terça-feira, 4 de julho de 2023

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 16



Os carros de David e Fred estacionaram numa calçada em frente ao bar. As duas calçadas estavam livres, exceto por algumas pessoas que lá estavam conversando, fumando ou chegando no mesmo horário. Por isso os dois foram aconselhados por alguns organizadores para que pudessem estacionar mais um pouco ao longe, onde não havia um grande fluxo de pessoas. Não demoraram muito até encontrarem um local mais adequado - pago, é claro; os organizadores não perderiam mais essa chance de lucrar.


Fred desceu do carro e o contornou, logo abrindo as portas para que Jéssica e Luana pudessem sair.

Luana desceu do carro, olhando  surpresa para o bar à frente. Eles já haviam ido a bares, mas aquele parecia ser diferente, mais escuro e badalado pela quantidade de pessoas, o que de fato o fazia parecer uma boate, o que talvez não fosse o caso. O que a surpreendeu ainda mais foi ver a grande quantidade de pessoas bem jovens frequentando um lugar que, até há pouco tempo, era mais frequentado por pessoas mais velhas.

O seu olhar fitou ao lado, na direção de onde estava o carro estacionado de David.

A mão maior dele segurava a mão menor de Nina, ajudando-a a sair do carro. Ele parecia um pouco mais solícito que antes e Nina parecia muito encantada por ele.

Um lado de Luana quis sorrir e ficar contente por ver David interagir mais com seus outros amigos. O comportamento mais reservado era o jeito dele, ela sabia, e por isso era quase motivo de celebração David ter uma aproximação maior com outras pessoas que não fossem somente ela e Leonora.

Jéssica a alcançou e a abraçou por trás. Estava de muito bom humor, e não era para menos. Luana gostava de ver os seus amigos contentes.

Luana apoiou a mão no braço da amiga num gesto afetivo.

— O lugar não parece ser brega como eu imaginava — Jéssica comentou. — De qualquer modo, mal posso esperar.

Luana passou um braço por trás de Jéssica enquanto as duas andavam juntas em direção ao bar.

— Para dançar a noite inteira até cansar?

— Dependendo da música... — Jéssica disse com um toque de sarcasmo. Definitivamente, antiguidades não faziam o seu tipo. — É mais por outro motivo. — Jéssica fez um gesto apontando sutilmente para Fred que vinha logo atrás.


Luana tambem fitou Fred de modo sutil e sorriu em seguida.

Estava feliz por Jéssica, por essa nova etapa de sua vida. Após dois anos de um amor quase platônico e idas e vindas, finalmente eles ficariam juntos de verdade.

Luana fitou David por um breve instante e quase se arrependeu por ter feito. Mesmo ao lado de Nina, os olhos safira não a abandonavam nem por um instante. Era quase ameaçador.

Era impressão dele, ou Luana ficou um considerável tempo o observando ajudar Nina a sair do carro? Não parecia ser nada demais ela ter olhado, já que nem ao menos quis acompanhá-lo, David pensou ao expirar o ar com um pouco de irritação.

Luana poderia manter-se distante, assim como estava fazendo naquele exato momento, mas logo ela não escaparia. O bar parecia ser escuro, intimista. Não seria nem um pouco difícil colocá-la contra a parede sem ninguém perceber.

— David — Nina o chamou.

David fitou o rosto sorridente dela.

— Ah, oi.

Ela segurou a sua mão, olhando em seus olhos.

— Vamos entrar?

David fitou Nina por um tempo considerável.

Ele sabia quais eram as intenções dela e não podia fazê-la pensar que era recíproco. Ele deveria colocar Nina em seu devido lugar, mas não tinha certeza se seria o certo magoá-la ou até mesmo assustar a garota.

Ele olhou na direção dos outros que andavam mais à frente e resolveu deixar os pensamentos de lado por enquanto.

Tornou a fitar Nina e esboçou um meio sorriso.

— Ah, sim. Vamos — concordou.

De mãos dadas com Nina, o que estava sendo muito estranho para ele, David entrou no bar.

De fato, era escuro lá dentro, embora o ambiente fosse um misto de algo mais intimista, como qualquer lanchonete fechada, e de uma casa de dança.

Praticamente no meio, ficava o balcão, onde eram servidas bebidas para as pessoas que estavam sentadas nas banquetas e para as que circulavam de um lado para o outro. Mais à esquerda, ficava um longo corredor que parecia dar para os banheiros feminino e masculino; algo lhe dizia que coisas aconteciam naquele perímetro entre entradas e saídas dos banheiros. Um pouco mais à direita do salão e quase no centro, ficava a pista de dança de piso quadriculado, com o degrau um pouco acima do resto do piso, onde algumas pessoas dançavam e se divertiam ao som das músicas atemporais. E logo atrás, mais próximo da entrada, entre o início das portas duplas e o início do corredor, ficava um conjunto de cinco mesas enfileiradas com enormes estofados macios ao redor. O bar era iluminado por luzes fracas de modo proposital e os canhões de luz não eram nada irritante que fizesse um epilético ter um ataque, apenas enfeitavam e davam ainda mais vida à pista de dança.

Luana olhou para trás para verificar se os outros estavam acompanhando e se deparou com as mãos unidas de David e Nina. Eles mais pareciam um casal daquele jeito. Jéssica também olhou para trás e sorriu eufórica ao perceber o mesmo que Luana.

— Nina nem mesmo precisou de mais um empurrãozinho meu — Jéssica murmurou no ouvido de Luana. — Parece que ela foi bem rápida.

Luana engoliu em seco sem compartilhar do mesmo sorriso de Jéssica.

Sim, ela realmente havia sido rápida, pensou com azedume.

— Aqui, gente.

Jéssica apontou para uma mesa livre. Embora outra também estivessem vazia, alguns pertences indicavam que ela estava ocupada.

Luana se adiantou logo à frente e deixou que Jéssica ficasse mais próximo a Fred. David também parecia estar muito bem acompanhado. Pelo visto, ela seria a única mulher livre entre os amigos naquela noite.

Luana sentou-se no meio, Jéssica e Nina sentaram-se ao seu lado, Fred na extremidade direita ao lado de Jéssica e David na extremidade esquerda ao lado de Nina.

— Parece ser um lugar interessante — Jéssica comentou olhando satisfeita ao redor e apoiando a sua bolsinha no colo.

— Verdade — Fred concordou.

Luana fitou todos os lados do bar onde David não se encontrava. Ela podia sentir o olhar contrariado dele.

— E então, Nina. Hoje à noite promete? — Jéssica, com a mão apoiada no queixo, perguntou dando uma sugestiva piscadela.

Luana manteve-se com o olhar vago. Se olhasse para Nina, estaria na mira dos intimidadores olhos safira.

Nina sorriu quase vermelha. Jéssica era muito direta.

— Quem sabe? — Nina respondeu um pouco mais insinuante, mas nada que pudesse afetar o seu jeito mais reservado.

Nina olhou para baixo no banco acolchoado, onde a sua mão e a mão de David estavam bem próximas, mas não se tocavam. Por um instante, ela sentiu falta de alguns minutos atrás quando suas mãos estavam unidas, mesmo que por pouco tempo.

— E então, pessoal — Fred perguntou olhando para todos, enquanto segurava um dos dois menus postos sobre a mesa. — O que vamos pedir para beber, comer?

— O que vocês sugerem? — Jéssica indagou.

— Pode ser um petisco de entrada — sugeriu Nina.

— Nina, o petisco será por todo o período em que estivermos aqui — Jéssica disse rindo enquanto folheava o outro menu. — As coisas deste bar são caras.

— Não vamos nos preocupar muito com isso — Fred disse. — O que pode ser para petisco?

— O que vocês acham? — Jéssica perguntou ao olhar na direção dos três. — Meu Deus, Luana e David! Parece que vocês estão no mundo da lua.

Os dois despertaram de seus próprios mundos e olharam para Jéssica, mas David permaneceu em silêncio.

— Pode ser uma batata-frita? — Luana sugeriu. — Se tiver, é claro.

Jéssica verificou no cardápio.

— Tem, sim — confirmou e fez uma careta, certamente por causa do preço em questão.

Fred percebeu. Ele conhecia a "quase" namorada.

— Nada de se preocupar com o preço, senão não vamos conseguir curtir a noite. É o único bar da rua e o mais badalado — ele disse. — Batata-frita, então?

— Sim, tudo bem — Nina concordou seguida de Luana e Jéssica.

Para David, não faria muita diferença. Mas não era algo que eles precisassem, e devessem, saber.

— Tudo bem — Fred anotou mentalmente. — Acho que todo mundo aqui vai preferir bebida alcoólica, certo?

— Acertou na mosca — Nina disse sorrindo e fazendo um gesto no ar em brincadeira.

— Ok, então. Batata-frita e cervejas — Fred anotou mentalmente e se levantou. — Ei, David. Você pode me ajudar?

David olhou brevemente ao redor. Os cardápios se encontravam em cada mesa, mas parecia não haver funcionários que anotavam os pedidos. Além disso, Fred parecia já ter frequentado aquele recinto.

— Claro. — David se levantou e estacou por um breve instante ao sentir o roçar da mão de Nina. Ele trincou o maxilar, contrariado. Nina já estava começando a irritá-lo. Se isso continuasse, deveria partir para um lado não tão amigável.

Luana olhou para os dois homens que se afastavam em direção ao balcão.

Fred e David tinham quase a mesma altura, mas David parecia ter algo mais imponente nele; algo que não parecia ser natural entre os homens. Algo que ela nunca havia reparado antes.

Sentindo-se segura para falar o que queria, Jéssica estendeu o braço sobre a mesa e segurou a mão de Nina.

— E então, amiga — Indagou curiosa. — Como estão indo as coisas entre vocês? O que rolou naquele carro?

Luana se empertigou. Ela queria sumir naquele momento, mas também se mostrou bastante curiosa.

— Não conversamos muito — Nina disse com certa hesitação e deu de ombros como se pedisse desculpas.

— Mas conversaram, certo? — Jéssica insistiu.

— Eu falei mais do que ele, enquanto ele só concordava — Nina respondeu um pouco desapontada, embora soubesse que David era desse jeito. — Perguntei por que ele parecia mais distante e ele alegou ser impressão minha. No final, eu disse a ele que sempre estaríamos aqui se acaso ele precisasse de ajuda.

Pelo visto, não havia sido somente ela quem havia percebido uma notável mudança em David, Luana pensou prestando atenção na conversa, mas seus olhos fitando mais à frente de vez em quando.

Jéssica olhou atentamente para Nina e olhou de esguelha na direção onde estavam David e Fred.

— David é esquisito, Nina — Jéssica ao voltar a sua atenção para as amigas. — Você deverá ter paciência.

— Ele não é esquisito — Nina o defendeu. — Apenas...

— "Estranho" seria a palavra correta, então? — Jéssica indagou achando graça.

Nina suspirou.

— Talvez um pouco... — Teve de admitir.

Luana olhou para as duas, mas permaneceu em silêncio.

Ela ainda se lembrava dos momentos em que teve de defender David de comentários maldosos em quase todo o período escolar. Para pessoas que seguiam certos padrões e imitavam umas as outras, alguém diferente como David sempre seria visto como "esquisito" ou "estranho". Não que o comportamento atual dele ajudasse a reverter esses achismos da maioria das pessoas, infelizmente.

— Acho que a única pessoa que realmente pode entendê-lo é Luana — Jéssica disse e olhou para ela, Nina também a fitou em seguida. — E ainda assim, ela também compartilha do mesmo pensamento.

Luana sustentou os olhares das amigas e respirou fundo. As duas a encaravam fixamente, querendo uma resposta.

— David mudou um pouco desde que fez vinte e um anos de idade — Luana explicou não querendo se demorar muito, pois queria evitar aquele assunto de vez. — Todos mudam, eu acho.

— Talvez algo deve ter acontecido para que ele mudasse - Nina disse. — Há uma possibilidade.

Sim, havia uma possibilidade. Mas qual teria sido o motivo? Se Luana soubesse o que fazer, talvez tudo pudesse ter sido diferente.

— Mas, e então, Luana? — Jéssica perguntou animada, parecendo desistir daquele assunto incômodo. — Aproveite que estamos nós três aqui e nos conte logo sobre o seu namorado.

Luana fitou as duas amigas já sorridentes em expectativa. Ela sabia que em algum momento, oportuno ou não, Jéssica e Nina iriam querer saber mais sobre o seu relacionamento. E para dizer a verdade, ela também queria compartilhar um pouco de sua alegria com as amigas — sem se aprofundar mais em quem era Drácula ou em como tudo começou, é claro. E também não teria nada de "Drácula"; algo lhe dizia que mencionar o nome dele não seria uma atitude muito inteligente.

Como Jéssica havia pedido antes, Luana aproveitaria que as três estavam sozinhas na mesa para lhes contar. Ela não queria que David ouvisse um ruído sequer sobre a sua vida amorosa.


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