quinta-feira, 30 de março de 2023

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 15



David fechou a porta do carro e saiu em disparada em direção à saída enquanto os portões de ferro se abriam para a sua passagem.

Ele se lembrava que tinha o carro desde os dezoito anos e idade e, ainda assim, nunca conseguira atrair uma maior atenção de Luana ou lhe dar uma carona em qualquer vez. Luana não era mulher interesseira, e essa era uma das coisas que ele mais admirava nela. Por outro lado, ela mais parecia uma menina inocente e assustada com a presença mais constante dele — o porquê, David nao sabia. Mas ele logo descobriria, nessa mesma noite, e bem possivelmente teria a deliciosa fragrância dela dentro do carro. Ele podia até imaginar muito mais do que ter apenas a presença dela ali, no banco do carona.

David sorriu esperançoso e com pensamentos maliciosos. Tudo caminhava para ser uma noite perfeita.

Em momento algum Fred havia dito que Luana estaria com eles. Certamente, ela ainda devia estar em casa se aprontando para sair. Ela não seria tão rápida, mulheres demoravam para se arrumar. E essa seria a sua chance.

°•♤•°

David estacionou em frente à casa onde Luana morava.

Ele tinha um pouco de saudade daquele lugar, afinal, jamais havia se sentido tão querido e tão em casa em qualquer outro lugar além daquele; nem na Romênia e nem em sua casa atual no Brasil. Ele havia deixado de frequentar aquela casa há um bom tempo depois de ter sido evitado por Luana, o que dificultava um pouco as coisas. Também sentia a falta de dona Leonora, a madrinha dela. David sorriu internamente, lembrando-se da primeira vez em que Leonora o viu com Luana, o rosto da mulher mais velha demonstrando um certo desconforto e desconfiança por ver a afilhada tão próxima de um garoto. Ela era uma madrinha cuidadosa e protetora e fazia sentido se preocupar de imediato, mas aos poucos ela passou a se acostumar com a sua presença. Tirando Shartene e Miranda, Leonora foi o mais próximo que David teve de um vínculo materno.

Ele subiu os degraus até a varandinha de entrada e bateu com cuidado na porta. Parecia não haver ninguém. Ele bateu a segunda vez e ainda ninguém atendeu. Antes de David bater a terceira vez, Leonora abriu a porta, seu semblante sério, mas que se transformou num largo sorriso quando viu que era ele.

— David! Que surpresa!

Ele sorriu em cumprimento.

— Dona Leonora. Tudo bem com a senhora?

— Claro que sim! Venha aqui — ela respondeu entusiasmada e o puxou para um abraço.

David estranhou e paralisou no início, mas aos poucos correspondeu o gesto de carinho.

Aquela senhora havia sido muito bondosa com ele ao longo dos anos. Gostava muito dela.

— Como a senhora está? — David perguntou quando se soltaram do abraço.

Não era apenas uma pergunta por simples educação. David se preocupava com ela e com sua saúde precária.

Ainda sorrindo, Leonora o encarou como se não o visse há anos.

— Bem — respondeu. — Meu Deus, David, você aqui. Quanto tempo! — Leonora abriu mais a porta, dando mais espaço para que ele pudesse entrar. — Entre, por favor.

David fez como o pedido, olhando sutilmente para alguns cantos à procura da afilhada.

— Luana está? — Ele perguntou.

Leonora olhou para ele.

— Não, ela saiu há pouco tempo — ela respondeu. — Eu te convidaria para sentar e ofereceria um copo d'água, mas vejo que está com um pouco de pressa.

— Nem tanto — ele respondeu e esboçou um sorriso tranquilizador, embora estivesse desapontado por não poder levar Luana. — De qualquer modo, vou direto para casa da Nina. Acho que Fred também pediu para que Luana os encontrasse lá.

Leonora assentiu.

— Isso mesmo. Embora eu quisesse que ela fosse acompanhada de alguém — de você ou...

Leonora se deteve e houve uma pausa desconfortável. David sabia a quem ela se referia.

— Então é verdade.. — David sibilou entre os dentes, tentando controlar seu humor. — Luana realmente está compromissada com alguém.

Leonora pareceu fitá-lo com compaixão.

— Sim, é verdade — disse parecendo desapontada. — Embora eu não entenda muito bem esse relacionamento deles. Mal começaram a namorar e já noivaram.

David assentiu lentamente, tentando manter a mente distraída para não se aborrecer.

— Quer dizer, ele parece ser um homem bom para Luana, é até cavalheiro — Leonora continuou. — Mas, ainda assim, me parece muito estranho.

— A senhora sabe o nome dele, de onde ele vem? — A voz de David soou mais grave e rígida, mesmo que não fosse essa a sua intenção.

Leonora ponderou.

— Se eu te dissesse que nem mesmo sei o nome dele, você riria de mim? — Leonora quase sorriu. — Luana só o trata como "noivo".

— Não. — David meneou a cabeça. — Eu jamais riria da senhora. Mas certamente esse cara parece ser um tanto suspeito.

— Eu não sei, meu querido, só sei que minha afilhada está nesse relacionamento maluco — Leonora disse. — Mas não é como se Luana nunca tivesse namorado garotos estranhos. Eu não sei por que ela fica nesse desespero de estar com alguém.

Mas David sabia. Porque Luana era carente e fazia isso para provocá-lo, ele pensou ao contrair a mandíbula.

Leonora fitou o jovem homem por um pouco mais tempo. Ela não sabia quanto aos outros, mas era tão perceptível que David gostava de Luana. Ela poderia perguntar a ele o que havia se passado entre os dois, já que a afilhada não deixava passar nada, enquanto David era um pouco mais aberto com suas emoções. Mas decidiu não o fazer; não era assunto seu e aquele não seria o momento adequado.

David expirou o ar, tentando manter a compostura.

— Então, eu já vou, dona Leonora. Espero que nos encontremos novamente — disse e esboçou um sorriso gentil, embora estivesse fervendo por dentro.

— Tudo bem, meu filho. — Leonora o acompanhou até a porta. — Você sabe que é sempre bem vindo aqui.

— Eu sei. — David sorriu e apertou gentilmente o ombro da mulher mais velha num gesto de afeto. — Até mais.

— Até — Leonora disse da porta, observando David ir em direção a um veículo muito bonito e moderno. — Se divirtam.

David se despediu da senhora e entrou no carro. Girou a chave para ligar o veículo, tentando não pensar muito no assunto sobre Luana e o noivo dela, ou faria uma besteira. Ele ainda estava com o carro parado em frente à casa de Leonora e a mulher ainda se encontrava agarrada à porta, esperando a sua saída. Não seria um bom lugar, nem momento, para descarregar a sua raiva.

Então o maldito não tinha um nome, hein. Mais cedo ou mais tarde, ele descobriria.

°•♤•°

Luana já estava começando a ficar cansada.

Jéssica estava há mais de uma hora experimentando roupas e nunca se decidia. Nina também a estava ajudando, mas, ainda assim, não estava adiantando muito. E pensar que Luana havia pensado em estar atrasada.

— Meninas, vocês vão demorar muito? — Luana perguntou sentada à cama observando as duas amigas andarem para lá e para cá à procura de mais acessórios para montar um look.

Nina deu o toque final que Jéssica pareceu gostar, embora as duas gostassem de estilos diferentes, e juntou-se a Luana.

— Pronto. — Nina suspirou aliviada. — Agora só falta Jéssica se vestir.

Luana sorriu para a amiga.

— Que bom. Eu já não aguentava mais.

— Não vou me demorar, prometo. — Jéssica, mantendo a toalha em volta do corpo recém banhado, pegou as peças de roupa e entrou no banheiro.

— Não prometa o que você não pode cumprir! — Nina disse em alto e bom som para que Jéssica ouvisse.

— Se para nós duas foi quase insuportável, imagine para Fred que está lá na sala — Luana comentou quase sentindo pena do amigo, embora também achasse a situação engraçada.

— Ele já está acostumado, acredite — Nina disse e logo mudou de assunto. — E o seu pretendente, namorado, o que seja?

Luana a fitou.

— O que tem ele?

— Você não disse muito sobre o seu relacionamento com ele — Nina refletiu. — Jéssica e eu ficamos passando vontade.

Elas duas riram.

— Não houve um momento apropriado — Luana disse se lembrando de seu conflito oculto com David. — Mas talvez depois eu conte mais sobre ele.

— Ele não ficou chateado por você ter vindo, não quis que vocês ficassem juntos aos finais de semana?

Luana estranhou as perguntas antes de ponderar um pouco e dar de ombros.

— Ele não é assim. — Luana sorriu tímida. — Nada foi estipulado sobre dias específicos que nos veríamos. Além do mais, já nos vimos outras vezes sem nem mesmo ser marcado.

— Entendo — Nina refletiu pensativa enquanto olhava para Luana. — Você está feliz com ele?

— Não pareço feliz? — Luana perguntou.

Não foi uma pergunta que ela já soubesse a resposta. Para dizer a verdade, ela queria ouvir de outra pessoa.

Nina deu de ombros.

— Não verdade, parece a mesma de sempre.

Luana assentiu e olhou vagamente para um ponto do quarto.

Saber por outra pessoa talvez não tinha sido uma boa idéia. Fez parecer que ela estava naquele relacionamento apenas por conveniência, o que seria estúpido — jamais se envolveria com alguém se realmente não tivesse afeto pela pessoa. Ela estava apaixonada por Drácula.

— Fred está na sala também por causa de David — Nina comentou mais uma vez, tirando Luana de seus pensamentos. — Fica olhando toda hora para fora, caso David se esqueça.

Luana piscou surpresa.

— David realmente vem?

Nina assentiu e o canto de seus lábios se ergueram. Luana podia perceber segundas intenções ali.

— Vem. Ele confirmou, embora a gente saiba que David é um cara bem fechado. — Nina deu um leve tapinha na mão de Luana num gesto brincalhão. — Mas hoje eu acho que talvez ele se solte um pouco.

Luana podia ouvir o trincar de seus dentes e sua respiração pesada como se quisesse expelir algo. O porquê, ela não sabia.

— Nina, se eu fosse você, nem perderia tempo com o David — Luana disse após um breve instante.

Nina piscou sem entender.

— Por quê?

Interrompendo a conversa, Jéssica abriu a porta do banheiro e se apresentou para Luana e Nina, andando na direção delas e depois dando uma volta como se estivesse desfilando.

— O que acharam? — Ela perguntou. — Estou bonita?

Jéssica não fazia o tipo de mulher que dependia da opinião alheia para se sentir bonita, embora não fosse arrogante ou convencida. A sua boa autoestima não só favorecia a ela, mas também a Luana em algumas vezes desde que se conheceram, e principalmente a Nina que parecia não ser tão confiante quanto as suas duas amigas.

— Está linda e muito atraente — Nina disse esboçando um sorriso amistoso. — Pelo visto, Fred terá problemas.

As duas riram da brincadeira de Nina, exceto Luana. Embora já estivesse cansada só de observar Jéssica com sua demorada indecisão com as roupas e sapatos, seu humor parecia ótimo até um certo momento.

— Vamos, meninas. — Jéssica pegou a bolsa pequena que combinava com o seu look. — Se demorarmos mais um pouco, Fred vai começar a reclamar.

— Mas David ainda nem veio — disse Luana ainda sentada ao lado de Nina.

Jéssica olhou por um longo momento para as duas.

— David também vai? — Ela perguntou e Nina assentiu em resposta. Jéssica arqueou as sobrancelhas em surpresa. — Que milagre.

— Sim, é — Nina concordou enquanto Luana se manteve calada, o olhar desviado para outro canto.

Jéssica sorriu de orelha a orelha.

— Eu disse antes a vocês que Fred e eu estávamos nos entendendo, certo?

— Sim - Nina respondeu. — O que tem?

— É que... — Jéssica manteve seu melhor sorriso, parecia estar muito emocionada e ansiosa. — Ele planejou nossa ida à boate para nos divertirmos e também para me pedir em namoro. Oficialmente agora.

Luana e Nina arquearam os olhos em surpresa, embora o relacionamento daqueles dois indicasse isso há muito tempo.

— Mas se você está nos contando agora, então não é mais surpresa — Luana comentou um pouco confusa.

— Não era para ser surpresa, boba — Jéssica disse. — Mas possivelmente Fred me faça uma surpresa, quem sabe? Um anel de compromisso, talvez?

— Ele disse isso a você? — Luana indagou.

— Não, mas deu a entender — Jéssica disse e sorriu.

— Imagino o Fred se ajoelhando na boate e fazendo o pedido em meio a todo aquele barulho — Nina comentou e riu junto com Luana. Jéssica pareceu não achar graça, embora um singelo sorriso permanecesse em seu rosto.

— Não exagere. É a oficialização de um namoro, não um pedido de casamento — Jéssica retrucou e abaixou a maçaneta. — Agora vamos, pois David já deve ter chegado.

Luana e Nina se levantaram, pegaram seus pertences e seguiram Jéssica até a sala.

O coração de Luana pareceu parar de bater por um breve instante.

David já havia chegado e estava sentado no mesmo sofá que Fred, ambos olhando para nada em específico enquanto esperavam por elas. Fred devia estar entediado, mas David, de fato, se perdia no próprio mundo às vezes, Luana se lembrava. Os únicos momentos em que ele conseguia se soltar mais eram com ela. Em relação a isso, não havia mudado muita coisa. Mas em relação a outras...

— Estamos prontas, meninos — Jéssica disse alguns passos à frente das outras. — Podemos ir?

David e Fred se levantaram e olharam na direção onde as mulheres estavam.

— Que ótimo — Fred vibrou em tom de brincadeira. — Eu pensei que vocês não fossem sair nunca daquele quarto.

— Jéssica com sua eterna indecisão sobre qual look usar — Nina explicou.

— Ah, por favor, David nem havia chegado ainda — Jéssica se defendeu. — A gente sairia tarde do mesmo jeito.

Jéssica parou à frente de seu namorado, ou o que ele fosse, e o cumprimentou com um selinho.

— Desculpem pela demora — David disse e fitou Luana que também olhava para ele.

Jéssica esboçou um sorriso amigável.

— Não precisa se desculpar.

Luana não entendia bem o porquê de seu coração bater tão forte. Ali à sua frente era David, apenas David, seu amigo de adolescência, apesar dessa relação de amizade estar estremecida há algum tempo.

Fred estava muito atraente, era um homem bonito que sabia atrair os olhares das pessoas, o que o combinava perfeitamente com Jéssica. Mas quem realmente conseguia se destacar era David com um estilo parecido com o de um bad boy sedutor. Diferentemente do estilo mais formal quando ía para o trabalho, dessa vez ele parecia mais casual, como em poucas vezes em que saíram juntos, só os dois.

Luana desviou seu olhar do dele. Não seria de bom gosto ter tais pensamentos estranhos, ainda mais quando ele a encarava tão intensamente que Luana se perguntou como os outros pareciam não notar.

— Pensei que você não se juntaria a nós — Nina disse a David, a voz mais suave do que o normal.

Ela definitivamente estava interessada nele.

— Eu não perderia esta noite por nada — David disse querendo fixar os seus olhos em Luana mais uma vez, mas sabia que a constrangeria dessa forma, pelo menos por ora.

Eles já sabiam que Luana estava compromissada com um maldito qualquer, e não seria bom arriscar parecer um imbecil que cobiçava a mulher dos outros. Também não seria nada bom se Luana fosse vista com maus olhos por sua causa.

— Bem, vamos agora? - Fred perguntou ao pegar a chave do carro do bolso direito da calça.

Os outros concordaram e foram em direção para fora. Luana quase correu para que não pudesse estar tão próxima a David que ainda a fitava de vez em quando com aquele azul safira completamente intenso e intimidante.

Haviam dois carros estacionados próximos à calçada, um atrás do outro. O carro de Fred era menos provido de luxo, mas parecia ser um bom carro, também tinha a tonalidade de cor mais clara.

— Pessoal, tenho uma notícia boa e uma ruim para dar a vocês — Fred disse antes que pudessem entrar nos carros.

— Comece pela boa — Nina o encorajou.

— Bem, a boa é que tem um bom lugar para passarmos a noite — ele disse.

— E a ruim...? — Jéssica indagou.

Fred pensou um pouco antes de responder:

— Bem, não é que seja ruim, mas não é exatamente o que estávamos planejando — Fred respondeu. — Não consegui achar uma boate mais acessível, então reservei nossas entradas num bar flashback.

— "Bar" o quê?... — Nina perguntou sem entender.

— Um bar escuro, daqueles bem undergrounds, que toca músicas antigas — Fred respondeu e deu de ombros como que pedindo desculpas. — Foi o único lugar que consegui. A não ser que vocês não queiram.

Os outros se entreolharam indecisos, mas Luana não viu nenhum problema. Claro que uma boate seria mais agitada, mais parecido com os gostos deles, afinal ainda eram novos, mas ela gostava de músicas mais antigas.

— Eu não vejo problema algum — soou a voz de David de repente, atraindo os olhares dos outros. — É o que tem para hoje e, se continuarmos tentando decidir para qual lugar ir, só perderemos tempo.

David era um homem de poucas palavras, e por isso era sempre uma surpresa vê-lo interagir. Era um alento vê-lo se soltar mais com outros, Luana pensou, mesmo que o conflito recente entre eles permanecesse.

Nina sorriu simpática para ele, parecia compartilhar da mesma opinião. Luana mais uma vez desviou o olhar, os olhos apertados e fixos à frente. Ela não sabia a razão, mas estava começando a odiar aqueles sorrisinhos.

— David tem razão — Nina concordou e se achegou para mais perto dele, mas não ao ponto de David se sentir desconfortável.

David fitou mais uma vez a dona dos cabelos levemente cacheados.

Ao contrário dos outros, ele não dava a mínima para qual lugar iriam, contanto que passasse a noite perto de Luana. E não somente passar a noite — ela lhe devia algumas explicações.

— Bem, vamos, então? — Fred perguntou quando notou que o caso já estava solucionado.

Jéssica entrelaçou seus dedos nos dedos de Fred.

— Eu vou no carro do Fred — ela disse e olhou para os outros. — E vocês?

Luana fitou David e mais uma vez se arrependeu. David não conseguia parar de olhar para ela, mas felizmente ele conseguia disfarçar bem.

Ela não se sentiria bem entrando no carro de David. Parecia algo simples, mas não para Luana, não agora.

David pareceu perceber a sua tensão.

— Quer ir comigo, Luana? — Ele indagou numa voz quase rouca.

Luana respirou fundo.

— Eu vou com o Fred e a Jéssica — Luana respondeu mal olhando na direção dele.

— Nina vai com David, então — Jéssica fitou a amiga com um sorriso cúmplice. — Tudo bem para você, Nina?

Nina correspondeu ao sorriso.

— Tudo ótimo — Nina disse e se voltou para David. — Vamos?

Luana fitou os dois com um certo incômodo.

David assentiu e, pelo tempo em que Luana o conhecia, parecia claramente contrariado.

— Sim, vamos — David quase resmungou entre entes cerrados.

Ele estendeu o braço para que Nina passasse à frente.

— Fred, você guia o caminho — Nina disse andando em direção ao carro de David. — Daqui a pouco nos vemos lá.

Jéssica mais uma vez trocou outro sorriso cúmplice com Nina e se agarrou ao namorado com um braço e com o outro, ela guiou Luana até o carro mais simples.

Antes de Luana entrar, ela fitou os outros dois por um breve instante e observou David abrir a porta do carro para que Nina entrasse. Nina sentou-se no banco do carona, o sorriso bobo estampado no rosto enquanto David estava com a mandíbula contraída, parecendo um pouco irritado.

Luana já viram aquela expressão muitas vezes. Não era algo muito bom ter David irritado.

Decidiu esquecer aqueles dois e entrar logo no carro. Ela não queria dar uma falsa impressão para Jéssica e Fred.

°•♤•°

Maldição! Inferno!

David estava praguejando mentalmente, amaldiçoando os céus e o mundo naquele momento.

Nina estava ao seu lado, em vez de Luana. A raiva que sentia era tamanha que poderia quebrar a cara do primeiro imbecil que se metesse em sei caminho naquela noite.

— Alguma coisa errada, David? — Nina perguntou parecendo notar a sua tensão.

David a fitou de esguelha enquanto a sua atenção permanecia na estrada. O olhar de Nina transparecia preocupação. David trincou os dentes, tentou se acalmar e esboçou um sorriso tranquilizador, embora suas mãos estivessem bem firmes ao volante.

— Sim, estou bem, Nina. Não é nada — mentiu. — Apenas me sentindo um pouco cansado. Dormi de ontem à noite até hoje à noite.

Nina o fitou surpresa e incrédula.

— Sério?

— Sim — David respondeu. Obviamente não contaria sobre sua condição ou sua família. — Apaguei de vez.

— Posso imaginar. - Nina pôs uma mecha do cabelo curto para trás da orelha. — Nosso modo de trabalho pode não parecer difícil, mas realmente se torna cansativo.

— Pois é — David concordou vagamente se concentrando na direção.

Um humano comum obviamente pensaria que o motivo seria aquele.

— Me diga, David — Nina mais uma vez falou com ele após um breve instante em silêncio. — Por que você quase nunca se enturma com a gente?

David fitou o rosto interessado e curioso de Nina e tornou a prestar atenção na direção.

— Estou fazendo isso hoje, não estou? — David indagou sem muito interesse.

— Sim, mas ainda assim, parece tão calado — ela comentou.

— É o meu jeito — David se limitou a responder.

— Talvez nem tanto — ela continuou. — Até um ano atrás, você sorria mais, conversava mais, mesmo sendo uma pessoa introvertida. Agora está mais distante.

Mais distante?

E desde quando ele havia sido tão próximo a alguém que não fosse Luana?

E mais outra vez era jogada em sua cara a questão de "um ano atrás", mas agora dita por Nina.

Afinal, o que ele tinha feito de mais? O que ele havia feito para afastar ainda mais as pessoas de perto dele, inclusive a que ele mais amava? Continuava o mesma de sempre; quer dizer, talvez não o mesmo de anos atrás, vivia em constante mudança. Mas era injusto tentar descobrir onde e como havia errado enquanto Luana tentava fugir dele o tempo todo — e o pior, ela conseguia!

Droga, ela era a sua melhor amiga! Ele havia feito tantas coisas por ela e com ela. E como ela pagava agora? Se afastando cada vez mais dele e se tornando noiva de um imbecil qualquer.

David apertou ainda mais as mãos sobre o volante, suas unhas quase rasgando o couro maciço. Ele rapidamente teve de se lembrar que a sua força de agora não era como antes e que, principalmente, havia a presença de Nina no carro. Ou se controlaria ou poderia perder a cabeça antes mesmo da noite começar.

Então ele preferiu inspirar um pouco mais de ar para o seu pulmão apertado e responder a pergunta dela.

— Distante, é? — David sorriu com azedume. — Não, Nina, eu sou o mesmo — ainda, quis dizer, mas preferiu ficar em silêncio.

Aquilo não dizia respeito a ela, e também não seria uma boa idéia pensar em mais mudanças que poderiam ocorrer por sua condição genética.

Depois de um bom tempo em silêncio, Nina gentilmente tocou no braço dele. David quase a encarou com reprovação.

O que ela queria, afinal?

— Eu só quero que você saiba, David, que em mim você sempre terá uma amiga. — Nina disse e parecia ter sido sincera.

David olhou de Nina, com um sorriso tímido no rosto, para a direção novamente e passou uma das mãos no cabelo num modo desconfortável.

Nina era uma boa pessoa, ainda que seu suposto sentimento por ele nunca pudesse ser correspondido. A sua atenção e seu amor todo seria sempre direcionado a uma só mulher, a que o ignorava a todo instante, desde o ano passado — para dizer a verdade, desde sempre; pelo menos, de certa forma. Ele teve de admitir que foi bom ouvir tais palavras de alguém, mas queria tanto que Luana pensasse o mesmo.


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