Aquele havia sido o seu primeiro beijo, David pensou de modo amargo após se afastarem devagar, ele antes do que ela. O primeiro beijo que ele esperava ansiosamente para ter com a única pessoa que amava.
Os lábios de Nina não tinham um gosto bom, eram amargos; ou talvez ele pensasse assim por não ser Luana à sua frente. Por que a deixara se aproximar a tal ponto? Compaixão, talvez?
Nina ainda se encontrava com os olhos semicerrados e ofegante, embora o beijo tivesse sido leve e suave, nada muito apaixonado por parte dela. Ela sorriu para ele.
— David, isso foi... incrível! — disse sonhadora e até um pouco exagerada.
David a encarou em evidente confusão.
O que seria incrível para ela? Uma mulher praticamente se rebaixar a uma pedinte e roubar um beijo de alguém que obviamente não estava afim? Mas ele não lhe diria, certamente.
— Ah, sim — David disse vagamente se afastando mais dela, que dessa vez não se aproximou.
— Obrigada por isso. Mesmo — Nina parecia estar nas nuvens. — Obrigada por nos dar uma chance.
David se demorou um pouco antes de responder. O seu olhar confuso e incrédulo analisava a expressão doce do rosto de Nina.
— Nina, eu acho que houve um erro aqui — David iniciou, mas novamente foi interrompido por ela.
Nina era uma boa pessoa, mas em certos momentos, ela conseguia ser tão irritante quanto Jéssica, David pensou contrariado.
— Não houve erro nenhum — Nina apressou-se em responder. — Apenas aprofundamos nossos desejos antes de investir num relacionamento de verdade.
— Você quis dizer o seu desejo — David rebateu e notou as sobrancelhas de Nina se arquearem, não exatamente em surpresa, mas em desapontamento. — Foi você quem começou o beijo, não eu. Isso o que acabou de acontecer, veio de suas vontades, não das minhas.
— Mas podemos fazer isso dar certo — Nina insistiu, se aproximando um pouco mais dele.
Para qualquer outro cara, Nina poderia ser perfeita em ser usada para fazer ciúmes em Luana. Mas para David, aquele pensamento era ridículo, pois Luana parecia não vê-lo do mesmo modo que ele a via. Além do mais, ele era um homem apaixonado, não um garotinho que brincava com os sentimentos alheios.
— Mas eu não quero que dê certo. — David se afastou. — Você ressaltou sobre minhas vontades, certo? Pois bem, se dependesse de minhas vontades, eu nem mesmo estaria aqui com você.
Nina se calou prontamente e engoliu em seco. Ela queria chorar, mas decidiu manter-se impassível ou Luana e os outros perceberiam e ela não queria estragar aquela noite - não para os seus amigos, pois a dela já parecia estar acabada ali mesmo.
David percebeu o marejar nos olhos de Nina, mas decidiu ignorar. Afinal, o que ele faria - a consolaria depois dele mesmo ter provocado aquela reação dela?; ou pediria desculpas por um erro que ela mesma tomou, e ele covardemente deixou-se levar?
David fitou mais ao longe e seus olhos se fixaram na pessoa que ele realmente desejava acima de tudo.
Olhos azuis safira e olhos castanhos claros beirando ao mel se encontraram e ele notou que Luana parecia olhar na direção dele e de Nina. Ela o estava encarando. Luana tentou desviar seu olhar do dele, mas sem sucesso. Ela parecia visivelmente incomodada com algo, para não dizer irritada.
O sorriso de David iniciou-se em pura malícia, e seus olhos semicerraram, como se quisesse enxergar melhor a cena.
Como num puro flash de luz, Luana ja não se encontrava no mesmo lugar. Ela passou por algumas pessoas que iam e vinham; o andar sempre confiante agora estava desengonçado, a cabeça baixa.
As pernas trêmulas dela a levaram na direção do corredor, possivelmente para o banheiro feminino. David seguiu cada passo dela de modo mais sutil possível para não deixar tão aparente.
Ela sentia algo por ele, agora ele sabia. Mesmo que não amor, mas desejo, talvez? Era inegável, sobretudo naquele breve momento.
Aquele seria o momento certo para confrontá-la ou provavelmente não teria a mesma chance outra vez.
David se levantou, o seu olhar fixo numa só direção.
— Vou ali — murmurou. Não faria sentido dar qualquer satisfação a Nina, mas ela ainda estava na frente, e ele não daria a volta em todo o estofado para sair.
Nina não se moveu do lugar e o encarou com preocupação.
— Aonde você vai?
— Vou ao banheiro — ele respondeu de modo brando.
— Agora?
Como assim "agora"? David a encarou confuso.
— Vou ao banheiro, Nina — David tentou soar o mais paciente possível. — Qual o problema em ser agora?
Nina se calou novamente, assentindo.
— Pode me deixar passar, por favor? — Ele pediu.
Nina fez como o pedido e puxou a manga longa da jaqueta para que David se voltasse para ela. Ele não somente queria ir ao banheiro, ela desconfiou, ele queria fugir.
— Eu só queria passar mais tempo com você — Ela disse num fio de voz.
David a encarou seriamente antes de sair. Se demorasse um pouco mais, Luana estaria longe de seu alcance.
— Nina, preste atenção. — Ele poderia agarrá-la pelo braço para fazê-la entender, mas aquela nao seria uma boa ideia; não queria transparecer ainda mais rudeza, e a sua anormal força física não permitia tal ato. — Nós não temos nada — disse enfaticamente. — E nem teremos, não importa o que você fale ou faça. Agora me deixe ir.
Mesmo sem qualquer contato sobre a pele frágil dela, havia sido mais rude do que pretendia. Quem sabe, assim, ela entenderia?
Nina o soltou e mais uma vez engoliu algo completamente incômodo entalado em sua garganta.
— Eu sei, David.
— Bom.
David se retirou dali, deixando-a estacada no mesmo lugar, em pé, encarando fixamente a jaqueta escura que se movia para longe dali.
David apressou o passo, embora a distância não fosse tão extensa. As pessoas se esbarravam nele, mas isso não pareceu tirar o seu humor já melhor que antes. Era um homem com um objetivo.
°•♤•°
Quando Luana saiu da cabine, notou que o banheiro se encontrava vazio naquele momento, diferente de poucos minutos atrás. Nem uma única mulher entrou para preencher o ambiente, o que não era ruim, pois ela queria muito ter um momento sozinha.
Luana apertou o botão para que o sabonete líquido escorresse sobre a sua mão e esperou o gatilho de água movido por sensor de movimento. Entre o esfregar de uma mão e outra, lembrou que não havia levado consigo a sua bolsa para retocar a maquiagem, o que seria mais que necessário agora, devido a sua aparência já não tão boa quanto antes. O cabelo estava um pouco desordenado, o batom um pouco escasso nos lábios por ter comido e bebido, mas o que explicaria a blusa praticamente toda amarrotada? Possivelmente por ter se sentado sobre a tampa da privada sanitária, abraçado os joelhos e passado minutos tentando controlar as fortes batidas de seu coração e tentando entender o que estava havendo com as suas emoções, por que se sentia tão confusa.
Luana não estava se sentindo bem, e sabia que o mal estar nada tinha a ver com a parte exterior.
David e Nina haviam se beijado, praticamente do nada, de repente, quando ele mesmo tentava a todo custo se desvencilhar dos avanços dela. Com tanta persistência, Nina havia conseguido o seu desejado prêmio, Luana pensou quase rindo, apesar de não sentir nenhuma graça no presente momento.
O sensor desligou a torneira e ela puxou alguns papéis com certa dificuldade, pelas mãos estarem molhadas, e as secou.
Ela deveria ficar mais algum tempo no banheiro, ali mesmo ou em alguma cabine? Não se sentia bem o suficiente para olhar para os amigos, principalmente para duas pessoas em especial entre eles. Mas se demorasse muito, Jéssica e Nina iriam atrás dela e tentariam arrancar alguma informação, o que obviamente Luana não daria. Em contrapartida, ela queria sair de lá, ir para casa e imaginar que o fim da noite que havia começado boa não passava de um pesadelo.
Jogando os papéis fora, Luana decidiu por sair. Ficar se prendendo, sem ela mesma entender o porquê, não adiantaria nada. Pegaria seus pertences e iria embora.
Mas ao sair do toilet, ela teve uma nada agradável surpresa.
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