Não houve pressa para terminarem de se alimentar, e a única coisa que havia sobrado era a torre de cerveja artesanal um pouco abaixo da metade. Como eles não quiseram repetir, pois se encontravam satisfeitos no momento, combinaram de fazer o mesmo pedido ou pedir outra coisa quando estivessem com vontade.
Eles continuaram conversando, mas de modo um pouco mais escasso que antes. Nina, Jéssica e Fred se entrosavam mais, enquanto Luana permanecia um pouco mais reservada; não que ela não estivesse gostando da noite ao lado dos amigos, mas o clima ali havia ficado um pouco estranho depois da pequena discussão de antes. Jéssica aparentava estar um pouco mais tranquila que antes, mas a sua atenção quase toda estava direcionada a Fred, os olhos claros brilhando por ele e pelo pedido que ele havia feito. Ela parecia mesmo muito encantada.
Nina também aparentava estar tranquila e interagia normalmente com os seus amigos, exceto por algumas vezes em que ela fitava o seu lado direito, onde David estava antes. Ele ainda se demorava no banheiro.
Ou ele havia ido embora?, Luana se perguntou. Conhecendo-o como ela o conhecia, David dispensava cerimônia quando queria sair de algum lugar. Nunca havia sido o seu feitio.
David ainda se demorava no banheiro, Luana pensou se remexendo de modo desconfortável sobre o estofado enquanto verificava no aparelho se havia alguma mensagem de seu noivo; nada.
Ele realmente devia ser alguém muito confiante de si e daquele relacionamento para não ser um namorado ciumento ou curioso como os anteriores haviam sido. O que não era tão estranho, afinal, ele era um vampiro.
O olhar de Luana ficou vago e quase em transe por um breve instante. Ainda era difícil aceitar que vampiros existissem e que, principalmente, ela era noiva de um.
— Vamos, Lu — alguém a chamou.
O olhar de Luana se fixou à frente e observou Jéssica puxando Nina da mesa em direção ao que parecia ser a pista de dança.
Luana guardou o aparelho dentro da bolsa e fitou Fred.
— Você não vai? — Ela perguntou a ele.
— Vou ficar aqui tomando conta dos nossos pertences e esperar David — Fred respondeu. — Podem ir primeiro. Mas a próxima dança é nossa, você sabe.
Luana quase corou e sorriu ao observar o olhar e sorriso sedutor de Fred para Jéssica, que o retribuiu. Certamente, aqueles dois teriam muito o que comemorar naquela noite.
— Tudo bem, eu vou — Luana determinou após deixar a bolsa sobre o estofado de couro e fitou um pouco mais à sua esquerda antes de se juntar as amigas.
O corredor era relativamente longo e estreito, um pouco escuro com luzes brancas, amarelas e outras coloridas enfeitando o ambiente. Haviam duas portas de frente uma para a outra; certamente, deviam ser os banheiros. Pessoas iam e vinham, algumas alegres, outras nem tanto, outras impassíveis e outras alteradas até demais por conta do álcool. E mesmo com um relativo fluxo de pessoas passando por perto, alguns casais se encontravam encostados nas laterais do corredor, aproveitando-se da pouca luz para entrarem num clima mais romântico.
— David não deve estar com dor no estômago, certo? Ele mal tocou na comida e na cerveja — Jéssica comentou indo para a pista de dança acompanhada das duas.
— Eu, definitivamente, não consigo imaginar David com dor no estômago — Nina disse rindo.
As outras duas riram também.
— Nina, David também é um ser humano, como qualquer outro — Jéssica disse em meio a risadas. — Não é, Luana?
Luana fitou as duas. Ela havia sido o centro da atenção novamente. Não era de se esperar muito, já que ela era a única pessoa que realmente o conhecia. Ela ainda se lembrava de quando David dissera a ela que não era muito ligado a família.
— É, acho que sim. — Luana riu sem muita vontade, dando de ombros.
Luana sempre gostou de música, independentemente se fossem atuais ou antigas. Para ela, algumas músicas eram atemporais, mesmo que não pensasse o mesmo de outras. E como poucas pessoas ali presentes, ela se soltou mais do que antes dentro da pista de dança.
°•♤•°
— Algum problema, cara? — Fred perguntou observando David.
O colega ao lado parecia desnorteado, com pensamentos em outro lugar. O suor era nítido em sua têmpora.
David olhou do vazio para Fred que o observava com certa cautela.
David engoliu em seco. Algo parecia estar errado. Ou talvez só estivesse se acertando aos poucos, mesmo contra a sua vontade. Qualquer que fosse a resposta, ele não se sentia bem.
— Estou, claro. — O canto dos lábios subiu num pequeno sorriso forçado. — Apenas fiquei um pouco tonto.
Fred o encarou em evidente confusão.
— Você mal tocou na bebida.
David olhou para a torre logo à frente com a bebida abaixo da metade.
Ele mal havia tocado em qualquer coisa, para dizer a verdade. As batatas pareciam estar mofadas, as calabresas mais pareciam carnes podres, e os molhos por cima mais pareciam restos de fungos misturados com secreções. A bebida era o menos pior, mas ainda assim, era praticamente intragável.
Obviamente, os outros não sentiram o mesmo. O problema era com ele. Problema que só aumentaria, triplicando o seu inferno pessoal.
— Não estou com muita vontade — David respondeu rápido, embora a sua mente vagasse em pensamentos nada bem-vindos. — Prestei mais atenção no que ocorria entre a gente do que o que eu tinha em minha frente.
Fred assentiu compreendendo.
— Entendo.
— Aliás, meus parabéns pelo seu noivado com a Jéssica — David complementou.
Fred mostrou um sorriso de um homem bobo apaixonado.
— Não foi bem um pedido de casamento, apenas deixei claro que futuramente quero que ela seja a minha esposa e mãe dos meus filhos — respondeu brincando com a borda do copo pela metade. — Foi um anel de compromisso, de oficialização do que já tínhamos.
— Ela ficou muito feliz — David comentou.
— Verdade — Fred assentiu e se achegou mais à frente, fitando atentamente o homem do outro lado da mesa. — Aliás, você notou que Luana não está usando o anel?
O olhar de David se estreitou e ele assentiu.
— O anel de noivado? Sim, eu notei — David respondeu. — Ela tenta esfregar na minha cara o tempo todo que está com esse imbecil, mas sempre tenta esconder o maldito anel quando está perto de mim.
David pigarreou incômodo. A sua voz mostrava rouquidão por raiva e satisfação ao mesmo tempo.
— Eu achei um pouco estranho quando a Jéssica me contou que Luana já está noiva — Fred disse. — Quer dizer, não é cedo demais? Parece que ela está com pressa.
— Sim, ela está com pressa, Fred — a voz de David soou um pouco mais alta antes que Fred terminasse de falar. — Ela sempre esteve com pressa de se envolver com alguém e, ao mesmo tempo, sempre ignorou o que eu sempre senti por ela.
David teve de comprimir o punho em riste por debaixo da mesa. Teria de se controlar, ou as coisas poderiam piorar por sua causa.
— A verdade é que ela é carente por aceitação, mas não consegue enxergar o que está à sua frente.
Fred continuou a fitar David atentamente.
O colega à sua frente era um livro aberto. Cada centímetro de David transpassava o que ele sentia, desde o rosto transfigurado pela raiva, o corpo se movendo de um lado para o outro em evidente irritação, até o tom de voz ficando cada vez mais grave e ameaçador. Fred gostaria de nunca ter qualquer tipo de problema com ele.
— E o que você pretende fazer? — Fred perguntou.
David contraiu a mandíbula, mas conseguiu sorrir ao lembrar do plano que havia feito antes daquela noite começar.
— Vou colocá-la contra a parede - literalmente — respondeu.
— Mas e a Nina? — Fred indagou demonstrando certa compaixão pela amiga.
Apesar de Nina estar completamente irritante naquela noite, David não se desfaria dos sentimentos dela. Não seria insensível a esse ponto.
— Com ela, eu me resolvo depois — David respondeu e fitou na direção da pista de dança, mais precisamente para alguém em especial, a mulher que o fazia se sentir no céu e no inferno ao mesmo tempo.
Fred continuou a olhar para David e se perguntou como ainda não havia notado o quão louco ele era por Luana. Talvez, por ele saber, David já não fazia mais questão de esconder na sua frente, exceto para os outros. E alguma coisa lhe dizia que aquilo que David tinha em mente, talvez, não fosse acabar bem.
— Espero que saiba o que está fazendo — disse antes de tomar outro gole.
°•♤•°
Até mesmo as pessoas mais jovens que não se interessavam por músicas mais clássicas, se renderam de vez e começaram a se divertir, algumas cantando as letras certas, já outras nem tanto, mas tentavam.
Luana estava contente por ter encontrado um lugar interessante como aquele, por conseguir distrair um pouco a mente de trabalhos, responsabilidades e aborrecimentos e, acima de tudo, por Jéssica. Adorava as duas igualmente, mas a cada momento em que fitava Jéssica, dava-se para notar o quão corada e feliz ela estava por ter oficializado uma união com tantas idas e vindas e que, mesmo com desentendimentos ocasionais, permanecia intacta. Fred a amava, agora Luana tinha certeza.
— Estou me sentindo tão bem — Jéssica disse eufórica enquanto acompanhava os passos de Luana e Nina. — Realmente, esta noite valeu a pena.
— Está valendo — Nina a corrigiu gentilmente. — Ainda teremos um bom tempo antes de irmos embora.
— Por mim, eu ficaria aqui até de manhã — Jéssica disse. — Gostei deste lugar. Mesmo.
— Acho que mesmo se não estivéssemos num bar tão legal assim, você ainda pareceria feliz pelo que o Fred fez — disse Luana sorrindo igualmente, esquecendo-se do pequeno aborrecimento de outrora. — Você está mais feliz por causa dele.
Mesmo parecendo ser quase impossível, o sorriso de Jéssica se ampliou ainda mais.
— Sim, verdade — concordou. — Mas o lugar também ajuda.
Luana, em meio ao sorriso, pareceu hesitante por um breve instante.
— Me desculpe, Jéssica. Pelo que eu disse na mesa.
Nina olhou para as duas amigas e sorriu satisfeita. Era raro ter discussões entre as três, mas Jéssica e Luana faziam o tipo de pessoas reativas e que não levavam desaforo para casa. Foi bom ter a iniciativa de uma delas, pelo menos.
Jéssica fitou Luana como se ela fosse uma boba.
— Não precisa pedir desculpas, Lu — Jéssica tentou falar um pouco mais alto que a música no ouvido de Luana. — Eu entendo o teu ponto de vista. Só vamos deixar isso para lá e vamos nos divertir — acrescentou com uma piscadela.
— Tudo bem — Luana concordou e sorriu assentindo. Olhou à sua direita e percebeu que Nina não estava mais presente. — Cadê Nina?
Algo em seu tom de voz soou um pouco tenso, e Luana não soube imaginar o porquê. Ela só esperava que seu comportamento confuso não a traísse.
Jéssica apontou um pouco mais à frente, na direção do início da pista onde estava o jokebox. Nina estava colocando uma ficha no aparelho para trocar de música.
— Logo ali — Jéssica respondeu e voltou a se divertir como antes.
Luana não pôde fazer o mesmo, pois o seu corpo e a sua mente haviam paralisado por um pensamento quase assustador. Ela havia ficado tensa somente pelo fato de Nina ter se afastado delas para outro lugar? E se Nina tivesse ido para onde Luana havia pensado, qual seria o problema? Por que isso a incomodava tanto, mesmo sabendo que a própria Nina não desistiria tão fácil de conquistá-lo? Luana queria que David seguisse com a sua vida e a deixasse em paz, o que era irônico, quando ela mesma procurava por aquele inferno.
°•♤•°
David encarou mais uma vez o próprio copo quase cheio à sua frente. Não era delírio como ele achou que fosse; ali havia sangue. A cor, a textura, o cheiro... até o mesmo gosto metálico.
Agora o seu inferno pessoal começaria de verdade.
David, tentando manter o controle, olhou à frente e percebeu que Fred não se encontrava mais lá. Talvez tivesse ido se encontrar com Jéssica. E seria bom não ver ninguém agora. O seu nervosismo era tamanho que ficaria difícil desconversar quando fosse questionado.
Ele quase se desesperou em pensamento ao observar o fluxo de pessoas que iam e vinham. Possivelmente em breve, ele não mais veria pessoas como aquelas como sociedade comum, que pudessem estar seguras perto dele - nem mesmo seus colegas mais próximos.
E se ele visse Luana como uma futura presa?, pensou angustiado. David jamais se imaginou, ou imaginaria, fazendo algum mal a ela, ao amor de sua vida. Mas, infelizmente, todos aqueles sentidos recentes que passaram a invadir cada centímetro de seus poros e de seus desejos, o fazia a cada vez mais beirar a irracionalidade, tudo por causa de sua maldita herança genética.
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