sexta-feira, 7 de julho de 2023

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 18



A conversa entre as mulheres foi interrompida quando Fred estendeu a bandeja sobre a mesa, arrancando suspiros desejosos e palavras de apreciação delas pelo lanche.


— Prontinho — Fred disse e sentou-se ao lado de Jéssica, rodeando a cintura dela. — Compramos também uma torre de cerveja artesanal da casa, daqui a pouco eles nos servirão.

Aproveitando o momento em que Fred, Jéssica e Nina estavam falando entre si, David lançou um olhar sutil para Luana.

Ela também havia olhado em sua direção, mas rapidamente desviou o olhar, como sempre. O seu corpo parecia tremer, o que certamente foi por algo recente, pois ele duvidava muito que ela estivesse daquele modo enquanto conversava com Jéssica e Nina. Mas qual teria sido o motivo — a sua presença, talvez? Se Luana atualmente o via com indiferença, ou, no máximo, como o amigo que fora tempos atrás, então por que continuava tão tensa perto dele e até mesmo quando o via? David tiraria aquela história a limpo de uma vez por todas naquela noite. Mas primeiro, esperararia um pequeno passo dela até dar uma pausa do momento entre o grupinho.

— Com licença — Surgiu a voz de um homem ao lado.

Um atendente apareceu segurando a torre cheia quase até o topo e os outros deram espaço para que ele pusesse o objeto pesado próximo a bandeja. A mulher alta o acompanhava, segurando os copos de vidro, e os colocou sobre a mesa. O olhar dela se fixou ao lado, brilhando em expectativa por algo.

— Obrigada — Jéssica agradeceu dando seu melhor sorriso cortês.

— Não há de que — respondeu o atendente solícito. — Terão desconto se fizerem o próximo pedido da cerveja, e também podemos fazer de qualquer outro lanche que os senhores escolherem. Também temos o jokebox — O atendente apontou à esquerda, onde se encontrava um objeto por onde se tocavam as músicas próximo a pista de dança. — Se quiserem escolher outras músicas, estejam à vontade.

Os outros responderam com igual cortesia, sentindo-se bem-vindos naquele local pelo bom atendimento.

— Bom apetite — Os dois atendentes disseram, mas a mulher alta aproximou-se mais da mesa em vez de seguir seu colega, que a fitou com um olhar interrogativo.

— Antes que eu me esqueça, aqui está o contato do bar, se quiserem voltar — A mulher disse com uma voz aveludada, embora um pouco tensa, enquanto estendia o cartão de visita para David.

Não somente David olhou para ela, como também o colega, o grupo sentado à mesa e outras pessoas que estavam por perto. Contudo, enquanto eles se entreolharam em surpresa e com sorrisos maliciosos, David não esboçou qualquer reação. De todo o modo, resolveu ser educado.

— Obrigado — David agradeceu num tom de voz frio, o que não afetou a mulher alta que saiu dali dando mais uma olhada na direção dele e ignorando a reação do colega que a acompanhou logo atrás.

— Que surpresa, hein, David — Fred disse achegando o corpo mais próximo ao estofado.

Fred estava provocando-o novamente. Faria questão de ignorar o comentário dele e os sorrisinhos maliciosos de Jéssica.

Ignorando a expressão irritada de Nina, e o motivo ele já devia saber — não que o que acabara de acontecer fosse da conta dela —, David mais uma vez olhou na direção de Luana. Pelo visto, ela também parecia irritada com algo. David quis sorrir. Então ela não era tão indiferente assim.

David estendeu o cartão para o centro da mesa.

— O cartão foi dado para quando voltarmos. Não ficarei com ele, mas se algum de vocês quiser pegá-lo, vá em frente.

— Bem, então é melhor ficar comigo. — Jéssica pegou rapidamente e o colocou dentro da bolsa, olhando diretamente para Fred. — Você não vai precisar disso.

Fred riu incrédulo.

— Amor, era David quem ela queria, não eu — ele defendeu-se.

Nina se ajeitou de modo desconfortável no banco acolchoado. Jéssica pareceu notar seu incômodo e deu uma furtiva cotovelada em Fred que reclamou.

— Ela pode querer o que quiser com David, mas o desejo não é recíproco — Jéssica disse e piscou para a amiga que ruborizou.

Bem diferente do que Jéssica esperava, Nina não sorriu ou fez qualquer gracejo, mas arregalou os olhos e a encarou de um modo como se a mandasse calar a boca.

Jéssica não entendeu. Até há pouco, Nina estava mais confiante em relação a David, e agora parecia estar mais insegura. Talvez fosse pelo jeito nada amigável e intimidante dele, Jéssica pensou.

Jéssica dizia as coisas como se fosse uma especialista, David pensou contrariado. Nem o desejo da atendente alta seria recíproco, nem mesmo o de Nina. Quem ele realmente queria estava a menos de um metro de distância.

— Vamos comer, então? — A voz de Luana soou de repente impedindo que Jéssica continuasse. — O lanche vai esfriar.

Luana sentiu as suas mãos tremerem. Mas por que ela se sentia tão nervosa, tão inquieta? O lugar era bonito, as músicas eram boas, o ambiente acolhedor, estava entre os seus amigos. Mas, bem no fundo, algo a incomodava — ela só não tinha idéia do que seria.

O grupo de amigos lanchou sem pressa, algumas vezes conversando sobre um assunto e em outras vezes preferindo apenas a apreciação das músicas que tocavam do aparelho ao lado da pista de dança quase vazia.

Como a torre de chopp tinha um tamanho considerável, não demorou muito para que Jéssica e Nina ficassem um pouco mais alegres e soltas do que antes; e com certeza, só aquele não seria o suficiente para satisfazê-los naquela noite.

Jéssica se grudava a todo insante em Fred, que não reclamava, mas dava para perceber um certo constrangimento da parte dele quando se tratava dos toques um pouco mais íntimos recebidos pela quase namorada por conta de um elevado grau de embriaguez. Indiscutivelmente, Jéssica não sabia beber.

De todo o modo, ele resolveu dizer — não somente aos presentes na mesa, mas para todos os que pudessem escutar no bar — o quanto amava Jéssica e o quanto a queria em sua vida, o que não era nenhuma novidade para para os três que há muito tempo tinham conhecimento desse sentimento compartilhado pelo casal apaixonado, mesmo quando ainda eram apenas "amigos". Mas, em seguida, houve um momento que nenhum deles havia esperado: Fred se ajoelhou em frente a companheira e abriu uma caixinha aveludada, presenteando-a com um lindo anel de brilhantes. Não era apenas um pedido oficial de namoro; era também um pedido de casamento. Aquilo, de fato, era uma surpresa.

Os lábios de Luana se curvaram num enorme sorriso de orelha a orelha, feliz pelos dois, embora soubesse que a união matrimonial fosse demorar um pouco; Fred e Jéssica eram duas pessoas que gostavam de curtir a vida e que não se importavam nem um pouco em esperar o momento certo, assim como a oficialização do namoro. Contudo, o seu sorriso murchou um pouco ao notar que Nina, por influência da bebida, tentava o tempo inteiro se achegar mais para perto de David, que estava cada vez mais distante do lugar que ocupava antes por conta das aproximações inconvenientes dela.

Luana engoliu em seco e desviou o olhar dos dois.

Ela havia aconselhado Nina a não tentar algo com David, mas havia recebido em troca uma risada de escárnio das duas amigas. Jéssica até concordou com Luana que David era um homem esquisito e reservado ao extremo, o que poderia limitar a aproximação invasora de Nina, mas a própria era a que mais insistia para que Nina ficasse com David, pelo menos naquela noite. Talvez a invasora fosse Jéssica. Mas por que ela se importava? Não era da sua conta. Seria até melhor, pois provavelmente David a deixaria em paz.

Era um pensamento positivo, não era?

— Fred e eu, Nina e David... — Jéssica começou alegre demais, não somente por conta da bebida, mas por acabar de ter se tornado namorada e noiva. — Só faltava o seu noivo aqui para você não se sentir sozinha, não é, Luana?

Jéssica estendeu a mão sobre a mesa num gesto carinhoso e Luana teve de forçar a si mesma de manter a paciência e não apertar com força. Jéssica era uma ótima pessoa e amiga, mas conseguia ser alguém muito sem noção, especialmente quando bebia.

— Ele é reservado — Luana respondeu com calma e educação, embora estivesse quase fervendo.

Jéssica encolheu o braço em espanto e surpresa.

— Outro reservado? — Ela exclamou incrédula. — Igual ao David!

David a fitou com um olhar sério, mas decidiu se calar quando Fred o fitou de volta com um olhar de desculpas pelas palavras da namorada.

— Nem todo mundo é atirado igual a você, Jéssica — Nina a repreendeu, embora estivesse achando graça.

Luana engoliu em seco mais uma vez. Por que ela não conseguia se sentir tão à vontade com os seus amigos, mesmo a noite estando tão agradável, até melhor depois do pedido de Fred?

David mais uma vez desviou dos toques insuportáveis de Nina e se levantou. O olhar de Luana o acompanhou.

— Vou ao banheiro — ele avisou antes de sair e sequer ouvir o que os outros disseram.

Luana fitou Jéssica ao lado que estava bastante aconchegada a Fred.

— Por favor, Jéssica, pare de falar essas coisas — Luana pediu, não com o tom de voz alterado, mas firme o bastante para que Jéssica entendesse.

— E por quê? Qual é o problema? — Jéssica perguntou se defendendo e confusa pela atitude estranha de Luana.

— Nada — Luana respondeu sem saber o que dizer em seguida. O que ela estava pensando, afinal? — Só não fique falando sobre o meu noivo aos quatro cantos.

— Eu não falei "aos quatro cantos". Estávamos falando sobre ele antes de Fred e David chegarem, ou você não se lembra? — Jéssica mais uma vez se defendeu. — Além do mais, eu só perguntei se você sentia a falta dele, já que é a única que não está acompanhada.

— Jéssica, a única acompanhada aqui é você — Luana rebateu.

Nina olhou para as duas amigas. O que ocorria entre Luana e Jéssica não era mais uma conversa, era o início de uma discussão. Por que Luana se comportava daquela maneira, ela já não sabia. De todo modo, resolveu não intervir, por ora.

— Bem, se a Nina for esperta o suficiente, não — Jéssica contrapôs antes de sentir a mão suave de Fred tocar em seu braço.

— Amor, pare — Fred pediu com delicadeza, mas firme. — Não vamos estragar esta noite especial.

— Tudo bem, amor — Jéssica disse ao namorado, mas seu olhar se voltou para Luana. — Eu só não entendo por que Luana está se incomodando tanto por eu ter perguntado sobre o noivo dela, e também por causa de David e Nina.

Luana sentiu o seu coração bater mais forte.

— Tudo bem você ter dito antes que David seria alguém muito complicado para uma romântica incurável como a Nina, e que você o conhece há muito mais tempo do que todos nós aqui, mas eles são adultos, Luana. Deixe eles dois resolverem — Jéssica continuou. — Além do mais, eu respeito o fato do seu relacionamento ser reservado, mas só foi uma pergunta inocente, só isso. Nunca passou pela minha cabeça que você fosse se incomodar.

Um silêncio totalmente desconfortável se instaurou sobre a mesa.

Jéssica estava visivelmente irritada e na defensiva; Nina mal conseguia encarar os três, principalmente Luana, pois desconfiava que talvez houvesse mais naquela história; Luana também não conseguia encará-los, pois tinha medo do que eles pensariam dela e do que mais ela poderia revelar de suas emoções.

Fitou a pista de dança, mas não sentia nenhuma vontade de dançar agora. Fitou o corredor que levava aos banheiros, mas decidiu esperar; David ainda se encontrava lá.

Jéssica não havia feito por mal em perguntar por seu noivo, afinal, Luana não havia pedido para que elas não falassem sobre o assunto. Tê-lo ao seu lado para apoiá-la e fazê-la se sentir melhor, talvez não teria sido uma má idéia. Mesmo com David presente.

Fred olhou sutilmente para Luana. Talvez o sentimento de David não seria tão unilateral assim, ele pensou.

°•♤•°

David terminou de lavar o rosto e fincou os braços a cada lado da pia de mármore escuro enquanto encarava o seu — ainda — reflexo no enorme espelho retangular. Em breve, aquilo também seria tomado dele.

Ele precisava disso, de colocar os pensamentos em ordem antes que fizesse alguma besteira. A vontade que sentia era de arrastar Luana daquela mesa para algum lugar que ninguém pudesse ver e ouvir o que pretendia falar e fazer com ela, e dane-se o que os outros fossem pensar. Mas as coisas não deveriam ser feitas desse modo, disse um lado mais racional de sua consciência. Se continuasse a agir como um animal sedento pela presa, poderia assustá-la e criar um mal entendido.

Mas, infelizmente, sentia que a cada momento torturante que passava, o seu lado mais irracional tomava conta.


Nenhum comentário:

Postar um comentário