terça-feira, 7 de março de 2023

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 13




Luana acordou. Um dia sem trabalho, valeria a pena. Uma noite só de música e diversão a esperava e ela iria dançar a noite inteira. Nada de vampiros ou amigos ciumentos, pelo menos por um dia. Ah!, ela se lembrou: David também iria.

Ela se levantou da cama e se espreguiçou ainda sonolenta. Para despertar de vez, deveria começar o dia do melhor jeito. Ela ligou o rádio acima da pequena mesa ao lado da cama e clicou um pouco rápido no botão para achar a estação certa. Faltava pouco para dar nove horas da manhã e logo dona Leonora estaria de pé, então talvez ela não fosse se incomodar com o barulho.

A música de Bon Jovi peeencheu o ambiente com sua batida forte, mas Luana fez questão de aumentar o volume. Ela amava essa banda. Decidiu levantar e fazer logo o que tinha de fazer enquanto tocava “You Give Love A Bad Name”.

Dançando no ritmo, Luana abriu o guarda-roupa e escolheu em meio àquela bagunça uma blusa folgada e uma bermuda. Ela tirou a camisola e vestiu a roupa, ainda com o seu corpo se movendo no embalo da música, embora os seus olhos persistissem em se manter fechados. A música tinha um toque de culpa. Mas culpa pelo quê? Por não ter ficado mais tempo com Drácula na noite anterior? Não. A música falava de um homem culpando uma mulher por tê-lo seduzido e ele estar preso nessa armadilha, que era o seu amor por ela. Mas parecia David cantando para ela.

Luana balançou a cabeça, tentando não pensar mais em coisas do tipo. Seria um absurdo, era apenas uma música, ponto. Não tinha por que ficar pensando besteiras. Ela pegou o conjunto de dormir e o jogou no guarda-roupa junto com o restante das roupas amontoadas. Ouviu alguém bater à porta de seu quarto. Dona Leonora havia acordado.

Luana abriu a porta e deu espaço para a madrinha passar, esboçando um belo sorriso de cumprimento.

— Bom dia, madrinha — Luana a cumprimentou com um beijo na têmpora.

— Bom dia — Leonora a cumprimentou de volta e apertou o botão de desligar do rádio. — Decidiu acordar a vizinhança toda com esse barulho?

Luana a fitou com surpresa.

— Não parecia estar tão alto assim.

— Mas estava — Leonora respondeu paciente. — Você acordou ainda agora ou mais cedo?

Luana abriu a gaveta da mesinha ao lado da cama e tirou sua escova de dente protegida por uma capinha transparente.

— Quase agora — Luana respondeu e saiu em direção ao banheiro, notando que Leonora estava olhando para o quarto com bastante reprovação.

Após um breve momento, Leonora a seguiu e se recostou no sofá.

— Eu não acordei agora, acordei mais cedo. Me ajeitei, fiz minhas orações e de repente senti a casa tremer com um rock pesado.

Luana riu enquanto enxaguava a boca.

— Acredite, madrinha, há músicas de rock mais pesadas que essa.

— Então prefiro nem conhecer — Leonora disse também achando graça.

— Eu só coloquei a música porque gosto da banda — Luana disse ao passar pela sala e guardou a escova de dentes no mesmo lugar. — É uma de minhas favoritas. Café da manhã?

— Sim, estou morrendo de fome. Mas antes, deixe-me ver o seu rosto.

Luana já sabia o que ela queria. Leonora era muito detalhista, enquanto Luana era esquecida e desordenada.

Ela se abaixou em frente a madrinha e Leonora levou os dedos ao olhos dela com suas unhas pequenas.

— Não importa qual idade você tenha, eu sempre tenho que tirar as remelas restantes dos seus olhos.

Luana sorriu.

— Acho que não deu pra eu perceber muito bem quando lavei meu rosto e olhei para o espelho — Luana disse. — Ainda estou com um pouco de sono.

— Isso que dá dormir tarde. — Leonora havia terminado a sua tarefa. — Vou querer os meus pães quentes.

— É pra já. — Luana se levantou.

Na cozinha americana, ela abriu a geladeira e pegou uma jarra com suco de manga, despejando o líquido em dois copos grandes e transparentes.  Nem ela e nem Dolores gostavam de café ou chá, então sempre bebiam suco. Luana só abria exceções quando estava de visita na casa de outras pessoas, como foi no caso da primeira vez em que conheceu Drácula e seu irmão Ivan. Ela pegou o saco de pães de dentro do forno e passou a manteiga em quatro deles, logo em seguida os colocou na sanduicheira. Leonora, como sempre, já havia ligado a televisão. Era praticamente o refúgio dela.

Enquanto os pães estavam esquentando, a mente de Luana vagueou em algumas coisas e uma delas era David. Por que ele não queria ser ao menos seu amigo como era antes? O que havia de errado em serem somente bons amigos? A verdade é que nem ela mesmo soube responder. Encará-lo hoje à noite na boate não seria fácil.

Um apito agudo a despertou e Luana notou que os pães já estavam prontos. Ela pegou uma espátula e os tirou, colocando-os em dois pratos.

Luana pegou um dos pratos e um dos copos e os levou para onde a madrinha estava.

— Coma tudo — Luana avisou em tom de ordem. Embora não gostasse de desperdício de comida, Leonora nunca tinha muito apetite.

— Sim, senhora — Leonora respondeu com ironia e iniciou o seu café da manhã.

Luana a fitou com uma leve preocupação.

Sua madrinha não conseguia ficar muito tempo em pé devido as suas pernas já estarem fracas e logo se sentava no sofá. A única ocupação que ela tinha era a de ver TV. Ainda assim, Leonora não se deixava ser vista como uma pobre coitada e por isso não andava de muleta. Apesar de suas complicações, ela era uma mulher persistente. Luana tinha muito orgulho dela.

Leonora fitou a afilhada.

— Você não vai tomar café?

Luana pareceu despertar de seus pensamentos e correu até o balcão da cozinha para pegar o seu café da manhã. Ela retornou à sala e preferiu se sentar no tapete.

Leonora de um gole no suco.

— Eu não sei por que você tem essa mania de sentar no tapete tendo um sofá aqui. E se senta sempre no mesmo lugar.— Num gesto de brincadeira, Leonora encostou a perna nas costas de Luana. A afilhada sorriu em resposta.

Desde que era criança, Luana gostava de sentar naquele canto do sofá, próxima as pernas da madrinha. Ela sabia que Leonora também gostava, mas não admitia.

Alguns bipes foram ouvidos e Luana olhou para o pequeno relógio digital no canto do rack, lembrando-se de que estava na hora do remédio. Ela apertou um botão para desligar, apoiou o prato e o suco no alto do móvel e correu em direção ao banheiro, mal conseguindo ouvir as indagações da madrinha. Ela abriu o pequeno armário espelhado acima da pia, pegou o remédio e retornou a sala.

— O que houve, menina? — Leonora perguntou preocupada com a saída repentina e apressada de Luana.

Luana esboçou um sorriso tranquilizador e mostrou um frasco branco.

— O seu remédio, madrinha. Antes da primeira refeição, se lembra? — Luana explicou e se sentou no braço do sofá.

— Ah, sim. Eu havia me esquecido. — Leonora pegou uma cápsula que Luana ofereceu após abrir a tampa.

— A senhora quer que eu pegue um copo d'água ou vai tomar junto com o suco?

— Com o suco mesmo. — Leonora colocou rapidamente o remédio entre a língua, pegou o seu copo de suco que Luana ofereceu e tomou de vez o remédio em poucos goles. — Obrigada, filha.

— Não precisa agradecer. — Luana colocou o frasco acima do móvel. — Agora a senhora pode tomar o seu café da manhã. Farei o mesmo, pois estou morrendo de fome.

— Você vai mesmo sentar no chão?

Luana fitou a madrinha por um breve momento. Embora fosse acostumada com a mania esquisita da afilhada, Leonora era uma pessoa que gostava da normalidade das coisas.

Luana sorriu se dando por vencida.

— Tudo bem, farei o que a senhora quer desta vez.

Leonora se afastou um pouco à esquerda para que Luana se sentasse ao seu lado e pudesse apoiar o prato no braço do sofá.

— Você só vai comer isto? — Leonora indagou fitando para o lanche ainda intocado da afilhada.

Luana olhou para ela sem entender.

— Coloquei o mesmo para nós duas.

— Mas para você é pouco. Você não jantou ontem, lembra?

— Eu não estava com fome. — Luana abocanhou um pedaço. — Acho que não vou nem conseguir comer o segundo...

Dolores a fitou com repreensão.

— Menina... você não pode deixar de se alimentar.

— Não deixo de me alimentar, dinda. — Luana deu um gole no suco. — Eu como no trabalho.

Leonora assentiu e também mordeu um pedaço de seu pão.

— Você está há pouco tempo nesse trabalho e ainda não me contou algumas coisas sobre. Eles dão almoço lá?

Luana sorriu achando graça.

— Não, dinda. Eu trabalho numa editora, então não tem um refeitório. Geralmente, eu compro um almoço ou um lanche — Luana disse dando de ombros.

— Você sabe que lanche não sustenta ninguém, não é?

— Eu sei, mas são só poucas vezes — Luana respondeu. — Mas também não é como se eu fosse ser a pessoa mais saudável do mundo almoçando às quatro horas.

— Quatro horas? — Leonora indagou com surpresa e evidente preocupação.

— Eu inicio o meu trabalho na parte da tarde, madrinha.

— Eu sei, mas ainda assim não é algo adequado.

— Sim, mas por enquanto é o único emprego que eu tenho e ainda não existe possibilidade para o turno da manhã. E mesmo que tivesse, duvido que o chefe me colocaria.

Luana terminou o primeiro pão e avançou sobre o segundo. Diferentemente do que havia pensado antes, ela estava com muita fome.

Leonora continuou a tomar seu café e assistir a programação que estava passando. Depois suspirou pensando em algo e olhou para a afilhada.

— Então, a partir de segunda-feira, você vai levar marmita.

Luana olhou para ela.

— Por quê?

— Por que o espanto, posso saber?

— Madrinha, a senhora se cansa demais.

— Não exagere, Luana. Eu me canso algumas vezes, sim, por conta da minha saúde e dessa bendita perna, mas eu fico aqui sozinha quase o dia todo, você esqueceu? — Leonora esboçou um pequeno sorriso para a afilhada. — Sou eu que quase sempre faço a comida e posso fazer uma marmita para você levar para o trabalho. Simples assim.

Luana sabia que não adiantaria insistir, então seria melhor aceitar.

— Tudo bem, então. Embora seja muito estranho comer no escritório.

Após as duas terminarem de tomar café, Luana pegou os dois copos e os dois pratos, levando-os para a cozinha.

— Você poderia comer aqui, não acha?

Luana colocou a louça na pia.

— Eu não gastaria mais tempo e dinheiro de passagem voltando aqui para casa para almoçar, madrinha — Luana disse achando aquela ideia absurda.

— Na verdade, eu me referi a você almoçar aqui primeiro para depois ir — Leonora acrescentou.

— Sem chances. Tomaria muito do meu tempo e o ônibus demora um ano até chegar na empresa.

E como Luana não estava afim de ser demitida em tão pouco tempo de trabalho, seria melhor dançar conforme a música.

— E ele?

Luana terminou de ensaboar os pratos e olhou sem entender para a madrinha.

— Ele, quem?

— David — Dolores falou ainda assistindo o programa.

O que ela queria saber sobre David?, Luana se perguntou em silêncio sentindo os pequenos fios de sua nuca se arrepiarem.

— O que... O que tem? — Luana gaguejou tornando a atenção para sua tarefa.

— Você disse que almoçava fora. E ele?

— Não sei — Luana respondeu querendo mudar de assunto. Não queria falar de David agora.

— Luana — Leonora a chamou e Luana olhou para ela. — Você pode vir aqui, por favor? — Leonora apontou para o espaço onde Luana esteve sentada antes.

Luana se mostrou hesitante por um breve instante. A louça já estava lavada e não haveria nada que ela pudesse fazer para tentar se distrair enquanto Leonora insistia em entrar em assuntos nem um pouco bem vindos em sua vida.

Ela não teria outra escolha, por ora. À contragosto, se sentou e olhou para a madrinha. Seria melhor tentar disfarçar o melhor possível ou daria mais brechas para mais perguntas.

— O que está havendo? — Leonora fitou os olhos tremulantes da afilhada. — Por que você não gosta quando eu pergunto sobre o David ou o menciono?

Luana esboçou um sorriso falso.

— Quem disse que eu não gosto, madrinha?

— Suas atitudes. Sempre quando eu falo dele, você quer mudar de assunto. O que foi que ele te fez?

Luana fitou a madrinha e notou que havia um restigio de preocupação em seu olhar.

O que Luana diria a ela? Que David praticamente havia deixado de ser o seu melhor amigo até um ano atrás? Luana sentia falta da real amizade entre eles, de rir com ele, dos momentos distrativos e até dos mais sérios. Seria difícil falar sobre algo que nem ela mesma tinha conhecimento.

Em todas as vezes possíveis, estando ela perto dele ou não, Luana se questionava o que, de fato, havia acontecido para David começar a agir daquele modo. Agora conversar, ou ao menos estar na presença dele havia se tornado um desafio. Ele estava estranho, diferente, ela não o reconhecia mais comparado a antes. O David de belíssima aparência e de olhos intensos ainda permanecia, mas essa era a parte exterior, enquanto na parte interior mais parecia ser outra pessoa. Ele parecia estar abalado com algo e isso entrestecia Luana, mas o que ela poderia fazer? Ele a queria – palavras dele – mas ela já estava envolvida com outro "homem". Ele tinha que entender.

— Luana — Leonora a chamou, tirando-a dos pensamentos e lembranças inoportunos.

Luana olhou para a madrinha, o olhar perdido.

— Sim?

— Eu estava te perguntando o que David te fez. Ele te tratou mal?

Luana quase sorriu, embora não estivesse num humor adequado para tal.

— Não, madrinha. Ele nunca me tratou mal. — Luana quase desviou o olhar, sabia que fazer isso daria ainda mais motivos para que Leonora procurasse saber mais. — É que ele...

— Ele...? — Dolores perguntou sedenta por informação.

— Ele mudou, madrinha. Não é mais o David de antes.

— Como?

Luana abaixou a cabeça tentando pensar em algo, mas nada saiu.

Ela expirou um ar pesado sobre seus pulmões e mais uma vez fitou a madrinha, forçando um sorriso falso.

— O que a senhora vai querer para o almoço?

— O quê?

— O almoço. Pode deixar que eu faço.

— Luana, não mude de assunto.

— E o que eu deveria dizer, madrinha? — Luana perguntou um pouco irritada com aquela intromissão. — Não tenho nada para dizer.

O olhar de Leonora se demorou um pouco na afilhada, notando que a mesma parecia nervosa, mas tentava firmemente disfarçar.

— Eu gosto muito do David, mas não ficaria isenta se ele tentasse fazer algo a você — Leonora disse e Luana franziu o cenho em evidente confusão. — Seja lá o que David tiver feito ou fizer, você me conte. Está me ouvindo?

Leonora certamente estava sendo a madrinha protetora de sempre, mas pensar que David poderia ser algum tipo de sociopata era ridículo até para Luana.

David jamais lhe faria qualquer mal, apesar de ter mudado tanto.

— Agora vou voltar à minha programação, já que você não quer me contar nada — Leonora disse e retornou à sua atenção para a TV.

Luana deu graças em pensamento pela madrinha ter desistido do assunto. Ela se levantou, pegou o frasco sobre o rack e foi para o banheiro colocar o remédio onde estava antes. Fechando a porta do pequeno armário espelhado, Luana observou seu reflexo.

O que estava acontecendo com ela? Por que tudo tinha que ser tão complicado assim? Por que, mesmo se sentindo feliz, ainda se sentia tão triste?

Drácula a havia presenteado com um lindo anel e a fizera sua noiva, mas... por que parecia que algo não se encaixava? 

Luana saiu do banheiro para a cozinha e começou os preparativos para fazer o almoço, observando como dona Leonora ficava bastante entretida na programação.

°•♤•°

Faltava pouco para às sete da noite. Luana olhou para o seu reflexo no espelho do armário, já completamente produzida para sair. O seu look tinha predominância de cores mais escuras, mas nada que a fizesse parecer uma adolescente rebelde desesperada por atenção. Antes teve dúvidas se iria de vestido ou com um conjunto que a deixasse mais confortável, então optou por uma blusa mais folgada e uma calça mais justa que imitava couro; justo embaixo e folgado em cima, um contraste que funcionava. As mechas onduladas/cacheadas estavam soltas com exceção da parte de cima que estava presa por uma presilha e a maquiagem não estava muito carregada, mas acentuada especialmente para a noite.

Poucas pulseiras adornavam seu pulso direito enquanto o esquerdo estava coberto por um relógio de pulso, e o par de brincos médios e finos davam um toque mais brilhante para o visual.

Luana se sentia linda, mesmo que parecesse tão simples para quem passaria boa parte da noite num lugar regado a música, bebida e todo o tipo de gente se divertindo e extravasando seus problemas. Fred não havia mencionado o exato horário em que a boate abriria, mas seria melhor esperá-los pronta.

Se Drácula pudesse vê-la vestida assim, ele poderia se apaixonar ainda mais, Luana imaginou se divertindo.

Se apaixonar...

Drácula realmente a amava? O sentimento que ela sentia por ele era recíproco? Mas a questão mais importante era: ela realmente o amava?

Luana balançou a cabeça, reprimindo o pensamento. É claro que o amava. Nunca sentira por qualquer um de seus namorados o que sentia por seu noivo. Ele era tão gentil, cavalheiro, amoroso... a fazia se sentir nas nuvens. Era óbvio que o amava!

— Você já vai, Luana? — Leonora perguntou ao adentrar o quarto da afilhada.

— Já madrinha. — Luana olhou para a mulher mais velha. — Estou bonita?

— Como uma predadora.

Luana a encarou com incredulidade, tornou a fitar seu reflexo no espelho e desatou a rir.

— O meu objetivo era parecer bonita e despojada, não uma femme fatale*.

— Você é uma mulher bonita, filha — Leonora disse. — Acho que não precisa de muito esforço pra chamar atenção.

Luana sorriu agradecida pelo elogio.

Ela se achava bonita, sim, mas como várias brasileiras medianas com a mesma aparência que a dela. Dona Leonora exagerava exatamente como toda mãe faria.

— Eles não virão te buscar? — Leonora perguntou se referindo aos amigos de Luana.

— Estou esperando uma mensagem deles. — Luana deu uma breve olhada no celular e o deixou ao lado da bolsa transversal. — Vou curtir um pouco com os meus amigos e outro dia seremos nós duas.

— "Nós duas" o quê?

— Vamos passear, madrinha. A senhora precisa se exercitar um pouco. — Luana disse e abriu o guarda-roupa para guardar a maquiagem.

Leonora desviou o olhar da afilhada, fingindo ignorá-la e se sentou no canto da cama.

— Não me sinto muito disposta para sair.

Luana sentou ao lado.

— Dinda, a senhora nunca se sente disposta para sair de casa. A senhora tem que se exercitar, o próprio médico disse isso. Além do mais, eu nem mesmo disse qual seria o dia.

A maturidade de Leonora era igual a de qualquer outra mulher de sua idade. Mas às vezes ela mais parecia uma criança por conta de sua teimosia. Luana também havia puxado esse jeito.

Luana apertou uma das bochechas da madrinha num gesto brincalhão.

— Não discuta, dona Leonora, pois posso ser tão teimosa quanto a senhora.

Leonora sorriu em rendimento.

— Está bem. E para onde vamos?

—  Ainda vamos decidir, mas estou pensando em um parque, que tal? Vamos aproveitar e respirar um pouco a natureza. A senhora precisa disso.

— Como você quiser — Leonora disse fingindo desinteresse. — Não vai voltar muito tarde, não é?

— Madrinha, hoje é sábado e vou sair com meus amigos para dançar e me divertir — Luana disse em alerta. — Por favor, me dê um desconto.

Luana pegou a bolsa transversal e se levantou, ajudando a madrinha a se levantar também em seguida.

— Então, madrinha, eu já vou. — Luana conferiu mais uma vez sua caixa de mensagens. — Duvido muito que hoje eles venham me buscar, então vou direto para a casa da Jéssica. Nina também deve estar lá.

— Não vai ligar para o David e pedir para que ele te busque? Acredito que, para você, ele não estaria muito ocupado — Leonora disse achando graça como, aos poucos, o rosto de Luana assumiu um tom avermelhado.

Luana percebeu um vestígio de um sorriso no canto dos lábios de Leonora. Ela estava lhe provocando. Trataria de ignorar.

— E eu acredito que não — Luana disse apressadamente, não estava afim de retornar à discussão de outrora. — Agora, eu já vou. Não se esqueça de tomar os seus remédios, coloquei o relógio para despertar.

Dolores a puxou levemente pelo braço, impedindo-a de sair.

— Acho que não, mocinha.

Luana fitou a madrinha, sem entender.

— O que foi, dinda?

— Não pense a senhorita que vai sair daqui sem primeiro arrumar essa bagunça — Leonora apontou para a desordem total que se encontrava o quarto de Luana.

Luana olhou para o quarto e teve que admitir que aquilo realmente estava uma bagunça completa. Infelizmente, guardar algumas roupas e maquiagens na frente da madrinha não havia dado muito certo; certamente, Leonora iria querer que Luana fizesse o trabalho direito, estando atrasada ou não.

Francamente!

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