupa. Vou fechar a mala e já sairemos daqui.

— Sairemos? — Ela perguntou confusa. — O que está acontecendo, Miguel?

Miguel a encarou e Natália sentiu-se encolher. Os olhos dele exalavam fúria.

— Sem mais perguntas. Pelo menos, não agora.

Ela também iria perguntar para qual lugar eles iriam, mas decidiu se calar. Claramente Miguel não estava bem e algo grave devia ter acontecido.

Ela olhou em volta da casa.

Não sabia para onde iria, mas já sentia-se mal por estar longe de seu lar.

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