Miguel estava quieto demais, mal falava algo, Natália pensou enquanto acariciava o cabelo molhado do marido. Eles haviam tomado banho juntos e estavam na cama, Natália encostada na cabeceira e Miguel com a cabeça em seu colo.
— Está se sentindo melhor? — Natália perguntou ainda acariciando o cabelo de Miguel.
Miguel suspirou olhando para o vazio.
— Existem dois lados degladiando dentro de mim: o que diz que eu vou conseguir sair dessa e o que se desespera com toda essa situação — Ele disse, a voz melancólica.
— Eu não gosto de te ver triste — Natália falou. — Mas é muito melhor ver você assim do que estressado daquela maneira.
A cabeça de Miguel voltou-se para ela.
— Eu te assustei? — Perguntou.
— Bem, sendo sincera... sim. — Ela deu de ombros.
Miguel olhou atentamente para a esposa.
— Esse não foi meu intuito. Juro que não foi.
Natália deu-lhe um sorriso de conforto.
— Eu sei, meu amor. Você só estava estressado pelo que aconteceu.
Miguel levantou-se um pouco, sustentando o corpo nos braços, ainda olhando para a esposa.
— Falo sério, Natália — Ele insistiu, a voz rouca. — A última coisa que quero é te assustar. E pode até parecer loucura isso que te peço, mas... — Suspirou frustrado. — Se algum dia eu enlouquecer de vez, por favor, me pare.
As mãos de Natália pararam o que estavam fazendo.
— O que quer dizer? — Ela perguntou sem entender.
Miguel meneou a cabeça.
— Eu não sei — respondeu e voltou a deitar a cabeça no colo da esposa, olhando para o vazio no teto. — Sinto que estou ficando louco.
Uma voz dentro de Natália perguntava-se por que ele havia dito aquilo, mas decidiu ignorar. Miguel havia sido perseguido e desrespeitado no trabalho. Era normal ele falar e agir com irritação.
Ela voltou a acariciar os fios dourados.
— Você não está ficando louco, meu amor. Só estressado.
— Não, eu sei que estou — Miguel insistiu. — Coisas horríveis me passam pela cabeça e acabo me descontrolando. — Suspirou profundamente. — Tento fazer as coisas certas, mas tudo acaba dando errado, ou pelo menos, grande parte das coisas. E agora eu perdi minha pesquisa, meu emprego e você está grávida. — Ele olhou para Natália. — O que eu faço?
— Apenas tente descansar um pouco e deixe para pensarmos nisso amanhã — Natália respondeu de modo amável. — Hoje foi o dia em que aconteceu tudo, então, mesmo que você tente pensar de forma clara, não vai conseguir.
Miguel acariciou o rosto suave da esposa.
— Tem razão — concordou ele mais calmo. — Obrigado por fazer parte da minha vida.
Natália sorriu e beijou a mão do homem que amava.
— Não tem de quê.
♤
Meses se passaram. Como não havia sido demitido por justa causa, Miguel passou incessantemente a correr atrás de trabalho, mas nenhum realmente fixo, pois não havia finalizado contrato com o Instituto. Antes mesmo do seu tempo de serviço ser finalizado por alguma empresa, ele procurava buscar outro, nunca perdia tempo, pois não podia. Tinha despesas do flat para pagar, uma esposa para cuidar e um filho à caminho.
Por mais que as coisas estivessem se resolvendo e Miguel estar começando a ter mais experiência em outras áreas, ainda sentia-se infeliz e com muita raiva — não só pelo que havia acontecido, mas por se ver numa situação humilhante, quando, naquela altura, já poderia ter se tornado um cientista.
Mas eles também haviam pagado caro. Miguel tinha sido roubado e despejado injustamente, então fez questão de dar o troco sem pensar duas vezes. E por consequência, havia fugido de casa com Natália, sem ter para onde ir, sem nenhum propósito pessoal ou financeiro, apenas o desespero de talvez ser pego pela polícia pelo que fizera. E ele não se arrependia, nem um pouco.
Nos seis meses que se passaram, Miguel já havia adquirido experiência em alguns setores onde trabalhou, teve novas amizades com colegas de trabalho. Mas ainda que se passasse tanto tempo e as coisas parecessem se acalmar, a vida sempre fazia questão de lembrar-lhe dos acontecimentos, como se ele visse rostos conhecidos do Instituto em todos os lados.
Contudo, seu coração lhe dava momentos de paz e tranquilidade quando ele chegava cansado do trabalho e via Natália com a barriga enorme, experimentando novos vestidos e colecionando roupinhas e acessórios para o filho deles que logo nasceria. As coisas ainda não estavam indo bem como ele queria, mas presenciar momentos como aquele só faziam seu amor por ela aumentar. Seu filho nem havia nascido, mas já sentia que o amava também.
Miguel suspirou cansado e abriu a porta do apartamento em que estava hospedado. Passou pela sala e andou pelo corredor em direção ao quarto do casal. Ficou surpreso ao ver Natália sentada na cama, cabisbaixa.
— Natália?
Natália notou a presença dele e esboçou um sorriso amarelo.
— Olá, meu amor. Como foi o trabalho? — Ela o cumprimentou.
— Bem — ele respondeu empurrando a porta com o ombro, ainda olhando para ela, e despejou a mochila numa poltrona que estava por perto. — Fique onde está.
Natália o observou se sentar ao seu lado.
— O que houve? — Ele perguntou. — Por que está com esta cara? — Miguel apertou carinhosamente a bochecha de Natália e ela sorriu, embora parecesse infeliz.
— Não é nada — ela respondeu, a voz suave.
Miguel a observou atentamente.
— Vamos, diga — Insistiu paciente. — Você mesma fez questão de me lembrar para confiarmos um no outro.
Natália olhou para o marido e viu que não teria outra saída.
— Estou com saudade de casa — Ela disse por fim.
Miguel a encarou com seriedade.
— Por que? Não está gostando daqui?
— Sim. Aqui é bonito, é prático... — Ela suspirou profundamente. — Mas eu realmente sinto falta da nossa casinha. Das nossas coisas, da minha família.
Miguel ficou sério. Sério até demais.
— Eu achava que eu era a sua família. Eu e o nosso filho — Miguel não conseguiu controlar o tom rude na fala.
— Mas também tenho as minhas primas, Miguel.
— Lá vem você de novo com essas falácias. E por acaso, é alguma de suas primas quem te ajuda? Ou está sempre te apoiando, cuidando de você?
Natália encolheu-se com o olhar dele.
— Apenas me deixe te fazer uma pergunta: — Miguel continuou, a voz rouca pela raiva. — você e Lola mantiveram contato depois daquele episódio lamentável?
— Miguel, esqueça isso...
— Responda — ele exigiu. — Vocês voltaram a se falar? E é melhor que não minta para mim.
Natália olhou assustada para o marido. O que havia acontecido para Miguel agir daquela forma? Era como se o seu humor mudasse em um milésimo de segundo.
— Vamos, quero uma resposta — Ele insistiu, o olhar firme.
— Sim — Natália respondeu num fio de voz. — Mas em nenhum momento você me proibiu de falar com ela.
Miguel retirou os olhos de Natália e assentiu, sorrindo. Mas era um sorriso de raiva.
Não havia proibido Natália, mas Lola, sim. A maldita viúva o havia contrariado e feito justamente o que ele a proibira de fazer. Pelo visto, ela não havia aprendido a lição do jeito correto. Bem, só restava o jeito errado, então.
Ele voltou a atenção para a esposa.
— E o que foi que ela disse? — Perguntou de modo ríspido.
— Ela disse para eu esquecer tudo o que me disse naquele dia. Que estava passando por mais momentos, assim como você tinha dito antes — Natália respondeu cautelosa.
Miguel assentiu pensativo.
— Bom — Foi tudo o que ele pôde dizer.
Sendo assim, Lola podia se safar de sua desobediência. Não havia falado nada demais, como da outra vez.
— Você ficou com raiva só porque eu disse que estou com saudade da nossa casa? — Natália perguntou.
— Não — Miguel respondeu ainda contrariado. — Estou com raiva porque você sempre mete suas primas em tudo e esquece o que aconteceu com você.
— Mas elas não têm culpa, Miguel. A inconsequência foi do meu pai — Natália disse tentando fazê-lo entender.
— Mas não foi só o seu pai quem virou as costas para você, mas toda a sua "família" — Miguel insistiu impaciente. — Se é que podemos chamar essas pragas de família.
— Miguel!
— Miguel o quê? — ele falou ainda mais ríspido do que podia, cercando o corpo dela na cabeceira da cama ao chegar mais para frente. — Eu te ajudei e te protegi desde o primeiro dia em que te vi, quando você não passava de uma estranha. Te acolhi, te dei um lar, me apaixonei por você e fiz de você uma nova mulher, para agora, as putas das suas primas sorrirem para você e te convidarem para as casas delas só agora que estão vendo que você está melhor e é uma mulher casada e cheia de mimos do marido, e não aquela catadora de lixo sem futuro que conheci na estrada!
Os olhos de Natália encheram-se de lágrimas e ela olhou perplexa e temerosa para o marido.
— Eu te amo, Natália, e ver você dando todo esse valor as suas primas, sendo que elas nunca deram valor a você, me dói — Miguel disse um pouco mais controlado. — Não estou dizendo que elas tenham algum interesse em você, pois você nada tem a oferecer àquelas duas, mas elas são falsas, hipócritas. Desde o início souberam de sua situação e nada fizeram para ajudar, mas agora ficam sorrindo para você como se tudo sempre estivesse bem. Elas são como a maioria das pessoas. — Miguel engoliu em seco. Tinha de controlar seu temperamento explosivo, pois só a estava assustando. — Eu não posso mandar em sua vida, mas realmente não quero ser deixado de lado por causa delas ou de quem quer que seja.
Um dos olhos marejados de Natália deixou uma lágrima cair, mas ela sorriu em resposta às últimas palavras de Miguel.
Não que tudo estivesse completamente bem, mas ele não estava diferente. Era apenas ciúme o que estava sentindo. Miguel continuava sendo o mesmo homem, seu marido, a pessoa que mais amava no mundo. E ele também sentia o mesmo que ela, com todas as suas forças. Sua atitude a fez se assustar, mas suas palavras apenas indicavam ciúme e superproteção.
Como num passe de mágica, seu olhar outrora assustado transformou-se em amável, compreensível e amoroso.
Não que concordasse sobre o que Miguel havia dito de suas primas, mas entendia o sentimento de proteção dele. Ela era dependente dele, estava grávida e Miguel tinha passado por um momento muito ruim em sua vida, o que fazia sentido ele ter sentimentos de raiva. Mas ela disse a si mesma que tudo ficaria bem. Ela sempre repetia isso a ele para confortá-lo, mas sentia que ele não acreditava realmente. Natália deveria acreditar, pelos dois.
Ela acariciou-lhe a face.
— Ei — Natália murmurou. — Eu nunca te deixarei de lado, nem mesmo por causa do bebê.
Miguel ergueu a mão e secou uma lágrima que havia caído no rosto dela.
— Portanto, não diga essas coisas, Miguel — Natália continuou. — Eu te amo.
Miguel sorriu finalmente, a expressão mais branda.
— Eu também te amo — Disse. — E me desculpe pelo que eu disse. Acabei me estressando.
— Tudo bem... Eu entendo — Natália respondeu compreensiva. — Apenas tente se acalmar um pouco e não desconte a sua raiva nelas. Ana e Lola nada têm a ver com o que está acontecendo. Sei que é difícil, mas já passamos por coisas piores e sei que vamos superar.
Miguel fitou atentamente a esposa.
Natália era pura demais, inocente demais. Estava alheia as falsidades das primas e sempre via solução em tudo. Talvez não fosse ele o perfeccionista, mas ela.
Ele tinha de se acalmar e evitar dizer aquelas coisas para ela. Natália estava grávida e ainda mais fragilizada, e agora, mais do que antes, precisava de seu apoio.
Miguel olhou mais para baixo, para a barriga grande e redonda que abrigava seu filho. Ele sorriu e acariciou o monte coberto pelo vestido azul-turquesa.
Saber que conseguira engravidá-la dava-lhe um misto de emoções: surpresa, felicidade por finalmente ter conseguido conceber uma criança com a mulher de sua vida, raiva por terem tomado posse da pesquisa que tinha elaborado e dado tudo de si para que tudo desse certo; mas seu principal sentimento era orgulho. Cada vez que via a esposa acariciando a barriga, cantarolando para o bebê, tinha certeza de que o destino havia sido bondoso ao colocá-la em seu caminho.
Natália suspirou, sentindo-se amada.
Toda a raiva que Miguel tinha sentido antes havia sido sanada e agora lá estava ele, praticamente pondo-se em adoração pela barriga voluptuosa. Não havia nenhuma dúvida de que ele seria um ótimo pai. Mesmo quando chegava tarde trabalho, ele fazia as suas vontades, cuidava dela e ainda havia comprado pequenos livros de histórias infantis para contar ao bebê antes que fossem dormir. O coração de Natália enchia-se de amor e orgulho por ter um marido tão amável e dedicado a seu lado. Ele podia ser um homem cheio de defeitos, mas com toda a certeza era a pessoa mais maravilhosa que ela havia conhecido.
Miguel olhou para Natália, os olhos amáveis.
— Quer mesmo voltar para casa? — Ele indagou.
Natália assentiu hesitante.
— É a nossa casa. — Deu de ombros. — Não podemos ficar aqui por muito tempo.
Miguel assentiu, pensativo.
— Venha cá. — Ele subiu na cama, com sapato e tudo, puxou Natália para seu colo e segurou a mão feminina, depositando um beijo em seguida. Natália sorriu e aconchegou-se mais a ele. — Me desculpe por ter gritado com você — Ele disse olhando nos olhos dela. — Não gosto de fazer isso.
— Nem eu gosto — Natália concordou. — Gosto quando você me trata com carinho, como agora.
— É verdade que você não me deixará de lado, nem pelo bebê?
Natália sorriu. O filho deles nem havia nascido e Miguel já estava com ciúmes.
— Sim, é verdade — Ela respondeu. — Meu amor por vocês dois será igual.
— Dois? — Perguntou ele achando graça. — Eu quero mais.
— Sim, também quero, mas um de cada vez.
— Verdade — ele concordou ainda acariciando a mão dela.
Natália ficou brincando com os botões da camisa dele.
— Miguel.
— Hum?
— Quer mesmo que o nosso bebê seja um menino?
Miguel a fitou.
— Sim, quero — Respondeu sem titubear.
— Então, você não é do tipo que diz "se ter saúde, tudo bem"?
Miguel suspirou.
— Meu amor, eu sempre quis ter um filho homem. Na verdade, ainda terei muitos filhos com você, inclusive meninas lindas com o seu sorriso. — O casal apaixonado sorriu um para o outro. Miguel acariciou a face da amada. — Eu quero um menino parecido com você e comigo.
Natália suspirou plena.
— Tudo bem. Eu também quero que seja um menino. Um com os seus olhos. — Ela sorriu encantada e acariciou os fios dourados do marido. — Te amo, Miguel.
— Eu também te amo — ele disse apaixonado e acariciou a barriga protuberante. — Amo vocês dois.
Mesmo que a vida não estivesse fácil, Natália estivesse com saudade de casa e Miguel ainda estivesse transtornado, os desentendimentos entre ambos, ou qualquer problema que tivesse passado ou que viesse depois, já não era tão importante quando ambos se uniam num beijo apaixonado.
♤
Após o pedido de Natália, Miguel decidiu voltar para casa um dia depois. Ele já não estava tão preocupado quanto antes e Natália sentiu-se contente por estar de volta ao seu lar. Miguel não entendia por que Natália era tão apegada àquele lugar, pois era uma casa pequena, mal estruturada e situada num local que ele não gostava nem um pouco. Também podia ser porque ficava perto das casas das primas dela, ele pensou contrariado. Não importava quanto tempo passasse, ou quanto Natália discordasse, Miguel nunca iria gostar dos parentes dela. Natália podia esquecer o descaso deles para com ela, mas ele, não.
Pouco tempo antes deles irem embora do flat, Natália havia saído para caminhar e Miguel faltou trabalho para arrumar as coisas dos dois, o que certamente não coube tudo na mala e ele teve que sair para comprar mais duas. A maioria das coisas que havia sobrado era do bebê, que ambos compraram separados ou juntos. Natália estava plena e satisfeita com toda a etapa da gravidez, apesar de alguns problemas comuns, mas ele pôde perceber a felicidade refletida nos olhos brilhantes dela quando ele havia chegado da rua e dissera que naquele mesmo dia eles iriam voltar para casa. Miguel teve de ser cauteloso e protetor em relação à esposa em todo o momento em que eles chegaram em casa, pois Natália insistia em limpar e decorar cada canto mesmo estando grávida e fraca.
Dois dias haviam se passado desde que eles chegaram. Natália fazia alguns de seus afazeres, sem se esforçar muito, pois Miguel ficava na marcação com seu jeito superprotetor. Miguel continuava sentindo-se perdido, sem ter o que sempre quis. Olhando para os tubos de ensaio e outros conteúdos que havia levado consigo na mala de viagem, mas sequer procurou fazer algo, Miguel perguntou-se se ainda devia tentar fazer algo. Estava demitido e com certeza eles o procurariam para acertar as contas, mas ainda não era o fim. Teve outros empregos em outra cidade, não parou de trabalhar nem sequer por um momento. Mas ser um cientista — um cientista renomado e respeitado — era um de seus maiores projetos de vida, e não seria algo de que abriria mão.
A campainha tocou e ele suspirou irritado.
Não queria ter que atender ninguém agora, mas Natália não podia ficar se movendo de um lado para o outro toda hora. Ele retirou-se do porão e atravessou a sala.
— Deixe que eu atendo — Disse à esposa que estava fazendo o almoço.
Que a ilustre visita fosse embora o mais rápido possível, pois ele tinha um plano em mente e iria colocá-lo em prática, Miguel pensou amuado ao abrir a porta.
Ele havia sido demitido, vingou-se do Instituto, fugiu para outra cidade com Natália, ela começou a manifestar saudade de casa, ambos voltaram ao lar... E agora lá estava Álvaro e Edgar quando Miguel abriu a porta.
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