Ela olhou de soslaio para o marido a seu lado.
Miguel parecia estar pensativo, olhando para o vazio. Ele nada falava, nada fazia. Mas a fúria ainda permanecia em seus olhos verde-água.
Como ela havia desconfiado antes, os membros do Instituto estavam tramando algo contra Miguel. E, infelizmente, eles haviam conseguido.
Natália suspirou triste e frustrada pelo marido.
Se ao menos pudesse confortá-lo, deitar a cabeça dele em seu colo e dizer palavras de consolo... Mas algo lhe dizia que Miguel não queria aquilo. Não naquele momento.
O ônibus estacionou em algum lugar desconhecido, o que fez Miguel sair de seu transe. Ele olhou em volta e desceu do banco.
— Venha — Disse ele puxando a mão de Natália até a saída.
Natália o acompanhou e ainda de mão dada com ele, olhou em volta. Ela não conhecia nada daquele lugar, e mesmo estando com o marido a seu lado, podia sentir medo e uma sensação como se estivesse perdida. O local, diferente de onde morava, tinha muitos prédios, carros, muito barulho; uma perfeita metrópole. Já havia morado em lugares como aqueles, mas por pouco tempo, o que claramente não a fez se acostumar.
Pessoas iam e vinham, esbarravam umas nas outras, corriam, gritavam, buzinavam suas motos e seus carros. Para Natália, não era desesperador estar num lugar como aquele, mas ter que sair de repente de sua casa com Miguel completamente transtornado e sem ambos terem para onde ir.
Ela nada disse, pois não queria aborrecê-lo ainda mais, mas seus olhos explicavam por alguma resposta. Miguel pareceu notar seu desconforto e a olhou por um breve momento.
— Não se preocupe, vamos conseguir um lugar para ficar — Ele murmurou tranquilizando-a um pouco mais.
Miguel puxou sua mão para dentro de um enorme prédio que mais parecia um hotel cinco estrelas. Natália olhou em volta do lugar.
O saguão era imenso. O lado esquerdo era composto por sofás suspensos e poltronas de luxo em torno de uma elegante mesa de centro, e no lado direito havia o enorme balcão de recepção contando com seis funcionários atendentes.
Eles subiram os poucos degraus do saguão até chegarem na recepção.
— Boa tarde. Em que posso ajudá-los? — Perguntou a jovem recepcionista com um sorriso de boas-vindas emoldurado no rosto.
Miguel não respondeu ao cumprimento e sacou alguns documentos do bolso traseiro da calça, os atirando no balcão em frente à moça.
— Vou querer um apartamento para mim e minha esposa — Disse Miguel, a voz séria e impaciente. — Antes de vocês baterem o cartão, peço que liberem logo o apartamento para minha esposa ficar enquanto faço o contrato para mais dias.
Mais dias?, perguntou Natália silenciosamente.
Era óbvio que uma mala daquele tamanho comportando tantas coisas não seria para somente um dia longe de casa. Mas por que Miguel agia como se estivesse fugindo? O que, de fato, havia acontecido para ele agir daquela forma?
Várias perguntas ficavam em sua mente, mas ela nada podia fazer, a não ser se torturar tentando pensar nas respostas, pois não queria vê-lo pior do que já estava.
A jovem analisou os documentos e o cartão de crédito, passando os dados para o computador.
— Miguel Franco... — Ela escreveu mais alguns dados. — O apartamento 512 estará disponível para o senhor e sua esposa — Disse a moça sorrindo educadamente e entregou-lhe a chave. — O senhor pode subir para descansar um pouco e mais tarde fazer o check-in completo, que tal?
Miguel olhou para Natália. Ela parecia estar cansada e confusa. Sua atenção voltou para a jovem recepcionista e ele pegou seus documentos de volta.
— Tudo bem — Ele concordou. — Não demoro.
Eles saíram do saguão em direção a um dos elegantes elevadores. Entraram e permaneceram em silêncio.
O silêncio habitual de qualquer elevador não incomodava. Mas saber que aquele silêncio insuportável derivava do que secretamente havia acontecido a seu marido, era mais difícil de ter que lidar. E ele não contaria a ela, Natália sabia disso.
Por outro lado, suas mãos continuavam entrelaçadas, como um casal unido que eram. Aquilo demonstrava que, por mais irritado que ele estivesse com o mundo, ela sempre seria o seu conforto. Natália suspirou aliviada com o pensamento. Miguel pareceu notar e apertou gentilmente a pequena mão da esposa.
A porta do elevador se abriu e Miguel puxou a mão de Natália para o lado direito do corredor. Ambos andaram alguns metros e pararam em frente à porta com o número 512 logo acima. Miguel abriu a porta com a chave que a recepcionista havia lhe dado e deu espaço para que Natália passasse primeiro.
Natália teve que soltar a mão dele e se surpreendeu ao notar o quanto a mão do marido estava suada.
— Aqui parece ser um apartamento — Ela disse admirando o lugar.
— Mas é um apartamento — A voz dele permanecia séria, porém, menos hostil como fora com a recepcionista.
Natália pôs a pequena bolsa no sofá marrom-claro.
A sala não era muito grande, tinha apenas um sofá e logo à frente um rack de madeira da mesma cor. A cortina ao lado tampava o que parecia ser uma porta dupla para uma pequena varanda. A única sensação de total amplitude do cômodo principal dava por conta da cozinha americana que era quase do mesmo tamanho. Mesmo não sendo um local muito grande e espaçoso, a decoração era moderna e harmônica.
Natália olhou hesitante para o marido.
— Quer me perguntar algo? — Ele perguntou percebendo o desconforto dela.
— Sim — ela respondeu, mas logo fez questão de esclarecer devido ao olhar de desconfiança dele. — Mas é sobre este lugar, só isso.
Miguel fechou a porta com o pé sem nem ao menos olhar para trás.
— E o que é?
— Está casa é alugada? Pensei que fosse um quarto.
Natália podia jurar que tinha visto o esboço de um sorriso.
— Isto aqui é um flat. Um misto de hotel com prédio residencial — Ele explicou. — Pode se alugar um apartamento por um dia, semanas ou até meses.
— Você disse que irá fazer o check-in completo para mais dias — Natália continuou. — Vamos passar quantos dias aqui?
— Pensei que se tratasse somente de uma pergunta — disse Miguel olhando atentamente para ela.
Natália olhou timidamente para os próprios dedos finos e delicados.
— Não sei por quantos dias permaneceremos aqui — Ele respondeu. — Satisfeita?
Ela olhou para ele de modo cauteloso.
— Não tem como eu estar bem ou satisfeita vendo o homem que amo nesse estado — Ela murmurou.
Após um momento em silêncio e uma torturante troca intensa de olhares, Miguel suspirou cansado.
— Fique aqui. Terminarei de fazer o check-in e já volto — Disse e desapareceu porta afora.
Natália também suspirou profundamente, mas ao invés de se deixar cair no sofá, pegou a alça da mala e empurrou suas rodinhas pelo corredor.
Havia duas portas. Natália abriu a primeira e deparou-se com um banheiro pequeno e gracioso nas cores preto e branco. Continuou a empurrar a mala grande até a outra porta e a abriu, entrando no quarto de casal que, pelo visto, parecia ser o maior cômodo da casa.
Natália colocou a mala num canto e andou até as janelas cobertas pelas cortinas e constatou que também eram portas duplas que davam acesso a uma pequena varanda, assim como na sala.
Tudo naquele apartamento era mobiliado, o que iria ser mais prático. Mesmo assim, ela já estava começando a sentir saudade de sua casinha simples.
Ela abriu as cortinas e olhou para fora.
Os sons produzidos eram uma mistura da natureza com a civilização moderna, o canto dos pássaros contrastando com os sons vindos dos carros.
Nem mesmo Miguel sabia por quanto tempo eles permaneceriam lá. Mas tentaria se adaptar àquele lugar por ele.
♤
Natália tomou um susto quando Miguel bateu a porta atrás de si.
— O que foi? Achou que fosse um fantasma? — Ele perguntou.
Ela esboçou um tímido sorriso.
— Que bom que você chegou.
— Achou que eu iria embora sem você?
— Não, não. — Natália meneou a cabeça.
— Ah, sim. — Miguel sentou-se na ponta da cama, olhando para o vazio.
Natália já não aguentava mais vê-lo daquele jeito. Algo havia acontecido com seu marido, mas ele se negava a contar. Ela não era apenas sua esposa, mas também sua amiga. Ele teria que confiar nela.
Ela também sentou-se na beirada da cama ao lado dele.
Certamente Miguel ficaria ainda mais irritado se ela fizesse mais alguma pergunta, mas eles não podiam mais permanecer naquele silêncio insuportável.
— Miguel...
Ele a fitou.
— Por que não foi tomar banho? — Ele perguntou.
— Eu prefiro tomar com você — ela respondeu.
— Acho que não estou num bom humor para isso, Natália.
— E precisa estar de bom humor para tomar banho com a sua esposa? — Ela perguntou surpresa.
Miguel suspirou derrotado.
Ele não queria contar seus problemas a ninguém, nem mesmo perturbar a cabeça da esposa. Será que ela não percebia que aquela insistência o deixava ainda mais vulnerável?
— Não estou num bom dia, Natália.
— Eu sei, e também estou vivendo ele — Ela retrucou. — Se o seu intuito é não me envolver em seus problemas, lamento informar, mas já estou envolvida.
Miguel permaneceu em silêncio, a expressão contrariada.
— Sou sua esposa, Miguel, e também sua amiga — Natália continuou. — Nós contamos as coisas um para o outro, nós confiamos um no outro, lembra? Você pode confiar em mim.
Natália levantou a mão para acariciar o rosto do homem que amava, mas Miguel a surpreendeu, agarrando a mão dela no ar.
Ele a fitou, o olhar transmitindo seriedade e mais algo profundo que Natália não soube discernir.
— Eu estou com muita raiva, Natália, e completamente abalado pelo que me aconteceu — Disse ele, a voz rouca. — Eu posso te contar tudo mais tarde, mas agora só quero descontar a minha raiva em algo. Posso descontar em seu corpo.
— Você... quer me bater? — Ela perguntou aturdida.
Aquele não era o Miguel que conhecia. Ele jamais a havia agredido.
Miguel a encarou intensamente e naquele instante Natália pôde perceber que havia desejo no olhar intenso do marido.
— Acho que você sabe a que me refiro — Ele disse por fim e continuou a olhar intensamente para a esposa, que também retribuiu.
— Tudo bem — Ela murmurou achegando-se para trás, sustentando o olhar dele. — Venha.
Miguel ficou de pé, ainda olhando para ela, e retirou os sapatos dos dois.
Não haveria romance, preliminares, palavras de desejo ou carinho. Apenas sexo puro e carnal.
Ele engatinhou por cima do corpo dela e rasgou-lhe a calcinha. Natália ficou surpresa, mas não se importou. Deitou-se com os braços acima dos travesseiros e continuou a sustentar o olhar intenso do marido que se livrava rapidamente da calça e da cueca pela metade das pernas, já posicionando-se na entrada do desejo da esposa tão apaixonada.
Contudo, diferente dela, ele não estava nem um pouco apaixonado naquele momento. Tudo o que conseguia sentir era raiva e desejo. Raiva pelo que aconteceu, o levando até mesmo a cometer mais uma loucura; e também desejo incontrolável pela mulher que, mesmo o irritando, fazia seu amor e paixão por ela crescerem ainda mais.
Natália gemia cada vez mais alto enquanto ele arremetia cada estocada violenta para dentro do corpo dela, sentindo a maciez de seu interior com mais precisão. Mas ele também podia sentir temor em seu olhar, desde o momento em que ela o vira arrumar a mala na casa deles. Era estranho e novo esse sentimento dela, mas agora ela parecia perceber o monstro que havia dentro dele.
Miguel não quis parar, nem por um momento. Se ela entregou-se a ele de bom grado sabendo que ele descontaria a raiva reprimida em seu corpo, então teria de aguentar até que ele estivesse completamente saciado.
Natália soluçou o nome dele, quase chorando pela intensidade.
Ele estava completamente enlouquecido pela paixão, avançando com fúria contra seu corpo, o que refletia nas fortes batidas da cabeceira da cama contra a parede do quarto.
Ela estava quase implorando para que ele parasse, mas lembrou que havia se entregado, então teria que ir até o fim. Aquela estava sendo a melhor forma dele extravasar, colocar seus problemas para fora. Não que ela não estivesse sentindo prazer, mas a intensidade com que ele avançava sobre ela já estava fazendo cada um de seus músculos ficar dolorido. Que aquilo não passasse de apenas uma rodada, suplicou mentalmente.
— Miguel... — Ela o chamou, a voz fraca e soluçada.
Como se ouvisse o seu apelo, Miguel avançou mais uma vez com fúria contra ela, despejando todo o conteúdo de seu desejo dentro da esposa. Natália relaxou todo o seu corpo, soluçando de prazer, a voz fraca e a respiração pesada. Miguel retirou-se de dentro dela e rolou para o lado da cama, puxando a cueca e a calça para cima.
Quando as respirações de ambos se acalmaram, Natália ajeitou a saia para baixo, cobrindo sua intimidade, e também rolou para o lado, olhando atentamente para o marido.
Miguel suspirou.
— Você ainda quer me perguntar algo? — Ele indagou sentindo o olhar atento dela.
— Bem, você me prometeu — ela disse, a voz mais suave.
Ele olhou para ela e esboçou a metade de um sorriso.
— Não me lembro de ter prometido nada — Defendeu-se.
Natália também sorriu. Era bom ver que seu marido já estava se sentindo melhor.
— Sim, mas você me disse — Ela insistiu. — Diga para mim, meu amor. Não me esconda seus problemas.
Miguel continuou a fitar a esposa. Ela não desistiria tão facilmente. Ele suspirou profundamente.
— Eu fui demitido — Disse por fim.
As sobrancelhas de Natália se arquearam em surpresa e espanto.
— O que?
— Me tiraram da empresa, violaram minhas coisas e roubaram minha pesquisa — Não só uma, ele pensou silenciosamente.
Natália notou as narinas de Miguel dilatarem pela raiva que ainda sentia.
— Eu sabia que eles tentariam fazer alguma coisa. — Ela achegou-se mais perto do marido. — Oh, Miguel... Eu sinto muito.
— Não sinta. Nós vamos conseguir dar a volta por cima, você vai ver. — Miguel olhou de Natália para o vazio no teto. — Eu me recuso a ser mais um perdedor.
— E você não será — ela disse confiante. — Deixe eles para lá. Eles te mandaram embora por puro capricho, mas ainda terão vários outros institutos que darão o valor que você merece.
Miguel sorriu incrédulo e olhou para a esposa.
— Eu duvido que outro instinto me aceite depois do que aconteceu.
Natália o encarou confusa. Parecia que havia mais naquela história.
— Por quê? — Ela perguntou.
— Nada — respondeu vagamente e levantou-se da cama, a calça desabotoada, e ergueu a mão para a esposa. — Venha. Vamos tomar banho.
Natália também levantou-se e sentiu uma pontada em seu interior.
— Ai — Gemeu de dor.
— Está dolorida?
Ela fez que sim.
— Bem, não seja por isso — Disse Miguel com o humor um pouco melhor e carregou a esposa amada nos braços saindo com ela do quarto.
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