— Mais um, por favor — Fred pediu ao balconista.
Ele já ía para o segundo copo de bebida, enquanto David nem havia terminado o primeiro. O real intuito não era se embriagar antes que pudessem se divertir de verdade com as meninas na mesa, mas estavam aproveitando melhor o tempo enquanto esperavam o pedido estar pronto.
Fred deu uma rápida olhada para trás.
— Tomara que elas não se importem com a demora — Disse ele.
— Eu nem mesmo preciso olhar para trás para saber que elas estão aproveitando o tempo conversando — David disse ainda completamente imóvel.
Fred olhou para David e riu.
— Acertou em cheio, senhor vidente. Enfim, mulheres. O que seriam delas se não trocassem as fofocas do dia? — Fred gracejou antes de tomar um gole da bebida que o balconista deixou à sua frente.
David também tomou um gole de sua bebida, mas se arrependeu novamente, como das outras vezes.
A bebida parecia ser barata, de pouca qualidade, mas Fred pareceu não perceber.
— O que foi? — Fred interrogou ao perceber a careta de desagrado de David. — Não gostou da bebida ou pensou em algo ruim?
David se demorou um pouco ao fitar o líquido cor de cobre antes de prestar atenção no que Fred havia perguntado.
Fred realmente queria conversar e se introsar mais com ele. Não que David achasse aquela aproximação ruim, mas ainda não estava tão acostumado.
— Está uma porcaria — David respondeu baixo, mas não o suficiente para um dos funcionários não ouvir, que imediatamente se incomodou, mas retornou ao serviço.
Fred levantou o copo e olhou para o líquido que ía e vinha com o leve balançar da mão.
— Eu acho que está boa — Fred disse e mais uma vez bebericou sua bebida.
David se pôs em silêncio. Gostos eram singulares.
— Valeu, Fred.
— Hã? — Fred perguntou sem entender.
— Por ter me convidado — David explicou.
— Não precisa agradecer. Você é um amigo — Fred disse gerilmente. — Além do mais, você parecia estar muito tenso. Precisava sair para se distrair um pouco.
David olhou para o homem de cabelo claro ao seu lado.
Sim, por causa de Luana, ele se lembrava. Por causa dela, David havia partido uma mesa de madeira ao meio e quase deixou a fúria dominá-lo. Por causa dela, estava começando a enlouquecer de vez. E agora, lá estava ela, agindo como se nada tivesse acontecido. Mas por pouco tempo, ele pensou sombrio.
— Obrigado — David se limitou a agradecer. A sua mente estava ocupada com outras coisas.
— Algo te preocupa, David?
David olhou para ele.
— O quê?
— Você parece... Sei lá, meio impotente.
— E estou. — David acabou com a bebida em seu copo numa única golada. Aquilo estava totalmente intragável, mas somente ele parecia notar isso. — Muito — respondeu sincero.
— Quer me contar?
David o encarou atentamente, após desfazer a careta de puro asco por conta do gosto amargo da bebida.
Fred genuinamente queria ser mais próximo a ele, talvez por ser o único homem além dele no "grupinho da amizade". O seu olhar não revelava uma quase indiferença como o de Jéssica, ou de segundas intenções como o de Nina. Talvez não fosse tão ruim desabafar um pouco com alguém. Dentro de seus limites, certamente.
— Olha, Fred, não posso te dizer o que realmente se passa na minha vida, mas posso te contar o essencial.
Fred pousou o copo na bancada.
— Ok. Mas o que seria o "essencial"?
— Nina — Foi o primeiro assunto em que David pensou para manter a conversa. — Sei que ela está interessada em mim. Mas eu não estou interessado nela.
— Ela te disse isso?
David sorriu sem vontade.
— Ainda não — respondeu. — Mas dá para perceber.
Fred achou graça.
— É, realmente. Parece que ela está muito afim de você. E parece não ser de agora.
— Sim, sei disso — David disse mexendo o copo vazio. — Mas não quero dar falsas esperanças a ela.
— Está afim de outra garota?
Fred havia sido quase certeiro. Talvez ele não fosse indiferente como David pensava. Mas também podia ser apenas uma especulação.
— Exatamente — David respondeu após esboçar um pequeno sorriso afetado.
— É a Luana, não é? — Fred perguntou após um breve instante.
David o encarou, mudo. Tudo bem, talvez não fosse apenas especulação. Fred parecia ter notado muita coisa até ali.
— Ele não é meu namorado, é meu noivo — Luana respondeu às amigas, já que havia prometido falar um pouco mais sobre o seu compromisso. — Confesso que estou sentindo um pouco a falta dele.
Jéssica a fitou em análise.
— Estaria louca se não estivesse.
— Louca? — Luana indagou sem entender. — Por quê?
— Um cara que te dá uma aliança como aquela que eu vi, certamente faria tudo por você, e você obviamente estaria louca se não o valorizasse — Jéssica disse. — Aliás, onde está a aliança?
— Deixei em casa — Luana respondeu hesitante. Por que se sentiu tão tímida de repente?
— Relaxa, não vou contar para ninguém — Fred disse numa tentativa de tranquilizá-lo. — Eu meio que percebi porque vocês cresceram juntos, são amigos há tanto tempo. E também pela forma como você a olha. Não sei como Jéssica e Nina ainda não perceberam — ou até a própria Luana. Vocês tiveram algo no passado?
David expeliu o ar pesado e trincou a mandíbula em evidente irritação.
— Nunca tivemos nada — respondeu, a voz grave.
— Talvez deva ser por isso... — Fred refletiu.
David olhou mais à frente. Por que o maldito lanche ainda não estava pronto?
— O homem se mostra um belo de um partido, e você esquece a aliança em casa? — Jéssica mostrou-se indignada, mesmo que estivesse brincando. — Acredita nisso, Nina?
Nina apenas sorriu e continuou a prestar atenção na conversa das duas.
— Jéssica, não estou com ele pelo dinheiro — Luana enfatizou.
— Eu sei, mas ele te conquistou, não foi? Para logo quererem se casar.
— Num tempo bem precoce, aliás — Nina completou.
Luana calou-se, absorvendo o que havia sido dito.
Nina e Jéssica tinham razão. Ainda era muito cedo para investirem num relacionamento sério como namoro, ainda mais um noivado, e com alguém que ela havia conhecido no mesmo dia. A maior parte de seus relacionamentos anteriores começou primeiramente com apenas alguns beijos aqui e ali, mãos dadas, passeios, para depois concordarem em investir em algo mais sério. Entretanto, de todos os homens com quem ela se relacionara, Drácula a conquistou de um modo como nenhum outro. Além da bela aparência, também era gentil e cavalheiro, o que seria incomum para os tempos atuais, se ele não fosse um vampiro. Não havia como não gostar dele.
— Sim, foi — Luana concordou com Nina. — Mas acho que nos atraímos em primeira instância.
Luana riu achando graça do que dissera e Nina a acompanhou, talvez num ato de descrença pelo que tinha ouvido.
Jéssica a encarou atentamente, a mão apoiada sob o queixo, ponderando sobre algo.
— Eu soube que Luana está comprometida com alguém — Fred disse tentando manter a conversa, já que o silêncio de David parecia estar ainda mais intenso agora do que antes.
Maldita havia sido hora em que Fred o lembrou desse infeliz fato. David teve de reunir todas as suas forças profundas e intensas para não nocautear o balcão ou o que estivesse pelo caminho.
— Sim — David respondeu com a voz rouca por um grito ainda não emitido.
— Desculpa ter te deixado de mau humor — Fred disse parecendo arrependido.
Não precisaria Fred saber de seu sentimento por Luana, ou até mesmo lembrá-lo por qual motivo ela o ignorava mais que tudo, para David querer explodir o mundo. Mas a noite ainda estava começando, e ela não escaparia.
— Você o ama?
— Como? — Luana perguntou, surpresa.
— Você o ama? — Jéssica tornou a perguntar.
Luana desviou o olhar, refletindo sobre a pergunta nada discreta de Jéssica e na resposta que deveria dar.
Ela, de fato, o amava? O que sentia por Drácula era assim tão forte que poderia ser identificado com amor?
— Bem... Sim. Acho que sim — respondeu tentando ser o mais convicta possível.
Jéssica a fitou, e parecia olhar no fundo dos seus olhos.
— Você acha ou tem certeza?
Luana sustentou o olhar da amiga, embora estivesse um pouco desconfortável com o interrogatório. E pensar que achara ser bem pior responder quem o seu noivo era de verdade.
— Tenho certeza, claro — Luana respondeu sorrindo sem muita vontade. — Ele é bom para mim.
Luana diria também que ele mais parecia um cavalheiro a moda antiga, bem diferente da maioria dos garotos dos quais ela conheceu. Mas sabia que, se fosse além, Jéssica e Nina perguntariam por mais e se aprodundariam em assuntos que Luana não se sentia confortável para contar no momento.
— Batata-frita prontinha no capricho.
Uma mulher alta saiu detrás da cozinha com a generosa porção de batatas-fritas acompanhadas de calabresas e alguns molhos sobre uma bandeja mediana de alumínio.
Fred sorriu agradecido para a atendente, mas mesmo assim o sorriso animado dela diminuiu ao fitar o olhar inflamado de David.
— Obrigado. Se paga aqui mesmo, certo?
A mulher tentou não se intimidar pela bela aparência e olhar de poucos amigos de David e tornou a sorrir educadamente para Fred.
— Sim, aqui mesmo — ela respondeu tentando disfarçar o nervosismo. — Débito, certo? — Perguntou ao observar Fred tirar um cartão da carteira.
— Sim — Fred confirmou e estendeu o cartão para a atendente. — Uma porção de batata-frita com acompanhamento e algo alcoólico para beber. O que você me recomenda?
— Que tal a cerveja da casa? — A atendente indagou apontando para o líquido artesanal servido em diferentes torneiras prateadas por outros balconistas aos clientes que estavam sentados nas banquetas e também aos que estavam em pé.
David ignorou os olhares furtivos da atendente em sua direção e estendeu a mão para Fred, num gesto de impedimento.
— Não, você não vai pagar tudo isso sozinho.
— Mas eu vou pagar pelo cartão — Fred contrapôs.
— Você paga por uma coisa e eu pago por outra — David continuou simplesmente.
— Não precisa, David — Fred o tranquilizou.
— Sim, precisa. — David sacou sua carteira e tirou um cartão. — Vocês têm a garrafa daquela cerveja? — ele perguntou para a atendente indicando com um gesto a cerveja artesanal que ela havia indicado.
A mulher pareceu se recompor, o que não era muito fácil com a presença de dois belos homens à sua frente; principalmente por um em específico.
— Não há garrafas, mas torre de chopp que vocês podem levar à mesa e se servirem à vontade — ela respondeu.
— E qual seria o tamanho dessas torres? — Fred indagou.
— Um momento — A atendente pegou um objeto que ficava na parte debaixo da estante que separava a parede do balcão com a cozinha logo atrás. A torre de chopp aparentava ter por volta de cinquenta centímetros ou mais. — Sessenta e oito centímetros de altura, contando com a base — explicou a mulher. — Capacidade para quatro litros, e vem acoplado um refil resfriador congelado que mantém a bebida com a mesma temperatura por mais tempo.
— Ótimo, vou querer — David disse e estendeu o cartão a ela. — O meu amigo vai pagar pela porção de batatas-fritas e eu vou pagar pela cerveja. Estamos de acordo? — Ele se voltou para Fred que sorriu convencido.
— Sim, claro — Fred respondeu. David não parecia ser o tipo de pessoa que se pudesse contrariar.
— A casa consegue algum desconto no segundo pedido da bebida? — David indagou a atendente, apesar de ter quase certeza de que aproveitaria quase nada daquele lanche.
— Para repor a bebida? Claro que sim — ela respondeu quase sorrindo abertamente, se não estivesse tão nervosa. — Uma porção de batata-frita com acompanhamento, uma torre de cerveja artesanal e mais dois copos de bebida, correto? — A atendente anotou e passou os dois cartões separadamente, adotando uma postura mais profissional.
— Sim — Fred e David responderam.
A atendente fez como deveria e estendeu os dois cartões para os dois homens, cada um para o seu dono.
— A torre será entregue daqui a pouco na mesa de vocês — Ela disse ainda com o belo sorriso educado.
Fred, que segurava a bandeja, olhou para David que parecia estar um pouco mais calmo que antes, embora o seu olhar sério estivesse voltado para alguém em específico.
— Aquela atendente gostou de você — Disse em tom de provocação.
— Problema é dela — David respondeu de modo curto, quase arrancando risadas de Fred.
— E como ele é, Luana? — Nina indagou interessada.
Luana olhou para Nina.
— A que se refere? — perguntou de volta.
— À aparência. — Nina fez um gesto indicando o rosto.
Luana sustentou o olhar curioso de Nina por um breve instante.
Se Nina tivesse feito essa mesma pergunta em relação a como Drácula era em seu modo de se portar, ou em sua personalidade, seria mais fácil e rápido de responder, apesar de conhecê-lo há tão pouco tempo.
Luana ergueu o olhar e avistou Fred e David vindo em direção à mesa em que elas estavam.
Seu cenho se franziu de imediato.
Como ela não havia percebido antes? David e seu noivo eram praticamente iguais.
Nenhum comentário:
Postar um comentário