domingo, 29 de outubro de 2023

A noiva do Drácula (nova versão) - capítulo 20




De onde David estava, dava para se ter uma vista parcial de Luana na pista de dança. Ela parecia se divertir com Jéssica enquanto a batida forte de 'Livin on a prayer' preenchia todo o bar. O seu corpo delgado coberto por uma blusa folgada e uma calça apertada se moviam no ritmo após pular em vibração, afinal, era uma de suas bandas favoritas, ele bem se lembrava. Ela ficava ainda mais gostosa se movendo daquele jeito. David gostaria que ela se movesse assim para ele, o seduzindo ainda mais do que normalmente o fazia e, principalmente, de um modo parecido embaixo dele na cama.

Nada contra Jéssica e Fred, mas ele só estava tolerando aquele início de noite para conseguir emboscar Luana de vez, acertar algumas coisas pendentes e fazê-la se derreter ao seu mais leve toque. Não era só porque ela fazia questão de ignorá-lo, ou porque estava noiva de um imbecil qualquer, que David desistiria de seus sentimentos por ela - não mesmo! Luana não era somente a única mulher, pessoa, que ele amava; ela era o sua única razão de de viver.

— David — A voz de Nina o chamou, afastando-o de seus pensamentos perversos.

David percebeu a presença dela e fitou logo acima, observando Nina em pé ao seu lado no canto do estofado em 'u'.

— O que foi? — David perguntou de modo suave - do jeito dele.

— Você está bem? — Nina indagou ainda de pé. — Você não foi para a pista de dança.

David fitou mais uma vez Luana se movendo ao som da música.

— Não gosto de dançar.

E nem mesmo sabia. As únicas duas vezes em que havia frequentado festas ou lugares parecidos fora num evento da escola, em que se sentira obrigado a ir por causa de Luana, e a primeira vez ainda estava fresca em sua memória; a primeira humilhação pela qual havia passado em seus primeiros tempos de infância.

Nina olhou para David por mais alguns instantes e notou o quão pensativo ele parecia estar, perdido em seu próprio mundo. Ela gostaria de acariciar os fios negros dele e acalentá-lo no que fosse preciso.

— Posso me sentar ao seu lado? — Nina indagou indicando a beirada do assento onde David se encontrava.

David a encarou sem entender, já que o que não faltava eram lugares dispostos no enorme estofado. Ela queria ficar perto dele, era isso - grudada, se possível.

Como ele não estava muito afim de contestar, cedeu o lugar em que estava antes. Nina não se demorou muito a se sentar a lado dele. David se afastou um pouco mais quando ela se aproximou.

— Todo seu — David disse sem nem mesmo olhar para ela.

— Obrigada — Nina agradeceu com sua voz suave.

Ela pensou um pouco no que dizer ou perguntar, e olhou para a torre à frente.

— Quer um pouco? — Nina indagou indicando a bebida ainda contida no objeto.

David fez que não.

— Já está ficando quente — disse simplesmente.

— Posso pedir gelo no balcão — Nina sugeriu ao se levantar um pouco, mas David fez um gesto a impedindo.

— Não se preocupe, Nina. Estou bem — disse, o que pareceu fazer efeito, pois Nina retornou ao seu lugar. — Você pode pegar para si mesma, se quiser.

Ela fez que não e sorriu acanhada.

— Também estou bem.

O silêncio se instaurou sem que Nina soubesse o que dizer para continuar falando com ele e ouvir a sua voz grave e melódica.

Não é que ela não quisesse, David pensou contrariado, apenas não queria sair de perto dele. Ele até poderia acabar com os sonhos dela ali mesmo, mas não faria sentido acabar com algo que nem mesmo havia começado, pensou.

— Você ficou aqui para cuidar dos pertences? — Nina iniciou mais uma vez uma conversa com outra pergunta.

David a fitou.

— Enquanto os outros estão dançando — Nina complementou ao notar que David não havia entendido.

— Ah... sim — ele respondeu.

Nina quase encheu mais um copo de cerveja, mas percebeu que não estava com muita vontade. Talvez fosse o nervosismo. Com os planos de Jéssica, parecia ser tão fácil, o que distorcia da realidade.

E em falar nela...

— David. — Nina se voltou para ele que a fitou impassível. — Quero me desculpar pelas palavras de Jéssica hoje mais cedo. Ela, às vezes, se empolga e exagera.

— Conheço Jéssica há tempo suficiente para saber que isso é verdade — David concordou. — Mas pelo que você pede desculpas, exatamente?

Nina se aproximou um pouco mais, o que não fez muito efeito, pois David se afastou mais um pouco.

— Sobre nós dois — Nina disparou antes que se sentisse impedida de falar por conta da timidez.

Nina era reservada, não tímida - pelo menos, não totalmente. Ela só se sentia desse modo quando seus amigos ou familiares entravam em assuntos mais íntimos, e quando se tratava de David. Ele a deixava mais tímida do que o normal com seu jeito de ser quase antissocial.

David encarou o perfil de Nina. Deveria ser o mais honesto possível com ela, mesmo que isso significasse machucá-la emocionalmente. Contudo, não era como se ele realmente se importasse, apenas quando se tratava de Luana. A sua vivência infeliz o tornara alguém praticamente sem nenhuma benevolência, mesmo com outras pessoas de seu convívio diário.

— Nina, não existe "nós" aqui — David disse e Nina prontamente o fitou. — Sabe disso.

— Mas poderia haver...

Poderia. Sim, talvez pudesse se fosse ela a sorrir para ele naquele dia no lugar de Luana.

— Não, não poderia — David contradisse de modo paciente, apesar da falta de interesse. — Te considero uma colega de profissão, apenas isso.

O cenho de Nina se franziu em evidente indignação.

— Nem mesmo uma amiga? — ela perguntou num fio de voz.

David tentou se controlar para não ser honesto demais ou poderia causar um desconforto e constrangimento entre ambos.

— Sim, uma amiga — disse ele. — Nada mais.

Nina engoliu em seco e desejou ter enchido o copo com a bebida para tentar disfarçar seu nervosismo e desapontamento.

— Mas poderíamos tentar — ela insistiu. Agora que havia tomado coragem para dizer como se sentia, Nina continuaria a insistir, a menos que ele colocasse um basta naquela situação. — Eu sei que nunca tivemos muita afinidade, mas eu aprendi a gostar de você, David. De verdade.

— E você acha que eu sou obrigado a corresponder só porque você diz ter sentimentos por mim? — David perguntou sério. — Nem tudo é como a gente quer, Nina.

Era estranho ele dar aquele tipo de sermão a ela. Sabia que não tinha moral para tal, mas resolveu ignorar o pensamento.

Nina se ajeitou de modo desconfortável no estofado.

— Você teve alguém para gostar? — Ela indagou de repente. — Se sim, pensou do mesmo modo?

Luana havia sumido na pista, talvez estivesse do outro lado de onde não se podia ver. Fred ainda parecia estar lá.

Pelo visto, Nina parecia ter as respostas - ou perguntas - na ponta da língua, David pensou ainda mais contrariado e sem saída. Nem mesmo Luana o deixara sem saber o que dizer.

Nina aproveitou o olhar perdido de David e o silêncio que se seguiu.

— Luana não disse se você já teve alguém em sua vida e, pelo visto, você não aparenta estar interessado em outra mulher. — Nina se aproximou, mas dessa vez, David não se afastou. — Por isso, acho que poderíamos nos dar uma chance.

David suspirou pesadamente.

— Nina, eu não sou para você, e nem você é para mim; não combinamos — David disse tentando ser o mais sucinto possível, embora os olhos de Nina ainda brilhassem de expectativa. — Acho que você deveria investir em algum cara que goste de você, de verdade.

— Mas nenhum cara gostaria de mim de verdade, a principio. Precisaríamos nos conhecer primeiro e, aos poucos deixarmos nos levar — Nina contradisse, olhando mais intensamente para o homem irresistível ao seu lado. — Você e eu já nos conhecemos, David. Tudo bem que não somos tão próximos, mas poderíamos ser e passarmos a nos gostar aos poucos. Você não é comprometido, é?

David não parecia ter alguém em sua vida, e nem mesmo Luana, Fred ou Jéssica haviam dito algo sobre, mas seria bom averiguar em qual terreno ela estava pisando. Não seria uma probabilidade falsa seus amigos terem se enganado.

David engoliu em seco, mais uma vez sem saber o que dizer ou contestar. Nina estava cada vez mais persistente com aquela aproximação e ele não sabia como dar o próximo passo sem parecer um grosseiro imbecil.

— Nina, eu... — David iniciou, mas ela o interrompeu mais uma vez com sua incômoda aproximação

— Apenas me dê essa chance, mesmo que só por hoje — Nina persistiu. Ela sabia que estava parecendo uma boba apaixonada, mas mandou o bom senso para o inferno. — Desde que eu te conheci pela primeira vez, sonho em segredo em ficar com você. Por favor.

David se manteve em silêncio enquanto Nina se aproximava.

°•♤•°

Toda a energia de "You give love a bad name" tinha sido cessada com o comeco de acordes suaves e envolventes, o que quase teve como obrigação a maior parte das pessoas sobre a pista se juntarem em pares, o que não foi diferente com Jéssica e Fred. Eles pareciam tão perdidos um no outro que não haviam notado que deixaram Luana "de vela". Luana não se importou nem um pouco, ela se sentia tao contente pelos amigos. Contudo, no fundo, ela desejou ter alguem para dançar junto com ela, os corpos unidos e as mãos envolvidas um no outro como um abraço.

Luana se afastou aos poucos, curtindo o ritmo e a melodia envolvente da música. Aquela estava sendo, definitivamente, uma noite agradável, e sentia seu humor nas alturas. Nada poderia estragá-lo, nem mesmo as investidas de David, ela pensou ao descer da pista em direção à fileira de mesas, mas percebeu naquele exato momento que estava errada.

O seu passo se deteve e Luana sentiu o seu coração paralisar e seus lábios secarem por um breve instante enquanto observava praticamente sem qualquer reação a cena mais à frente.

Na mesa ocupada por eles se encontravam David e Nina, sentados tão próximos que faltava pouco para ela pular sobre o colo dele - o que não demoraria muito, pois os dois estavam se beijando.


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